Parte 2
240º Dia
... Seis anos.
A breve prazo concluiu-se que tínhamos
trazido para casa o pior dos inimigos. Uma mascote que se recusava a sê-lo.
Queríamos transformar um emblema do inimigo, nascido e criado na guerra do
mato, em imagem de bondade, segurança e conforto proporcionada pelo ocupante.
Uma mentira que o Júlio jamais permitiu que acontecesse...
Um mês de Mucondo. Adoeço.
Não me tocava ainda uma febre de paludismo
inesperado que, mais tarde ou mais cedo, a todos os que passaram por África
haveria de bater à porta.
Após um dia inteiro em coluna de ida e
volta bem para lá do Onzo, direcção de Nambuangongo (de pesada memória do
início da guerra) a cerca de 200 quilómetros, senti uma espécie de borbulha no
pescoço que cocei. De seguida limpei o pó dos olhos que me cegava. O suficiente
para uma micose típica alastrar pelo pescoço, cara e pálpebras e me tirar por
largos dias da picada e da minha estreia nas operações ao lado do Capitão.
Não perdi pela demora. Mais tarde ou mais
cedo iria parar ao mato no teste mais importante de quantos me sujeitavam ali.
Numa das operações em que não participei
foi capturado um rapaz que não teria mais de seis anos. O Júlio, que nunca percebi
se era o seu nome verdadeiro se adoptado. Normalmente era atribuído o nome do
soldado que o capturava. Como era costume, foi adoptado pela Companhia,
passando a funcionar como uma espécie de mascote, uma tradição para a maior
parte das companhias em África. Na altura o Júlio dizia-se ser filho dum
comandante de um grupo importante que actuava na zona. Passou a habitar a
camarata dos Sargentos. Para melhor compreensão, convirá reforçar que o
Mucondo, como a quase totalidade dos aquartelamentos da guerra em África, era
um sítio isolado distante da civilização, distante de tudo.
O Júlio jamais sossegou desde o momento da
sua captura, em que esperneou e gritou a plenos pulmões que o matassem ali
mesmo mas que não o levassem.
Nunca chorou.
Seis anos.
Integrado no aquartelamento, mas
desorientado no lugar em que se encontrava, tentou aliciar mais de metade da
Companhia para o levarem de novo para o mato. Roubou e enterrou munições que
retirou de um carregador de G3 na caserna dos soldados. Foi encontrado por mais
de uma vez a tentar desmontar uma G3 no intuito evidente de a fazer
desaparecer, para posteriormente a utilizar na fuga que planeava todos os dias.
Seis anos.
Quando um dia um grupo de mulheres e
crianças afectas aos guerrilheiros se apresentou, seduzidas por uma operação de
acção psicológica de nome “Vinde a nós”, em que foram lançadas no mato t-shirt’s e
panfletos com promessas de bem-estar, o Júlio passou dois dias a insultá-las
pelo seu acto de renúncia, chegando a tentar agredi-las fisicamente.
Uma noite, dissimuladamente, e no intuito
de as maltratar, lançou algumas munições de G3 para a fogueira em que as mulheres
se aqueciam, cuja deflagração feriu duas delas e levantou um pandemónio no
aquartelamento por se julgar que estávamos a ser atacados.
Seis anos.
A breve prazo concluiu-se que tínhamos
trazido para casa o pior dos inimigos. Uma mascote que se recusava a sê-lo.
Queríamos transformar um emblema do inimigo, nascido e criado na guerra do
mato, em imagem de bondade, segurança e conforto proporcionada pelo ocupante.
Uma mentira que o Júlio jamais permitiu que acontecesse.
Por motivos de segurança, foi decidido
transferi-lo rapidamente para um acantonamento de refugiados algures em Angola,
onde naturalmente seria sujeito a intensa acção psicológica que o traria de
volta ao convívio e sossego de mais de quinhentos anos de ocupação. Quinhentos
anos ali renunciados em definitivo pelo Júlio, recusando continuar naquela
mentira de mendigar o futuro incerto que lhe queriam vender a troco do silêncio
de um consenso falso e da submissão.
Seis anos.
O Júlio incomodou-me.
Nessa noite dei por mim a pensar que
aquela era já uma guerra perdida. Deitei-me no meu quarto sem janelas, situado
no interior daquelas instalações precárias construídas à pressa sem grande convicção
de serventia para o futuro, e senti uma vontade imensa de aderir à causa do
Júlio.
Adormeci com dificuldade após ter
longamente tentado entender a força das convicções daquela criança, que medi
com as minhas, sentindo-me derrotado naquele confronto.
O Júlio partiria dois dias depois de ter
tentado punir com a sua raiva os ex-acólitos que, cansados de guerra, tinham
por fim desistido. Uma desistência que nada tinha a ver com uma eventual nova
esperança, prometida agora pelo braço armado do colonizador, que deixava t-shirt’s brancas
na mata com a expressão pérfida de “Vinde a nós” estampada em letras garrafais
e promessas de autênticos paraísos, para depois os receber a ração de combate
fria e condensada, mesmo assim um autêntico manjar para quem comia quando havia
e o que havia pouco ia além do pirão que restasse depois do passar da tropa que
tudo devastava, ou de uma chuva de napalm largada pelos Fiat ao
abrigo das convenções do silêncio das matas distantes de Angola. Trocavam
apenas o desconforto da privação total que lhes proporcionava a guerra e a vida
no mato por uma réstia de duvidosa esperança de alguma paz e sossego junto do
inimigo. Talvez para retemperar energias e mais tarde retomar a luta com outras
armas e outro ânimo.
