quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

"SUS-A-ELES"

Análise às dissertações sobre o tema “SUS-A-ELES” que o José Tavares publicou no blogue em Junho de 2010


Um pouquinho de tempo disponível permitiu-me efectuar uma leitura mais atenta às crónicas e outros artigos publicados no blogue, merecendo-me especial atenção o único que eu encontro da responsabilidade do José Tavares, que não posso deixar de comentar.

Como que numa lição à volta do “ SUS-A-ELES” o José Tavares fala em orçamento do estado, banquete, marquês de pombal, poder das bases e do povo, corrupção combatida, ensaio da cegueira, José Saramago, migalhas, tudo querem comer, vampiros, Zeca Afonso, eles comem tudo e não deixam nada, etc., etc. .

O que eu e os nossos camaradas não queremos esquecer é que “SUS-A-ELES” era o lema do Batalhão de Cavalaria 2909, que em Abril de 1970 partiu rumo a Angola passando a fazer parte da história de Portugal, que no melhor ou no pior temos que assumir.

Quantos e quantos de nós tivemos hipóteses de fugir e ou desertar? Quantos e quantos de nós poderíamos ter utilizado a possibilidade de continuar a estudar de forma a protelar o ingresso nas forças armadas? Ou quantos não tiveram nenhuma destas possibilidades e foram obrigados a ingressar nas fileiras e dar o corpo ao manifesto.

Devemos envergonhar-nos do nosso passado? Devemos esquecer e passar como que uma esponja sobre uma parte da nossa juventude?

Ou devíamos ter feito como alguns que apareceram depois do 25 de Abril arvorados em revolucionários, quando o que fizeram foi andar escondidos no estrangeiro de forma a garantir a sua segurança.

Que país é este em que os falsos desertores foram arvorados em heróis e os homens que sofreram na pele os horrores da guerra são considerados pessoas não gratas.

Diz também o Tavares na sua crónica que pretende falar sobre as suas memórias, sobre o Mucondo, Nanbuangongo e Santa Eulália.

Força Tavares. É isso que estou à espera desde Junho de 2010.

Os teus camaradas e as suas famílias não querem esquecer, não querem ser esquecidos e não têm vergonha da sua HISTÓRIA.


Clemente Pinho. Ex-Furriel Mecânico Auto. C.Cav. 2692

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

ESQUECE!!!!!

Há cinquenta anos, um acto de assalto a uma esquadra de polícia em Luanda "dava início" à guerra colonial...
Guerra colonial?! O que é isso?!
Não houve guerra!...
Quem andou no mato, em Angola, Moçambique, Guiné, nunca soube o que era a guerra!...
Guerra sim, só, no Vietname, ou no Golfo, ou no Iraque, ou no Afeganistão, ou na Sérvia ou Bósnia-Herzegovina... Como se quem morre, fica ferido, ou "simplesmente" sofre, tanto lhe fizesse estar num lado ou noutro...
Até os incidentes em Luanda, que deflagraram sim numa guerra civil mais intensa durante mais (demasiados) anos, é que eram guerra...
Guerra colonial? Ná!!!!
Quem lá andou andou apenas a divertir-se!...
Quem cá ficou é que viveu a guerra!...
Ou quem vivia lá - e muitas vezes fingiu ignorar a guerra - é que soube o que era a guerra!...
Bahhhh!!!!!!
Desculpem o desabafo, mas como muitas vezes dizíamos (ou pensávamos) debaixo de fogo, ou aos saltos nos unimogs, ou à sede, ou à chuva, ou à seca, ou ao inferno do calor, ou ao inferno do frio, ou com vontade de defecar e não poder, ou com vontade de urinar e não poder, ou com vontade de comer e não poder, ou com vontade de beber e não ter água, ou com vontade de andar e não poder passar as lianas, ou a lama, ou atravessar as lâminas do capim, ou com vontade de dormir e temer sequer acordar, ou adormecer e acordar coberto de formigas, ou "dormir" num leito de rio da chuva, ou ficar cheio de bolhas das pulgas matacanhas, ou cheio de comichão ao passar por debaixo do feijão-maluco, ou dar de caras com o "inimigo" e ter de matar para não ser morto, ou alternar operações com escoltas e estas com idas à lenha ou à água, ou ver, quando no aquartelamento, todos os dias as mesmas caras, a mesma paisagem, o mesmo horizonte, ou com saudades da família sem poder desabafar, ou invejando, nas noites do mato, estendidos no duro chão impregnado de raízes fluorescentes, os passageiros no interior daquele avião de que apenas se via a luzinha, lá bem no alto, atravessando o céu estrelado, desconhecedores do medo, do sacrifício da noite gélida e do combate do dia seguinte, referia eu que, como dizíamos ou pensámos naqueles momentos:
- PORRA DE VIDA!...
Hoje, já não há paciência para isso. Já ninguém se lembra. Parece até que nunca aconteceu. É caso para pensarmos: ESQUECE!!!!!!....
(para não empregar mais vocabulário vernáculo...)

domingo, 30 de janeiro de 2011

"Cumprimentar o Amaral"

Caro amigo é com enorme prazer e também com muita expectativa que tomei conhecimento de que vais ser mais um participante activo no blogue.
Fiquei contente e por isso puxei pela cabeça e fui procurar uma foto nossa, que publiquei juntamente com o meu último capítulo, para te ajudar a avivar a memória.
Um abração do ferrugento.

