quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Natal de 1970 na Fazenda Bombo
Lógico que aceitei e o 1º que meti na boca era autentica "pólvora" pois continha no meio malaguetas de piri-piri. E eu para não fazer parte de fraco resolvi comer até ao fim. Foi o meu azar. Fiquei com a boa a arder e não houve água, sumos, bagaço, wiskhy, etc que resolvesse tirar-me aquele ardor. Resultado: uma autentica bebedeira e uma dôr de cabeça monumental.
Como já era hábito os fazendeiros vieram ao nosso quartel na passagem do ano. Fizemos as nossas investigações e viemos a descobrir que a ideia das malaguetas foi do fazendeiro Resende, dono da fazenda onde nos íamos levar os géneros a uma secção doutra Compª.
Assim, sabendo que ele apreciava bananas, no jantar que nós oferecemos, no final foram-lhe servidas umas lindas bananas que, antecipadamente, tinham sido impregnadas de piri-piri no estado líquido. Quando ele começou a comer e notou o que lá havia sido injectado, virou-se para mim e disse: Foi voçê!
Não se tratou de nenhuma vingança, mas sim uma brincadeira.
Nota: Já agora, aproveito para ir lembrando, repetindo o que havia dito, que práticamente só os aramistas é que vão contando umas coisas. E o resto do pessoal está à espera de quê? Não tenham vergonha de ir contando algo de que se recordem, mesmo que seja coisa banal idêntica ao que acabo de apresentar.
Adelino Amaral, Vagomestre
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
"SUS-A-ELES"
Análise às dissertações sobre o tema “SUS-A-ELES” que o José Tavares publicou no blogue em Junho de 2010
Um pouquinho de tempo disponível permitiu-me efectuar uma leitura mais atenta às crónicas e outros artigos publicados no blogue, merecendo-me especial atenção o único que eu encontro da responsabilidade do José Tavares, que não posso deixar de comentar.
Como que numa lição à volta do “ SUS-A-ELES” o José Tavares fala em orçamento do estado, banquete, marquês de pombal, poder das bases e do povo, corrupção combatida, ensaio da cegueira, José Saramago, migalhas, tudo querem comer, vampiros, Zeca Afonso, eles comem tudo e não deixam nada, etc., etc. .
O que eu e os nossos camaradas não queremos esquecer é que “SUS-A-ELES” era o lema do Batalhão de Cavalaria 2909, que em Abril de 1970 partiu rumo a Angola passando a fazer parte da história de Portugal, que no melhor ou no pior temos que assumir.
Quantos e quantos de nós tivemos hipóteses de fugir e ou desertar? Quantos e quantos de nós poderíamos ter utilizado a possibilidade de continuar a estudar de forma a protelar o ingresso nas forças armadas? Ou quantos não tiveram nenhuma destas possibilidades e foram obrigados a ingressar nas fileiras e dar o corpo ao manifesto.
Devemos envergonhar-nos do nosso passado? Devemos esquecer e passar como que uma esponja sobre uma parte da nossa juventude?
Ou devíamos ter feito como alguns que apareceram depois do 25 de Abril arvorados em revolucionários, quando o que fizeram foi andar escondidos no estrangeiro de forma a garantir a sua segurança.
Que país é este em que os falsos desertores foram arvorados em heróis e os homens que sofreram na pele os horrores da guerra são considerados pessoas não gratas.
Diz também o Tavares na sua crónica que pretende falar sobre as suas memórias, sobre o Mucondo, Nanbuangongo e Santa Eulália.
Força Tavares. É isso que estou à espera desde Junho de 2010.
Os teus camaradas e as suas famílias não querem esquecer, não querem ser esquecidos e não têm vergonha da sua HISTÓRIA.
Clemente Pinho. Ex-Furriel Mecânico Auto. C.Cav. 2692
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
ESQUECE!!!!!
domingo, 30 de janeiro de 2011
"Cumprimentar o Amaral"
Fiquei contente e por isso puxei pela cabeça e fui procurar uma foto nossa, que publiquei juntamente com o meu último capítulo, para te ajudar a avivar a memória.
Um abração do ferrugento.
"Como eu entrei na Guerra"

A única mulher que havia era a lavadeira, velha como ou caraças e desdentada, que não sei se acabou ou não por dançar. Mas toda a maçaricada que dançou, incluindo oficiais e sargentos, ainda hoje é capaz de jurar que dançou com uma mulher. Não há dúvida que os negros tinham um jeito muito especial para se vestirem de mulher.
Com o aproximar da noite começou a formar-se a coluna militar que iria levar todos os companheiros à fazenda.
De pé ao lado do condutor do unimog, de peito feito às balas lá ia eu farolinando à procura de vislumbrar os olhos dum veado ou duma pacaça, até que dei mesmo com eles e mandei parar a viatura.
Chegámos ao Bombo. Na altura eu não deixava as coisas em meio, fui ter com dito cujo e perguntei-lhe o que é que se tinha passado e qual a razão que o levou a ofender-me. Fiquei então a saber que havia possibilidades de estar preparada uma emboscada, tendo em conta indícios que a coluna que tinha vindo do Zemba com o correio tinha detectado.
"Como eu entrei na Guerra"
Capítulo 15 º
A rotação do descontentamento
Páscoa de 1971. Apenas estavam no aquartelamento os aramistas e alguns operacionais doentes ou com problemas físicos tipo esquentamentos, matacanhas, paludismos, preguiça, etc. etc.
Uma avioneta a sobrevoar o aquartelamento e a indicação de que a mesma ia aterrar, sendo necessário garantir a segurança à pista.
Iria ser o meu 3º contacto com o Comandante do Batalhão Tenente Coronel Duarte Silva.
Lembro-me como se fosse hoje. As palavras que proferiu ainda estão gravadas na minha cabeça e nem com o passar dos anos me consigo esquecer.
Todo o pessoal presente no aquartelamento, excepto os acamados e os sentinelas, formaram em frente ao refeitório dos soldados e foram estas as palavras do Comandante.
- “Fui chamado a Luanda ao Quartel General e graças aos êxitos do nosso Batalhão no Norte de Angola ofereceram-me a intervenção e eu, certo de que ia de encontro aos vossos sentimentos aceitei”.
De encontro a que sentimentos? Quem é que nos ouviu ou se importou com a nossa vontade? Que tristeza…
Foi um balde de água fria que caiu sobre a minha cabeça e da dos meus companheiros de armas, pois estávamos tão longe de pensar a traição que nos faziam. Não havia dúvida de que não passávamos de carne para canhão ao sabor dos interesses pessoais dos senhores da guerra.
Lembro-me de mandar destroçar todo o pessoal, que de cabeça baixa recolheu às suas instalações pois os destinos que sonhavam e que estavam em aberto para a segunda parte da comissão tinham-se esfumado.
Nesta fase fiquei de cabeça perdida e desalinhei por completo.
Clemente Pinho. Ex-Furriel Mecânico Auto. C.Cav. 2692
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
"Como eu entrei na Guerra"
É Carnaval. A Guerra pode esperar...
Carnaval de 1971. Eu, o Gomes, o Leitão e Aragão Pinto resolvemos dar um pontapé na monotonia e providenciar uma cegada das antigas e brincar ao carnaval, matando assim saudades da nossa vida de civil.