O Júlio recusou sentar-se junto das
mulheres na viatura que os transportou a todos dali para fora. Era um autêntico
guerreiro que não admitia desânimos ou traições à causa. Até na pose direita e
altiva que perfilava na viatura. Que não vendia esperanças ou promessas. Que as
construía ele mesmo pela força das armas, uma inquebrantável vontade de vencer
e um punho fechado que sempre lhe vi em todos os momentos.
Partiu com os olhos secos e a respiração
alterada pelo desespero, fulminando-nos a todos com aquele olhar vivo de raiva
e angústia.
Seis anos.
Nunca olhou para trás, enquanto a coluna
se fazia à picada iniciando a descida do pequeno morro do Mucondo, ponto de
partida de um novo rumo sem norte, que o Júlio tomava sozinho nas mãos. Numa
pose de firmeza e determinação, sentou-se no lugar que ele mesmo escolheu bem
longe das mulheres e fixou o caminho que o levava em desespero para longe,
muito longe, daquilo que sentia ser o seu terreno de luta, onde ficava a
família e o firme desejo de lutar com todas as armas por uma pátria que não
teria que dividir com outros que não exibiam na pele as mesmas cores do sol
africano.
O Júlio não me marcou só a mim.
Nos dias que se seguiram ficou no ar um
silêncio cúmplice da causa do Júlio. Uma espécie de homenagem escondida que
todos lhe prestávamos na forma possível. Um silêncio que traduzia mil e um
desejos de pararmos por ali e regressarmos às origens, onde também havia uma
pátria amordaçada por construir e um futuro novo por desbravar.
A vida havia, no entanto, de continuar.
E havia um Capitãozinho por construir e
uma guerra para levar por diante. O meu primeiro dia de guerra a sério foi
finalmente anunciado. A minha primeira operação no mato foi-me comunicada com
um dia de antecedência. Não contaria com a presença do Capitão que, entretanto,
fora de férias.
O suficiente para uma noite de conjecturas
e imaginação de cenários de guerra sem fim. Aparelhei-me ao longo de todo o dia
em termos de armas e bagagem como se me preparasse para uma longa viagem de
regresso incerto. G3 limpinha e reluzente pronta para a função e em condições
de superar uma inspecção rigorosa de parada pelo lindinho lá de Mafra. Quatro
rações de combate (cada uma acondicionada numa caixinha com cerca de 7x20x30)
que daria para os quatro dias de duração previstos para a operação. Algumas
bolachas meio intragáveis substituiriam amargamente o pão na tarefa de ajudar a
deglutir as latas de conserva, bisnagas de doce, leite condensado, cubos de
marmelada e uma ou outra peça de fruta cristalizada.
O Santos veio ter comigo, admitindo que eu
precisaria de algum apoio naquela primeira tarefa de preparar o meu saco de
lona esverdeado, o qual transportaria às costas durante quatro dias, apenas com
folga na hora de dormir ou nas breves paragens para as refeições.
As quatro caixinhas de ração de combate, bem
acondicionadas no fundo do saco, provocaram um largo sorriso no Santos.
- Escuta lá ó maçarico. Pensas que vais
para algum piquenique? Já agora vê lá se não te esqueces de levar também a
escova de dentes...
Não apanhei a ironia logo à primeira. É
que comigo funcionava outra máxima. Quem vai para o mar avia-se em terra.
- Pois, meu caro. Mas ao fim de umas horas
com esta carga às costas, garanto-te que o que aviaste em terra só vais ter
vontade de atirar ao mar.
Das quatro caixas o Santos reduziu-me a
carga para metade e eu a sentir o meu estômago em grande aflição pontapeando-me
para que tal não permitisse.
- A partir das primeiras horas de
operação vais ver que a vontade de comer te vai desaparecendo lentamente. No
fim aposto que ainda te vai sobrar uma latita de rojões ou umas sardinhas em
molho de tomate. Vê mas é se levas água de reserva porque no mato nunca se sabe.
Acedi não muito convicto. Apetite foi
coisa que nunca me faltou e quando me esforçava parecia até que me aumentava a
vontade de comer.
Tive ali a minha primeira aprendizagem de
sobrevivência no mato. As rações de combate retiradas foram trocadas por mais
um cantil de água e um carregador de munições sobresselentes – e isto porque
íamos para uma zona onde, em princípio, não iria faltar água, porque de
contrário seria avisado levar ainda outro cantil.
- Nesta guerra há duas coisas que não te
podem faltar: munições e água. O resto, com maior ou menor dificuldade
encontras no mato ou suportas até chegar a casa, dizia-me, em tom solene, o
Santos, do alto da sua experiência de 180 dias a subir e a descer montes,
enquanto já se dirigia para a porta de saída deixando-me entregue a meia-dúzia
de dilemas que tinha que resolver sozinho.
