quarta-feira, 30 de março de 2011
"como eu entrei na guerra"
quarta-feira, 23 de março de 2011
domingo, 20 de março de 2011
DUARTE SILVA, o Homem

Sobre o comandante Duarte Silva o João Vieira já escreveu que “era um herói, considerado um militar competentíssimo ….uma pessoa muito justa…, com grande dignidade e com um grande sentido do dever ... um militarão e isso significava exigência, disciplina…”
Concordo. Duarte Silva era um grande profissional, e muito exigente. Mas era também muito humano. Aliás, em conversa recente com o nosso capelão, Padre Carneiro, esta ideia foi igualmente acentuada.
Lembro-me que, quando estávamos no Grafanil como tropa de intervenção, um dos médicos ter trazido à conversa, à hora da refeição, que começaram a existir vários casos de “esquentamento”. Na altura o comandante fez qualquer comentário, que me passou despercebido. Mas numa das próximas formaturas Duarte Silva falou ao batalhão deste problema, alertando todos para a necessidade de usar “camisa-de-vénus” para evitar os esquentamentos. Acrescentou algo como “apenas por respeito às vossas mulheres ou futuras mulheres e aos filhos que possam vir a ter”. Lembro-me de ter pensado com os meus botões que este não era o comandante militar Duarte Silva a falar, mas sim um homem, um Homem profundamente humano, um “pai” que pensa na implicação futura das atitudes irresponsáveis dos seus jovens filhos.
Aqui fica uma faceta importante do retrato do Homem que, como comandante me coube em sorte na guerra. Ainda hoje penso que tive muita sorte.
domingo, 13 de março de 2011
“Furriel Gonçalves, o que se faz quando se passa por um superior?...”
Vem esta recordação a propósito do Pinho andar de candeias às avessas com o capitão Taxa Araújo.
Naquela época era normal o pessoal que ia para a tropa não gostar muito dos militares de carreira, porque considerados comprometidos com a guerra colonial e, por consequência com o regime. Isto nem sempre correspondia à realidade, mas era habitualmente interpretado assim. Além de que a cadeia de comando raramente é bem vista.
Eu não fugia à regra e também não gostava dos militares de carreira. Nem da exacerbada disciplina da Escola Prática de Cavalaria (de onde, por ironia, viria a sair uma das colunas fundamentais do 25 de Abril), embora a compreendesse num tempo de guerra, sobretudo quanto à preparação física e ao treino psicológico, fundamentais na guerra de guerrilha que nos esperava em África.
Vem isto a propósito do meu (também) abertamente difícil relacionamento com o capitão Taxa Araújo, comandante da nossa Companhia. Ambos nos tolerávamos, mas não nos suportávamos facilmente.
Uma vez, já não me recordo da data, mas ainda foi no Mucondo, passámos um pelo outro, na “parada” (o pequeno terreiro entre as messes, os quartos dos furriéis e a capela, no meio do qual estava hasteada a bandeira nacional).
Eu fiz a continência (cumprimento militar devido a um superior), mas o Taxa não correspondeu com a sua continência (resposta devida ao cumprimento de um subalterno).
Deixei passar (“ficas para a próxima”, pensei com os meus botões)…
No dia seguinte voltámos a cruzar-nos no mesmo terreiro. Passei por ele sem fazer continência. Mal nos cruzámos, eis um enorme berro:
- Furriel Gonçalves, o que se faz quando se passa por um superior????!!!!
- Faz-se a continência, meu capitão...
- Então porque não fez a continência????!!!
- Porque é dever do superior responder igualmente com uma continência, coisa que o meu capitão ontem não fez…
- !!!!!...
- Ora se o meu capitão não cumpre com a sua parte, eu não estou obrigado a cumprir com a minha…
E virei costas. Não vi mas deu para sentir que ele terá ficado surpreendido, pois não disse ai nem ui.
Da vez seguinte em que nos voltámos a cruzar, sentia-se no ar alguma tensão, mas fiz a continência, ao que o Taxa respondeu com a sua continência.
(Toma lá qu’é p’ra aprenderes, pensei, continuando o meu caminho sem me voltar…).