"Como eu entrei na Guerra"





Capítulo 16º



Apresentação dos maçaricos na fazenda do Bombo.



Para a recepção à nova fornada de carne pra canhão que nos vinha render, a Fazenda do Bombo preparou uma pequena recepção de boas vindas, com muita cerveja e whisky e um bailarico, em que a principal atracção seria o condutor Ramos com a sua concertina.


A única mulher que havia era a lavadeira, velha como ou caraças e desdentada, que não sei se acabou ou não por dançar. Mas toda a maçaricada que dançou, incluindo oficiais e sargentos, ainda hoje é capaz de jurar que dançou com uma mulher. Não há dúvida que os negros tinham um jeito muito especial para se vestirem de mulher.
Com o aproximar da noite começou a formar-se a coluna militar que iria levar todos os companheiros à fazenda.



No unimog da frente, o Capitão Taxa Araújo mandou instalar um farolim, dos que se usavam para a caça à noite e solicitou um voluntário para ir a farolinar, ou seja iluminar as margens da picada.



Quem se ofereceu? Eu pois claro.
Caçador afamado já até com algum curriculum (lembro-me que até já tinha uma pintura creio que no quarto do Justino a disparar contra um elefante). Hoje,tal como na altura, posso de facto afirmar que foi mesmo um elefante que eu vi na descida do Dange e ainda lhe atirei uma fogachada de G3.

De pé ao lado do condutor do unimog, de peito feito às balas lá ia eu farolinando à procura de vislumbrar os olhos dum veado ou duma pacaça, até que dei mesmo com eles e mandei parar a viatura.



O Taxa Araújo saltou logo da sua viatura (era um grande guerreiro aquele homem) e veio ter comigo para se inteirar da situação. Com o farol indiquei-lhe no meio do capim a peça de caça que nos poderia proporcionar um belo petisco na messe de sargentos e aluviar o orçamento ao Amaral.
O homenzinho passou-se dos carretos e aos berros só não me chamou de pai, de resto disse-me tudo como os malucos e mandou avançar a coluna o mais rapidamente possível.

Chegámos ao Bombo. Na altura eu não deixava as coisas em meio, fui ter com dito cujo e perguntei-lhe o que é que se tinha passado e qual a razão que o levou a ofender-me. Fiquei então a saber que havia possibilidades de estar preparada uma emboscada, tendo em conta indícios que a coluna que tinha vindo do Zemba com o correio tinha detectado.



Fiquei sem pinga de sangue. Ninguém me tinha dito o que passava e deixaram-me ir à cabeça da (manada) coluna de farol na mão, sujeito a ser o primeiro a levar um tiro no cabeçalho.
Jurei nunca mais me meter noutra. Voluntário só para passar à peluda.



Não há dúvida que o melhor era andar sempre desalinhado.






Clemente Pinho. Ex-Furriel Mecânico. C. Cav. 2692

"Como eu entrei na Guerra"

Capítulo 15 º

A rotação do descontentamento

Páscoa de 1971. Apenas estavam no aquartelamento os aramistas e alguns operacionais doentes ou com problemas físicos tipo esquentamentos, matacanhas, paludismos, preguiça, etc. etc.

Uma avioneta a sobrevoar o aquartelamento e a indicação de que a mesma ia aterrar, sendo necessário garantir a segurança à pista.

Iria ser o meu 3º contacto com o Comandante do Batalhão Tenente Coronel Duarte Silva.

Lembro-me como se fosse hoje. As palavras que proferiu ainda estão gravadas na minha cabeça e nem com o passar dos anos me consigo esquecer.

Todo o pessoal presente no aquartelamento, excepto os acamados e os sentinelas, formaram em frente ao refeitório dos soldados e foram estas as palavras do Comandante.

- “Fui chamado a Luanda ao Quartel General e graças aos êxitos do nosso Batalhão no Norte de Angola ofereceram-me a intervenção e eu, certo de que ia de encontro aos vossos sentimentos aceitei”.

De encontro a que sentimentos? Quem é que nos ouviu ou se importou com a nossa vontade? Que tristeza…

Foi um balde de água fria que caiu sobre a minha cabeça e da dos meus companheiros de armas, pois estávamos tão longe de pensar a traição que nos faziam. Não havia dúvida de que não passávamos de carne para canhão ao sabor dos interesses pessoais dos senhores da guerra.

Lembro-me de mandar destroçar todo o pessoal, que de cabeça baixa recolheu às suas instalações pois os destinos que sonhavam e que estavam em aberto para a segunda parte da comissão tinham-se esfumado.

Nesta fase fiquei de cabeça perdida e desalinhei por completo.

Clemente Pinho. Ex-Furriel Mecânico Auto. C.Cav. 2692

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

"Como eu entrei na Guerra"

Capítulo 14º

É Carnaval. A Guerra pode esperar...