Não partia muito convicto da correcção
daqueles preceitos de guerra desconhecidos para mim. Especialmente aquela de
levar apenas duas caixas de ração de combate para quatro dias. Mas a
experiência era coisa a que eu sempre dera muita importância e nem me passou
pela cabeça teimar em não seguir os conselhos do Santos.
Às quatro da madrugada um leve toque na
porta soava a uma espécie de cornetim anunciando a alvorada. Nessa altura, não
levava mais de umas duas horas de sono, de mistura com uma catadupa de
inquietações que me atormentavam o espírito e me faziam imaginar os cenários de
guerra mais patéticos que se possam imaginar.
Um estranho pequeno-almoço servido às 4:30
por um militar estremunhado, tomado na messe à luz mortiça e amarelada de uma
lâmpada ensonada pendente na extremidade de um fio eléctrico entrançado, antecedia
a formatura à frente das viaturas alinhadas na parada. Entre muitas
sensações estranhas, retive a temperatura do ar. Embora fardados com camuflado,
bota de lona e quico (pequeno boné com uma pequena pala e dois bicos atrás que
faziam escorrer a água da chuva para fora do pescoço) podíamos estar ali em
tronco nu que nenhuma aragem nos perturbaria.
Ainda noite, arrancámos finalmente em
direcção ao Mufuque, região montanhosa que distava uns bons quinze quilómetros
dali e que se via perfeitamente do quartel, sempre que o cacimbo permitia.
Comandava o Alferes mais antigo, o Chagas,
que substituía o Capitão, sempre que este se ausentava ou ficava
impossibilitado de participar nas operações. Uma espécie de segundo comandante
operacional da Companhia.
Pouco mais de trinta minutos após termos
saído do Mucondo, apeámos e demos início à caminhada em direcção ao 1020 (cota
topográfica da maior elevação da região) célebre monte daquela zona, que ficou
conhecido com aquela denominação supondo-se ser refúgio de vários acampamentos
inimigos.
Connosco iam dois contratados negros
recrutados na fazenda com a função de carregadores, mas que tinham uma missão
bem mais específica, se bem que por vezes fossem solicitados a transportar o
aparelho de rádio do rádiotelegrafista, um TR-28, talvez com mais de dez
quilos. À medida que íamos avançando, a mata ia ficando mais fechada e o sol
lentamente desaparecendo. A partir de certa altura só era possível avançar
abrindo caminho na vegetação à catana, função então a cargo dos dois contratados.
Aquela primeira operação iria ficar na
minha memória pelos episódios mais extraordinários relacionados com a grandeza
indescritível da mata virgem do norte de Angola, bem no coração dos Dembos. Em
determinada altura o “Montijo”, a minha verdadeira muleta em tudo o que se
relacionasse com actividade operacional, chamou-me à atenção para o local
exacto em que o soldado Guia tinha ficado sem uma perna, o que achei estranho
considerando tratar-se de um local de terra batida onde a colocação duma mina
havia de deixar marcas no solo suficientes para denunciar que o chão havia sido
revolvido.
E assim era. Só que, dissimuladamente, uma
folha de bananeira tinha sido suavemente dobrada sobre o trilho, disfarçando
qualquer indício de terra momentos antes remexida. Um simples aproveitamento do
elemento natural era suficiente para iludir quem ali se encontrava fora do seu
terreno. Passaram sete ou oito sobre aquela folha levemente inclinada sobre o
caminho, calhando ao Guia pisá-la e ser projectado a dois ou três metros de
altura. A táctica do inimigo haveria de mudar. Por sistema não repetiam a mesma
estratégia até à chegada de nova tropa. A argúcia e os estratagemas funcionavam
ali por ciclos. Ciclos de táctica e de imaginação. Ciclos de paciência,
infindável paciência, e perseverança que almejavam um futuro novo e promissor,
para quantos se sacrificavam no mato e na guerra.
Arrepiei-me um pouco e instintivamente
passei levemente de largo como que receando que lá tivessem colocado outra mina.
A mata adensa-se de uma forma
indescritível. O verde brota espontâneo em densas folhagens de todos os
tamanhos, tons e feitios, sombreados pela copa de árvores frondosas de troncos
revestidos por densas camadas de musgo e trepadeiras. O arvoredo que brota
cerrado do chão eleva-se bastante acima das nossas cabeças. Não se enxerga nada
dois metros adentro daquele emaranhado de folhas e caules. É como se,
náufragos, nos debatêssemos mergulhados nas ondas de um mar revolto. A humidade
e o cheiro da terra encharcada mistura-se com os aromas fortes daquela
vegetação nova e luxuriante. Os cheiros são difíceis de descrever. A abundância
e a intensidade de toda aquela amálgama de aromas quentes asfixiam-nos.
Sempre que hoje os recordo, vem-me à mente
a sensação de aromas quentes e doces, que se intensificam em determinados
momentos, para logo se diluírem um pouco mais à frente, quando uma ou outra
clareira nos facilita a passagem e não temos que pisar aquele manto de
vegetação densa, que explode em cheiros fortes macerada debaixo dos nossos pés.
O chão é lamacento enterrando as nossas
botas de lona por vezes até meio da perna, que mais à frente lavamos num
pequeno riacho de água cristalina que chilreante se vai escorrendo num leito de
um metro de largo e dois palmos de fundo.
