sábado, 30 de abril de 2011

FOTOGRAFIA DO ALMOÇO DE 1987



Isto continua muito parado. Ninguém se manisfesta. Parece que já estão em "estágio"para a operação que se aproxima, mas ainda falta quase um mês.

Para aguçar a curiosidade e poder facultar a recordação dos que estiveram em Santarém, no ano de 1987, no 7º. almoço, acima é exibida uma foto que encontrei recentemente e que foi tirada pelo Paulo. Se não me enganei eramos 56 os presentes. Realmente, olhando bem para a foto eramos "uns jovens e bem magrinhos". Infelizmente, que eu saiba e se me não engano, pelo menos um já não faz parte dos que estão vivos. Vamos desejar que o maior número possa estar presente no Crato.

Até lá, um abraço.


quarta-feira, 20 de abril de 2011

PÁSCOA FELIZ
para todos os camaradas e familiares, são os votos deste vosso camarada,
António Gonçalves

E VIVA O 25 DE ABRIL!
(Que outras razões não houvesse, pelo menos acabou com aquela guerra inútil!)

domingo, 10 de abril de 2011

Histórias da nossa tropa

O episódio de hoje aconteceu logo depois daquela operação em que o nosso saudoso camarada Ribeiro foi ferido. Depois do regresso e como é fácil de pensar, os animos não eram de modo nenhum os melhores Como por via do meu trabalho com alguma frequencia tinha de ir ao Gabinete do Cap. reparei que tinha sido dada ordem,aos homens que vieram da operação que apos banho e descanso deviam ir capinar, como sempre tive a lingua perto do coração não consegui manter-me calado então disse: acho muito desumano depois do que passaram ainda vão capinar, como resposta o Taxa disse: você não percebe nada de tropa, os homens devem manter-se ocupados para não pensarem na família depois quanto mais raiva sentirem melhor,como não se podem vingar em mim vingam-se no IN. Agora passados quase 40 anos talvez ele tivesse alguma razão,pelo menos no que toca à fami-
lia.

quarta-feira, 30 de março de 2011

"como eu entrei na guerra"

Companheiros está tudo bem comigo, não se passa nada, estou disponível para participar na operação "Crato", só que não tenho tido um tempinho livre para transcrever mais alguns capítulos das minhas recordações de "guerra", que o blogue tanto carece. Está na altura de apresentação de contas das empresas, relatórios e toda a documentação que este país de papéis reclama. Enfim, mais dia menos dia volto a aparecer em força, mas já agora aproveito para dar uma bicadinha. Então e os outros? Porque se calam, porra?

domingo, 20 de março de 2011

DUARTE SILVA, o Homem


Sobre o comandante Duarte Silva o João Vieira já escreveu que “era um herói, considerado um militar competentíssimo ….uma pessoa muito justa…, com grande dignidade e com um grande sentido do dever ... um militarão e isso significava exigência, disciplina…”
Concordo. Duarte Silva era um grande profissional, e muito exigente. Mas era também muito humano. Aliás, em conversa recente com o nosso capelão, Padre Carneiro, esta ideia foi igualmente acentuada.
Lembro-me que, quando estávamos no Grafanil como tropa de intervenção, um dos médicos ter trazido à conversa, à hora da refeição, que começaram a existir vários casos de “esquentamento”. Na altura o comandante fez qualquer comentário, que me passou despercebido. Mas numa das próximas formaturas Duarte Silva falou ao batalhão deste problema, alertando todos para a necessidade de usar “camisa-de-vénus” para evitar os esquentamentos. Acrescentou algo como “apenas por respeito às vossas mulheres ou futuras mulheres e aos filhos que possam vir a ter”. Lembro-me de ter pensado com os meus botões que este não era o comandante militar Duarte Silva a falar, mas sim um homem, um Homem profundamente humano, um “pai” que pensa na implicação futura das atitudes irresponsáveis dos seus jovens filhos.
Aqui fica uma faceta importante do retrato do Homem que, como comandante me coube em sorte na guerra. Ainda hoje penso que tive muita sorte.

domingo, 13 de março de 2011

“Furriel Gonçalves, o que se faz quando se passa por um superior?...”

Vem esta recordação a propósito do Pinho andar de candeias às avessas com o capitão Taxa Araújo.

Naquela época era normal o pessoal que ia para a tropa não gostar muito dos militares de carreira, porque considerados comprometidos com a guerra colonial e, por consequência com o regime. Isto nem sempre correspondia à realidade, mas era habitualmente interpretado assim. Além de que a cadeia de comando raramente é bem vista.

Eu não fugia à regra e também não gostava dos militares de carreira. Nem da exacerbada disciplina da Escola Prática de Cavalaria (de onde, por ironia, viria a sair uma das colunas fundamentais do 25 de Abril), embora a compreendesse num tempo de guerra, sobretudo quanto à preparação física e ao treino psicológico, fundamentais na guerra de guerrilha que nos esperava em África.

Vem isto a propósito do meu (também) abertamente difícil relacionamento com o capitão Taxa Araújo, comandante da nossa Companhia. Ambos nos tolerávamos, mas não nos suportávamos facilmente.

Uma vez, já não me recordo da data, mas ainda foi no Mucondo, passámos um pelo outro, na “parada” (o pequeno terreiro entre as messes, os quartos dos furriéis e a capela, no meio do qual estava hasteada a bandeira nacional).

Eu fiz a continência (cumprimento militar devido a um superior), mas o Taxa não correspondeu com a sua continência (resposta devida ao cumprimento de um subalterno).

Deixei passar (“ficas para a próxima”, pensei com os meus botões)…

No dia seguinte voltámos a cruzar-nos no mesmo terreiro. Passei por ele sem fazer continência. Mal nos cruzámos, eis um enorme berro:

- Furriel Gonçalves, o que se faz quando se passa por um superior????!!!!

- Faz-se a continência, meu capitão...

- Então porque não fez a continência????!!!

- Porque é dever do superior responder igualmente com uma continência, coisa que o meu capitão ontem não fez…

- !!!!!...

- Ora se o meu capitão não cumpre com a sua parte, eu não estou obrigado a cumprir com a minha…

E virei costas. Não vi mas deu para sentir que ele terá ficado surpreendido, pois não disse ai nem ui.

Da vez seguinte em que nos voltámos a cruzar, sentia-se no ar alguma tensão, mas fiz a continência, ao que o Taxa respondeu com a sua continência.

(Toma lá qu’é p’ra aprenderes, pensei, continuando o meu caminho sem me voltar…).

Na guerra também se põem os superiores “em sentido”, o respeitinho é muito bonito e deve ser recíproco…

Este foi apenas um episódio, apesar de, mesmo não gostando de militares de carreira e odiar a guerra, sentir grande respeito pelo capitão Taxa Araújo homem destemido, um guerreiro de enorme coragem, com um sangue frio invulgar perante o perigo e sempre desejoso do combate. E sabia também que não era nada fácil comandar um conjunto de uma centena de homens (num conflito no qual muitos estavam contrariados) e gerir a “estadia” de forma a trazê-los de volta para as suas famílias.

Não morria de amores pelo capitão Taxa Araújo e penso que ele também não gostava muito de mim. Mas respeitava-o profundamente e penso que ele também respeitava a minha maneira de ser e de pensar. Foi esse respeito que me fez arriscar naquela desafiadora atitude. Creio que ambos ficámos a ganhar.

António Gonçalves