Carnaval de 1971. Eu, o Gomes, o Leitão e Aragão Pinto resolvemos dar um pontapé na monotonia e providenciar uma cegada das antigas e brincar ao carnaval, matando assim saudades da nossa vida de civil.
Às escondidas, na ferrugem, adaptámos uniformes, capacetes e até o próprio jipe de acordo com os figurinos da PM (Polícia Militar) com a intenção de aparecer de surpresa à entrada da porta de armas do Mucondo como autênticos polícias militares, com objectivos devidamente definidos.




Tendo em conta as possíveis reacções do Taxa Araújo, preparamos também um uniforme à maneira para o Passarinho (condutor do Jipe), a única pessoa para além do capitão e de mim (eu só com a placa de avariado ou instrução) que podia conduzir a viatura, de forma a evitar alguma penalização para a nossa ousadia.


Mal nos situámos à entrada da porta de armas solicitámos que fossem informar o Capitão que a Polícia Militar estava à entrada do aquartelamento e, momentos depois, apareceu-nos o Taxa em passo acelerado, que só diminuiu quando se apercebeu da entidade dos valorosos PMs. que, sem escolta, se aventuraram desde a oficina da ferrugem até à porta de acesso ao aquartelamento (50 metros).
A primeira reacção do homem foi fazer “sangue” mas depois, mais concentrado e talvez porque um dos participantes da cegada era um dos seus meninos bonitos, engoliu em seco, transformou o sorriso amarelo num outro mais apresentável, achou graça e alinhou na brincadeira.




Entretanto e para compor o divertimento alguns camaradas vestiram-se de mulher e parodiaram as famosas zaragatas entre prostitutas, chulos, marujos e soldados, com cabeças partidas, ligaduras, fardas rasgadas que nos obrigaram a intervir fazendo algumas “detenções”.




Lembro-me que acabámos com uma moça negra, quem nem sei donde apareceu, sentadinha no jipe e que nos vimos aflitos para fazer sair, pois adorou andar de cu tremido encima da viatura.


Foi uma tarde memorável, em que graças as umas simples modificações e boa disposição conseguimos que uma companhia inteira esquecesse as agruras da guerra e festejasse um Carnaval à maneira.
Presto a minha homenagem a todos os companheiros que me acompanharam e participaram nesta cegada, pois só com a sua colaboração se conseguiu atingir o objectivo previamente definido.

Divertir, divertir, divertir…
Já noite avançada consegui recolher aos meus aposentos com uma camada de tal ordem, que me custei a convencer que estava na guerra.








Se isto era desalinhar?






Clemente Pinho. Ex-Furriel Mecânico Auto. C.Cav. 2692








"Como eu entrei na Guerra"

Capítulo 13º

Pinho e Pina Silva a aprenderem a tocar viola



De GMC até Quibaxe.



A evacuação da velhinha GMC (viatura com um passado glorioso no início do conflito) foi de facto uma carga de trabalhos, tendo em conta que o “animal” não tinha ponta por onde se lhe pegasse.



Motor de arranque não tinha e era posta a trabalhar de empurrão. A caixa de velocidades dava para enfiar algumas mudanças que arranhavam de tal ordem que até nos punham os cabelos em pé, travões apenas o de mão.



Escoltados por um pelotão da tropa de elite da C.Cav. 2692, arrancámos direitos a Quibaxe com a GMC devidamente engatada a uma das Berliet , através de uma lança de reboque.


Dentro da cabine, eu a conduzir e o Pina Silva como ajudante com a missão específica de accionamento do travão de mão, único acessório que funcionava mais ou menos embora com risco de incêndio, devido ao atrito nos calces de travões, lá conseguimos chegar sem sobressaltos de maior até à descida para o Dange.


Porque se tratava de uma zona com um declive muito acentuado tratei de prender um cabo de reboque a uma outra Berliet, que coloquei na traseira da GMC e atacamos a descida.


Com a GMC devidamente entalada entre as duas Berliet carregadas de companheiros de luta, fizemos no máximo uns quinhentos metros quando, para mal dos meus pecados, o cabo que aguentava a minha viatura se partiu e a pressão sobre a Berliet da frente foi de tal ordem que dobrou a lança e só não foi tudo morro abaixo porque num golpe de génio (sorte) consegui enfiar por debaixo da traseira da Berliet a frontaria da GMC e, ao fim de alguns metros de arrastamento conseguimos imobilizar-nos junto do precipício.


Deus esteve connosco naquele momento.


Fiquei sem pinga de sangue e a partir daí já nem o Pina Silva me quis acompanhar na viagem. Lembro-me que as pernas ainda me tremiam quando cheguei a Quibaxe e nem vontade tive para ir “mudar o óleo”, coisa que normalmente fazia sempre que ia ao Pelotão de Apoio Directo.


De facto a evacuação da GMC foi um risco mal calculado, que nos poderia ter saído muito caro.


Mas enfim, haja quem mande. Só nos resta obedecer.





E vai um faducho

Clemente Pinho. Ex-Furriel Mecânico Auto. C.Cav. 2692