Os dois assalariados não param. Durante
horas e horas a fio abrem caminho naquele emaranhado de vegetação quase
impenetrável, usando a catana com uma perícia incrível, minando um autêntico
túnel por onde cabíamos por vezes de cócoras ou gatinhando de forma a contornar
a dificuldade em cortar mais alto, quando a densidade de troncos e espinheiras
a isso obrigava.
De quando em vez, ordem para parar vinda
da frente e a exigência de silêncio absoluto do ruído que a nossa deslocação
por entre folhagens produzia, tentando captar algum ruído que indiciasse a
presença do inimigo ou procurando esclarecer sons que nos confundiam
frequentemente vindos das aves e dos milhentos animais da selva que povoavam
aquela autêntica explosão de vida. Progredíamos obviamente em fila a uma
distância de um a dois metros do companheiro da frente. Era possível ver apenas
um ou dois, quer para a frente quer para trás. O terceiro já se perdia de vista
envolto na folhagem larga das plantas e arbustos. Frequentemente era necessário
mandar parar à frente para que os últimos se não atrasassem e não se perdessem.
O ruído das catanas decepando troncos e folhagem ecoava cadenciado naquela
atmosfera fechada onde o silêncio de vozes era sepulcral. O único som que se
escutava a alguma distância dilacerava a vegetação cuja densidade nos garantia
sermos os primeiros seres humanos que por ali passavam em séculos de história e
de vida luxuriante plena de beleza indescritível.
Por vezes ecoava um impropério meio
amaldiçoado de um militar que escorregava e se encharcava de lama, ou enterrava
um pé num autêntico lodaçal menos visível no emaranhado rasteiro de trepadeiras
espinhosas, que nos dilaceravam os tornozelos e as pernas, ditando o fim de um
camuflado novinho em menos de dois ou três meses de uso. Há uma sensação de
desbravar o desconhecido. Uma espécie de retorno à navegação marítima de
descoberta de novos mundos até então desconhecidos. Era garantido que nenhum
ser humano tinha alguma vez passado por ali. A designação de floresta virgem glorificava
ali o seu verdadeiro significado e esmagava-nos com tanta beleza e imponência.
Quando entrámos na imensidão daquela
vegetação fechada algumas horas atrás, o dia estava lindo. Nem uma nuvem. O sol
era brilhante e quente. Mas ali estava escuro e o ar era húmido e fresco. Era
como se o sol tivesse repentinamente sido ofuscado por uma tremenda tempestade
a ponto de transformar o dia em quase noite. As bússolas iam supostamente
apontadas na direcção do 1020. Nem sempre podíamos seguir o rumo indicado pela
agulha que, nervosa, por vezes parecia enlouquecer rodando 180º como se o norte
de repente fugisse para sul, para logo apontar para Leste. As dificuldades da
floresta obrigavam-nos com frequência a optar pelo trajecto menos fácil, por
vezes quase inacessível, para vencer as dificuldades do terreno e da própria
arborização.
No briefing que tinha
tido lugar um dia antes da operação, tinham-me fornecido o azimute da elevação.
De vez em quando eu mirava a minha bússola e tentava perceber se estávamos no caminho
certo. Por vezes parecia-me que sim, para logo achar que andávamos ao
contrário. O norte ali era por vezes um ponto perdido, como nós naquela
imensidão escura e por vezes bafienta, sem estrela polar que nos alumiasse o
caminho, numa espécie de retorno a mares desconhecidos, perdidos em novos cabos
de tormentas de vagas cruzadas que nos pareciam querer atirar borda fora.
De repente ordem para parar. Ficámos
demasiado tempo inertes e agachados de ouvidos apurados tentando ler os
acontecimentos que ocorriam lá na frente. Ninguém sabe o que se passa. A coluna
alonga-se por mais de cem metros de comprimento. Eu encontrava-me sensivelmente
a meio. Maçarico não tinha direito aos lugares da frente onde se tomavam as
decisões. As notícias levam algum tempo a chegar cá atrás. O silêncio enerva.
Podia não ser coisa boa.
Ouvem-se por fim alguns sussurros. Da
minha frente segredam-me.
- Parece que andamos às voltas e já
passámos por aqui há cerca de uma hora atrás...
- Já não é a primeira vez. Com os nabos do
2º pelotão à frente é o que dá..., ouve-se atrás de mim.
- O Alferes Chagas é perito nestas coisas.
Da outra vez quase que morríamos à fome perdidos na mata! Lamentava-se outro
soldado, enquanto se sentava num tufo de folhagem que derrubava com o seu peso,
como se adivinhasse já que o tempo de espera naquela posição de aguardar as
novas ordens se iria prolongar.
Assim era. A frente da coluna tinha
encontrado o nosso próprio rasto num trilho cruzado desbastado na mata algum
tempo antes. Tínhamos efectuado 360º certinhos convencidos que andávamos num
único sentido. Na frente os dois Alferes procuravam descortinar o que estava
errado no rumo que seguíamos. Ninguém se entendia. Já ninguém acreditava nas
bússolas. Os montes encerravam milhares de toneladas de minérios ainda por
descobrir, que baralhavam as agulhas e nos deixavam cegos no meio da escuridão
sem estrelas nem pontos de referência.