Na guerra também se põem os superiores “em sentido”, o respeitinho é muito bonito e deve ser recíproco…
Este foi apenas um episódio, apesar de, mesmo não gostando de militares de carreira e odiar a guerra, sentir grande respeito pelo capitão Taxa Araújo homem destemido, um guerreiro de enorme coragem, com um sangue frio invulgar perante o perigo e sempre desejoso do combate. E sabia também que não era nada fácil comandar um conjunto de uma centena de homens (num conflito no qual muitos estavam contrariados) e gerir a “estadia” de forma a trazê-los de volta para as suas famílias.
Não morria de amores pelo capitão Taxa Araújo e penso que ele também não gostava muito de mim. Mas respeitava-o profundamente e penso que ele também respeitava a minha maneira de ser e de pensar. Foi esse respeito que me fez arriscar naquela desafiadora atitude. Creio que ambos ficámos a ganhar.
António Gonçalves
quinta-feira, 3 de março de 2011
OPERAÇÃO CRATO!
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Almas Mutiladas
Foi escrito, talvez, há mais de 20 anos e fala já do mesmo tema.
Almas Mutiladas
Sou esse que nos campos trabalhou!...
E sou o que passou dificuldades!...
Fui à guerra, de que não tenho saudades,
Pois foi ela que minh'alma mutilou!
Nenhum poeta, em versos, isso cantou,
Embora escrevam tantas verdades
Na sombra, oculta, das grandes cidades
Onde a nobre poesia se finou!
Não esqueceram a razão, certamente...
Que a alma mutilou a tanta gente!
Nem que outros pagaram com suas vidas!...
Então, caros poetas de Portugal
Cantem, em verso, a verdade natural
Das almas mutiladas, tão queridas!...
José Diogo Júnior
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
"Como eu entrei na Guerra"
2ª Parte da Comissão
Intervenção - Luanda
Intervenção. Presente envenenado para premiar os “êxitos do batalhão no norte de Angola”, oferta dos senhores da guerra.
Aquartelados no Grafanil às portas de Luanda. Fomos creio que render o Xeque-Mate.
Cidade maravilhosa que nos acolhia cerca de dez a 15 dias por mês, com os restantes a serem passados de operação em operação no norte ou no leste de Angola, em zonas completamente desconhecidas, que iriam ceifar as primeiras vidas de amigos e camaradas do dia a dia.
Tendo em conta a minha função de especialista (aramista) e também porque tinha família em Luanda a situação não me desagradava de todo, pois de dia cumpria as minhas obrigações de militar e depois alinhava na noite como se de um civil se tratasse.
Não entrava nas escalas de serviços e ia vivendo o dia a dia tentando passar o mais despercebido possível mas, triste sina a minha, voltei a desafinar no seguimento de uma situação que entendi como uma sacanice do Taxa Araújo.
Se não estou em erro, a primeira operação foi para os lados do Bom Jesus. A saída da companhia foi numa quarta ou quinta-feira à noite e eu tinha voo marcado para a segunda-feira seguinte, pois ia de férias para o “puto”.
Uma prima minha casava no sábado e como era a único familiar, excepto os pais, que poderia estar presente no seu casamento, fui ter com o Capitão e pedi-lhe para ficar em Luanda de forma a estar presente na cerimónia.
Argumentei que não tinha qualquer problema nem receio de alinhar nas deslocações relacionadas com a intervenção e que apenas se tratava de uma situação de excepção por um motivo justificável.
Levar-me até era um favor que o homem me fazia, pois em Luanda os Sargentos e Oficias tinham que pagar a alimentação do seu bolso. Tratava-se apenas de uma situação especial.
A resposta do homem foi peremptória e até mesmo agressiva.
- Não senhor! A sua vida de aramista era no Mucondo. Agora alinha como os outros e vai de mecânico de coluna e, quanto às férias, fique descansado que não perde o avião.
Não perdi as férias. Perdi a cerimónia do casamento e a festinha onde por certo faria conhecimentos que me poderiam ser úteis em Luanda.
A partir daí comecei a andar de candeias às avessas com o Taxa Araújo.
Clemente Pinho. Ex-Furriel Mecânico Auto. C.Cav. 2692