Durante algum tempo passámos a caminhar por
intuição tentando adivinhar de que lado está o sol, quando alguma claridade
parece acentuar-se numa determinada zona da copa da floresta cerrada. A outra
opção é a de subir e assim ter alguma garantia de que nos elevamos e não
continuamos às voltas lá em baixo, quando o 1020 está bem lá em cima. Depois,
subindo, é natural que se aviste qualquer coisa que nos reoriente a posição em
que estamos e a missão que trazemos. Era também sabido que a floresta se
tornava menos densa à medida que se subiam os montes. Só que a terra mole e
húmida acrescenta outras dificuldades quando se sobem inclinações íngremes
quase impossíveis de vencer nalguns pontos.
Gatinhamos agora como lagartos à procura
de raízes e das próprias espinheiras que nos dilaceram, na esperança de obter
pé firme e algo a que agarrar. A G3 já vem às costas para libertar as mãos
naquela luta de subir a pique e não cair para trás. Chegados a um determinado
ponto era frequente uma escorregadela e um deslizar quinze a vinte metros
abaixo, até que algum tufo mais saliente nos parasse aquele retrocesso
indesejado e permitisse o recomeço, não sem o riso a medo do soldado que
arrisca:
- Eh mé Alferes, passou por mim
com tanta pressa que parecia que vinha de patins... Na me diga que já se queria
ir embora...?!
Nem respondo porque havia muito que se me
tinham esfumado os últimos restos de humor e, no fundo, o que me apetecia era
mesmo ir embora.
Tenho o camuflado ensopado e sujo. Uma
mistura de suor e humidade das plantas que me salpicam como chuva. Começo a
tentar imaginar como vou dormir logo à noite assim todo molhado. Numa espécie
de alucinação, comum naquelas situações de privação e dificuldade, vêm-me à
memória imagens de conforto e bem-estar. Um bom banho, roupa lavada e seca, uma
cama limpa, uma boa refeição. Esforço-me por afastar aqueles pensamentos que me
atormentam mais ainda, mas ocorrem-me outros. Tenho pela frente pelo menos mais
três anos daquilo. Não vejo como suportar. Desconheço ainda a minha capacidade
de resistência à adversidade e às situações de dureza, por vezes desumanas, que
a guerra proporciona. O décimo arranhão do dia, dilacerando-me a carne e os
pensamentos, acorda-me daquele turbilhão de cogitações e dúvidas, trazendo-me
de volta ao Mufuque e ao 1020.
Por fim a mata abre-se um pouco e o sol
abrasador reaparece. O suficiente para me secar o camuflado em pouco tempo. Paramos
para almoçar dispondo-nos em círculo. Inicio a minha longa maratona de trinta
meses de refeições de ração de combate no mato. Abro o saco e agarro a primeira
lata que me vem à mão sem preocupações de escolha. Quero mais é comer qualquer
coisa e descansar. Muitas nem trazem rótulo. Parece que com a pressa nem
tempo tiveram de as identificar. Só depois de abertas se sabe o que
contêm. De mistura com o conteúdo enigmático, há parcelas de gordura gelatinosa
que afugentam a pouca fome que ainda me sobrava daquela manhã. Enfrento aquele
meu verdadeiro primeiro almoço de guerra como se de um inesperado inimigo se
tratasse.
Não obstante, não sou esquisito. Mas
aquela mistela misteriosa e de mau aspecto incomodava um pouco. A fome não é
muita. Ou melhor; não tenho fome. O cansaço sobrepõe-se à vontade de comer. O
corpo desidratado solicita água a todo o momento. Sede sim, a sede é
permanente. Felizmente havia água em abundância. Por vezes a água chegava para
matar a fome ou para a enganar a sua ausência. As regras de segurança da guerra
não permitem que se faça lume onde aquecer a ração de combate e diluir aquela
espécie de peçonha camuflada. Há, no entanto, uma pequena subversão ao sistema
de parceria com alguma adequação às necessidades do combatente. A partir de uma
determinada altura da guerra, algumas embalagens passam a trazer dois ou três
pequenos cubos de combustível sólido que permitem derreter aquela cápsula de
colesterol onde se conserva uma dose minúscula de carne ou peixe calcados em
cada lata.
Três pauzinhos espetados no chão
equilibram um equilíbrio instável de permanente ameaça de um almoço perdido
numa latinha cujo conteúdo cabe avantajadamente na boca de uma só vez. Por
baixo, o pequeno cubo branco arde com uma chama azul quase imperceptível, lambendo
o fundo da lata, quando o vento o permite, na fé, rapidamente perdida, de
tornar um pouco mais tragável aquela espécie de dejecto encarcerado que nos
fornecem para enganar a fome e ir mastigando a vida.
O Santos vem ter comigo para saber do meu
estado e mandar umas bocas de amarfanhar maçarico derrotado
nas primeiras cinco horas de sobrevivência no mato. Surpreende-o a minha
técnica de aquecer a lata com os três pauzinhos e recomenda-me que consuma
pouca água. Fico confuso. Como é que se pode pedir a alguém que consuma pouca
água quando se sente quase morrer de sede a toda a hora.
- Até aqui a água não tem faltado. Mas
podemos não voltar a encontrá-la nos próximos três dias. Diz-me com ar sério e
convicto. Voltou-me a tentação de não acreditar no Santos, logo dissipada pelo
completo desconhecimento das adversidades da guerra. Ali ninguém sabia, nem
quando, nem se seria possível voltar encontrar água para reabastecer os cantis,
embora em regiões montanhosas como era aquela, os riachos brotassem com muita frequência.
Os caminhos é que podiam não condizer com o acaso dos riachos.
O almoço é breve. Do 1020 é que ninguém
sabe. Há muitas conjecturas. Tantas quantos os vários montes que era possível
avistar dali. Antes de nos colocarmos de novo em marcha sou convocado para a
reunião dos Alferes e alguns furriéis, onde se ajustam opiniões do rumo a
seguir. À semelhança das bússolas há opiniões para todas as direcções. Até
o maçarico tinha uma ideia mas mandava-lhe o bom senso que
seria melhor estar calado e ouvir. A decisão final é sempre de quem comanda,
embora ordene um bom juízo que a decisão deve ter por base tudo o que se ouviu.
Mesmo o que possa vir de um maçarico de camuflado novinho e
milhares de teorias vazias trazidas de Mafra.
Para desagrado da maioria, é decidido
voltar a descer aquele monte e voltar à floresta. Havia que encontrar o 1020,
que ninguém garantia para que lado ficava. Na carta era evidente mas no terreno
e ao nível do solo uma espécie de jogo de feira a ver quem acerta. O problema,
e a maior dificuldade, é que, ao certo, ninguém sabia sequer onde estava.
Aparecem as primeiras lavras amanhadas
pelas populações que dão apoio à guerrilha. Pequenas plantações de milho e
massango (planta com espiga de grãos miudinhos e em grande quantidade) que se
dispersam misturadas com as plantas selvagens que lhes servem de camuflagem
quando os aviões as sobrevoam em busca de indícios de organização inimiga.
Sem grande convicção, alguns soldados vão
destruindo a plantação à medida que vão passando. Outros passam ao lado e
murmuram acenos de uma subversão de consciência que aqui e ali se ia
construindo:
- Deixa ficar. Também precisam de
comer...!
O resto do dia é passado a subir e a
descer montes em busca do objectivo. De vez em quando o Alferes Chagas de carta
na mão solicita outras opiniões que possam esclarecer a posição em que nos
encontramos. Timidamente, atrevo-me a apontar um determinado monte como sendo o
1020. Da leitura que eu fazia da minha carta aquilo parecia-me evidente. Daí
que tenha ganho alguma coragem para alvitrar. Ninguém diz nada. Mas é óbvio que
no espírito de cada um dos meus companheiros perpassa qualquer coisa como...
olh’ó maçarico armado em chico esperto... ou mesmo em parvo…
Percebi e compreendi tudo isso. O que
não sabiam era que, não obstante, eu possuía algumas armas que nenhum deles
porventura tinha. A minha infância tinha sido passada em montes e vales a
brincar aos índios e caubóis. Se havia algo que aqueles jogos meio
loucos de percorrer durante um dia inteiro as cercanias e montes da minha
aldeia em busca dos “inimigos” forjados a partir do “Cavaleiro Andante” e
outras literaturas da época, me tinham proporcionado, era um sentido de
orientação apurado cuja utilidade se viria a revelar de enorme importância na
guerra. Ao longo dos trinta e dois meses e meio de guerra em Angola jamais me
perdi. Uma glória pequenina que me dava algum conforto na segurança da guerra
que eu buscava e me avivava uma infância recente de menino roubado ao tempo da
meninice ainda tão fresco na minha memória de índio selvagem valente e
invencível. Do mesmo não se poderão vangloriar alguns profissionais da guerra
que era rara a vez em que saíam para o mato que não se perdessem por completo,
dando origem a mil e uma histórias de episódios caricatos.
Escusado será dizer que, com naturalidade,
não foi seguida a minha opinião. Eu teria feito o mesmo.
Começava a escurecer. Sobe-se um pouco
mais em busca de um ponto elevado que nos dê mais segurança para pernoitar.
Trago uma curiosidade imensa em ver como se passa a noite em pleno mato. A
minha primeira noite de verdadeira privação de um mínimo de conforto.
Observo com atenção a forma como cada um
resolve o seu problema e como todos se conjugam para um fim comum. O sistema
tradicional, com o qual nunca me haveria de dar muito bem, era o agrupamento a
três. Cada militar usa um poncho (uma capa de lona fina forrada a borracha de
forma quadrangular com uma abertura ao meio donde sai um capuz) excelente para
a protecção individual contra a chuva e por vezes o frio. O poncho vem
preparado para duma conjugação a três resultar numa tenda, bastando orientá-la
bem relativamente ao vento e à chuva, quando havia tempo para isso. Dois paus
de suporte, dois fios e algumas estacas, tudo facilmente obtido no momento ali
mesmo na mata, armam um lugar de pernoita para três em pouco mais de cinco
minutos. O chão é coberto com capim, que brota abundantemente por todo o lado.
A almofada é substituída pelo saco de lona que transportamos às costas. A faca
de mato, instrumento imprescindível de múltiplas aplicações, escava alguma
terra para tapar as franjas da tenda, obstando a que uma chuvada nocturna
invada o seu interior, objectivo este nem sempre conseguido, quando a
violência da chuva se sobrepunha à precariedade dos meios utilizados.
O pessoal é disposto em círculo, como
sempre, e é feita uma escala de vigilância nocturna dividida em quartos de duas
horas a cargo de um dos pelotões. Ao centro deste dispositivo fica o comandante
da operação acompanhado pelos militares que transportam e operam os elementos
essenciais para a segurança e operacionalidade do grupo: o rádio, o morteiro, a
bazuca e o dilagrama (este último um invento português que lançava uma granada
defensiva a uns bons cem metros, usando a própria G3 munida de uma munição
especial).
A noite é estranha, mas o extremo cansaço
acaba por vencer algumas tensões da guerra e outras tantas preocupações pelos
variados ruídos de animais nocturnos que protestavam pela invasão inoportuna
dos seus domínios. O sono é curto e entrecortado por pequenos sobressaltos
de maçarico pouco habituado ao desconforto da mata e os sons
novos que em nada se assemelham aos silêncios da aldeia.
O apagar das primeiras estrelas dita o
acordar e arrumação rápida de toda a tralha. O inimigo tem todas as vantagens
do seu lado. Se nos perseguiu no dia anterior, sabe onde pernoitámos,
tornando-se fácil atacar ao alvorecer quando meio estremunhados nos preparamos
para continuar. Torna-se pois adequada a movimentação rápida quanto possível enquanto
o dia, ainda mal acordado, não dá vantagem a nenhuma das partes.
O pequeno-almoço é engolido em andamento e
servido a partir do bolso do camuflado junto à coxa. Um pacote de leite com
chocolate, uma bisnaga de doce e cubos de marmelada compõem a ementa. Algumas
bolachas, entretanto desfeitas na sua maior parte e transformadas numa papa com
a humidade e a chuva, completam o menu de mato.
O tempo mudou durante a noite e agora
ameaça chover. De novo monte abaixo em busca do malfadado 1020. Por volta das
10 horas, uma chuvada forte abate-se copiosa sobre nós. Uma água grossa
que nos transforma em destroços silenciosos de naufrágio deambulando perdidos
naquele mar verde de folhagem agora reluzente e vergado pelo peso das ondas de
chuva que sobre ele se abate.
Voltamos a entrar na floresta, agora com
um tipo de vegetação bastante diferente formada por árvores enormes de copa
frondosa e um emaranhado incrível de lianas e folhagem de vários tipos,
tamanhos e formas. O chão é estranhamente liso e sem vegetação. O dia, embora
pouco claro, transforma-se de repente em noite. A luminosidade é nula, razão
pela qual não há vegetação no solo. Mas a sensação mais estranha é que apenas
sabemos que chove com enorme intensidade pelo ruído da chuva lá bem no cimo da
copa das árvores, porque sobre nós nem uma gota de água. O chão está
completamente seco. Andámos horas naquela situação, deliciando-nos com o facto
de sabermos que chovia copiosamente e nós sequinhos como se fosse um dia de
Primavera. Os ponchos são arrecadados porque se tornam quentes e desconfortáveis.
Por fim uma pequena clareira. O ruído da
chuva, já sossegado algum tempo atrás, é melhor esclarecido com o despontar de
um sol luminoso e céu azul sem nuvens, que nos recebe resplandecente mal saímos
daquele telheiro formado pela copa das árvores. A alternância é tão brusca que
há alguma dificuldade na adaptação imediata à nova luminosidade. A clareira é
breve e de novo a imensidão daquela mata de tecto denso que, agora sem chuva e
com o sol brilhante e quente na sua copa, permanece escura como breu, uma
sensação de novo complexa por se saber que o céu está limpo e o sol radioso mas
ali volta a ser praticamente noite. Aquela semi-escuridão dura uma ou duas
horas mais e baralha-nos por completo. A meio do percurso alguém garante que há
ali algo de errado. O céu não pode estar limpo com um negrume daqueles. A
sensação é ímpar. Por mais que se procure, olhando em redor, nem um minúsculo
raio de sol penetra naquele autêntico escudo de folhagem. O efeito
surpreendente é a breve prazo trocado pelo saborear daquela circunstância nova
e agradável, porque não só o chão era pouco inclinado e limpo de vegetação e
lianas de espinhos aguçados que nos rasgavam o camuflado e a pele, como a
ausência de calor era uma dádiva para o corpo e para o espírito.
Contudo, quando por volta das 4 da tarde
saímos finalmente daquela abóbada natural, nem uma nuvem no céu. Apenas o sol,
ainda quente e muito festejado por todos, esquecidos que estávamos já dos seus
efeitos por via daquela protecção de ocasião. Foi talvez a única ocasião em
África em que vi tanta alegria pela presença do sol. Uma espécie de regresso da
energia entretanto cortada.
Tudo se vinha conjugando para aumentar as
nossas confusões e erros de cálculo. Continuamos ainda mais baralhados. Sem
pontos de referência, naturalmente ausentes naquela autêntica cápsula em que
vogámos praticamente durante todo o dia, a nossa escuridão é ainda maior, se
bem que a bússola se mantenha agora bem mais serena. O norte que nos indica é
que não nos convém nada. Se de facto assim era, andámos praticamente todo o dia
em sentido contrário ao que se pretendia, como moscas tontas..., como
se ouvia de um ou outro militar mais desesperado e... “cansado das
desorientações do Alferes Chagas que, em Lisboa, havia de se perder no Rossio...
querendo ir para os Restauradores!”
Mas desta vez a bússola estava certa. Nós
é que não. O objectivo principal é abandonado por se tornar impossível de
concretizar nos dois dias que restavam. É decidido iniciar o regresso, aproveitando
para um reconhecimento das zonas por onde iríamos passar. Completamente
desorientados naquela situação, faltava agora encontrar o rumo de casa e,
essencialmente, o local combinado para o encontro com as viaturas, que nos
levariam de volta ao quartel. Andávamos a meia encosta de montes não muito
elevados. Ninguém se atrevia a sugerir que se subisse um metro que fosse para
obter uma melhor vista e reorientar o caminho de casa. O extremo cansaço
sugeria apenas opiniões de descer, não de subir. De voltar a mergulhar na mata
densa e húmida do sopé da montanha ninguém nos livrava. Andar para Sul. Andar
para Sul é o bom sentido. Onde vamos parar, logo se vê. Quanto à hora pré
estabelecida para o reencontro com as viaturas que nos viriam buscar ao quarto
dia de operação, havia que alterar os planos. O Chagas comunica pelo rádio
dando indicações para que as viaturas não saiam, pois que nem sabemos onde
estamos quanto mais encontrar o local combinado à hora aprazada.
A meio da tarde do quarto dia é finalmente
possível calcular a nossa posição, embora sem grandes garantias de exactidão.
Longe, muito longe da picada que permitiria encontrar as viaturas. Conclui-se
que será melhor caminhar directamente para o quartel. Há mal-estar entre os
militares por tanto calcorrear, aparentemente sem qualquer proveito. Ainda por
cima nem conseguiríamos ser recolhidos, o que nos pouparia uns bons quilómetros
a pé. Não temos água desde manhã quando passámos o último riacho. O terreno é
agora plano e a vegetação pouco densa. Os nossos olhos de caminheiros perdidos
percorrem ávidos o horizonte, que, longínquo, parece fugir à nossa frente,
procurando descortinar um sinal que denunciasse a proximidade do quartel.
O sol já se escondeu. Nem uma brisa de ar.
Saindo da copa das árvores, uma leve
neblina começa timidamente a formar-se nos vales que se avistam distantes. Um
aroma de terra levemente humedecida varre suavemente o ar quente que ainda
brota do chão ressequido. Paira no ar uma calmaria de denúncia de um braseiro
já sufocado pelo cair do sol no horizonte e a humidade fresca exalada pelas
árvores.
Caminhar para Sul. Tudo para Sul. A picada
Stª Eulália-Estrada de Carmona tem dezenas de quilómetros. Nalgum ponto havemos
de a encontrar.
Entramos no quartel pelo nosso pé já quase
noite. Um fumo branco leve e preguiçoso sobe ao céu pela chaminé da cozinha
espevitando o nosso sentido do olfacto em busca de uma perspectiva de refeição
decente e reconfortante. O cansaço é extremo mas a visão do quartel alivia o
peso do corpo, do saco e da G3. Não a mim, que me deixo ficar para trás e me
faço mergulhar num mar revolto de pensamentos que se cruzam e entrechocam
enegrecendo o meu futuro, no mínimo, dos próximos três anos.
Dói-me tudo. O corpo e a alma.
O Santos aproxima-se. Põe-me o braço por
cima e diz.
- Escuta lá ó maçarico.
Chegámos à conclusão que eras capaz de ter razão lá atrás quanto ao 1020.
Inchei um pouco, não obstante os quatro
quilos e meio deixados para trás lá no Mufuque. Ou melhor. Inchei bastante; o
suficiente para recuperar quase de imediato das mazelas que já mal sentia no
torpor que me invadia todo o corpo.
Ripostei com a réstia de humor que ainda
consegui juntar.
- Quando os marrecos se
voltarem a perder é só perguntarem ao maçarico...
- Pode ser que esteja bem disposto e vos
traga para casa.
Estive em Zemba entre junho 1972 e julho 1973, rodando depois o nosso Batalhão 3880-C.Caç 3535, para a zona de Maquela do Zombo.Embora furriel mecânico, viajei pelas picadas dos Dembos, a caminho de Quibaxe na missão de Reabastecimento de sobressalentes para a s Viaturas do Aquartelamento. Assim tive a possibilidade de sentir tudo o que era a força da Natureza, com uma intensidade tal que para mim Angola ficou sempre gravada nas minhas memórias até aos dias de hoje...por isso os operacionais mereceram sempre o meu respeito e admiração e as naturais causas da justificação daquela longa guerra. E respeitei sempre a população local que contactávamos, sem grandes dilemas morais. Essencialmente era uma luta pela nossa sobrevivência física, porque a intelectual esteve sempre resguardada. Brilhante descrição de uma operação militar, que gostei de ler.
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