sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
ESQUECE!!!!!
domingo, 30 de janeiro de 2011
"Cumprimentar o Amaral"
Fiquei contente e por isso puxei pela cabeça e fui procurar uma foto nossa, que publiquei juntamente com o meu último capítulo, para te ajudar a avivar a memória.
Um abração do ferrugento.
"Como eu entrei na Guerra"

A única mulher que havia era a lavadeira, velha como ou caraças e desdentada, que não sei se acabou ou não por dançar. Mas toda a maçaricada que dançou, incluindo oficiais e sargentos, ainda hoje é capaz de jurar que dançou com uma mulher. Não há dúvida que os negros tinham um jeito muito especial para se vestirem de mulher.
Com o aproximar da noite começou a formar-se a coluna militar que iria levar todos os companheiros à fazenda.
De pé ao lado do condutor do unimog, de peito feito às balas lá ia eu farolinando à procura de vislumbrar os olhos dum veado ou duma pacaça, até que dei mesmo com eles e mandei parar a viatura.
Chegámos ao Bombo. Na altura eu não deixava as coisas em meio, fui ter com dito cujo e perguntei-lhe o que é que se tinha passado e qual a razão que o levou a ofender-me. Fiquei então a saber que havia possibilidades de estar preparada uma emboscada, tendo em conta indícios que a coluna que tinha vindo do Zemba com o correio tinha detectado.
"Como eu entrei na Guerra"
Capítulo 15 º
A rotação do descontentamento
Páscoa de 1971. Apenas estavam no aquartelamento os aramistas e alguns operacionais doentes ou com problemas físicos tipo esquentamentos, matacanhas, paludismos, preguiça, etc. etc.
Uma avioneta a sobrevoar o aquartelamento e a indicação de que a mesma ia aterrar, sendo necessário garantir a segurança à pista.
Iria ser o meu 3º contacto com o Comandante do Batalhão Tenente Coronel Duarte Silva.
Lembro-me como se fosse hoje. As palavras que proferiu ainda estão gravadas na minha cabeça e nem com o passar dos anos me consigo esquecer.
Todo o pessoal presente no aquartelamento, excepto os acamados e os sentinelas, formaram em frente ao refeitório dos soldados e foram estas as palavras do Comandante.
- “Fui chamado a Luanda ao Quartel General e graças aos êxitos do nosso Batalhão no Norte de Angola ofereceram-me a intervenção e eu, certo de que ia de encontro aos vossos sentimentos aceitei”.
De encontro a que sentimentos? Quem é que nos ouviu ou se importou com a nossa vontade? Que tristeza…
Foi um balde de água fria que caiu sobre a minha cabeça e da dos meus companheiros de armas, pois estávamos tão longe de pensar a traição que nos faziam. Não havia dúvida de que não passávamos de carne para canhão ao sabor dos interesses pessoais dos senhores da guerra.
Lembro-me de mandar destroçar todo o pessoal, que de cabeça baixa recolheu às suas instalações pois os destinos que sonhavam e que estavam em aberto para a segunda parte da comissão tinham-se esfumado.
Nesta fase fiquei de cabeça perdida e desalinhei por completo.
Clemente Pinho. Ex-Furriel Mecânico Auto. C.Cav. 2692
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
"Como eu entrei na Guerra"
É Carnaval. A Guerra pode esperar...
Carnaval de 1971. Eu, o Gomes, o Leitão e Aragão Pinto resolvemos dar um pontapé na monotonia e providenciar uma cegada das antigas e brincar ao carnaval, matando assim saudades da nossa vida de civil.
"Como eu entrei na Guerra"
Capítulo 13º
Pinho e Pina Silva a aprenderem a tocar violaMotor de arranque não tinha e era posta a trabalhar de empurrão. A caixa de velocidades dava para enfiar algumas mudanças que arranhavam de tal ordem que até nos punham os cabelos em pé, travões apenas o de mão.
Escoltados por um pelotão da tropa de elite da C.Cav. 2692, arrancámos direitos a Quibaxe com a GMC devidamente engatada a uma das Berliet , através de uma lança de reboque.
Dentro da cabine, eu a conduzir e o Pina Silva como ajudante com a missão específica de accionamento do travão de mão, único acessório que funcionava mais ou menos embora com risco de incêndio, devido ao atrito nos calces de travões, lá conseguimos chegar sem sobressaltos de maior até à descida para o Dange.
Porque se tratava de uma zona com um declive muito acentuado tratei de prender um cabo de reboque a uma outra Berliet, que coloquei na traseira da GMC e atacamos a descida.
Com a GMC devidamente entalada entre as duas Berliet carregadas de companheiros de luta, fizemos no máximo uns quinhentos metros quando, para mal dos meus pecados, o cabo que aguentava a minha viatura se partiu e a pressão sobre a Berliet da frente foi de tal ordem que dobrou a lança e só não foi tudo morro abaixo porque num golpe de génio (sorte) consegui enfiar por debaixo da traseira da Berliet a frontaria da GMC e, ao fim de alguns metros de arrastamento conseguimos imobilizar-nos junto do precipício.
Deus esteve connosco naquele momento.
Fiquei sem pinga de sangue e a partir daí já nem o Pina Silva me quis acompanhar na viagem. Lembro-me que as pernas ainda me tremiam quando cheguei a Quibaxe e nem vontade tive para ir “mudar o óleo”, coisa que normalmente fazia sempre que ia ao Pelotão de Apoio Directo.
De facto a evacuação da GMC foi um risco mal calculado, que nos poderia ter saído muito caro.
Mas enfim, haja quem mande. Só nos resta obedecer. 
E vai um faducho
Clemente Pinho. Ex-Furriel Mecânico Auto. C.Cav. 2692
"Como eu entrei na Guerra"
Capítulo 12º
Emboscado na lixeira. A segunda aventura fora do arame.
Altas horas da noite na ferrugem, condutores , mecânicos, telegrafistas e outros aramistas, cantavam e pulavam ao som da sanfona do Ramos e do barulho ensurdecedor de ferros e latas, com muita cerveja, whisky e brandy à mistura. Havia alguém que fazia anos, não tenho presente quem. Eu não era de certeza pois vim sempre passar os meus ao “puto”, de férias claro.
É possível que tenham batido à porta. Com aquele barulho infernal só conseguimos aperceber-nos dessa situação quando começaram a querer deitá-la abaixo . Nessa fase já alguém gritava que batessem com os cornos e quando fomos ver quem era demos de caras com o Taxa Araújo que, devido ao barulho (o coitado estava com insónias) não conseguia pregar olho.
O Pinho indigitado para comparecer de manhã no gabinete do capitão e, como o mal estava feito a festa continuou até o sol raiar.
Resultado da ida ao gabinete. Uma emboscada à lixeira para essa noite em que participariam todos os aramistas presentes na farra.
E assim foi. Orientei as coisas para uma participação rápida no evento, pois duas noites sem dormir é que não dava, era areia demais prá minha camioneta.
Saímos a pé direitos à lixeira, não sem antes desligarem todas as luzes do aquartelamento, que só voltaram a acender depois de nos instalarmos devidamente à roda da lixeira. G 3 nas unhas, devidamente camuflados, de olhos postos no teatro de operações, em parte iluminado pelas cinzas do forno da padaria que o vento reacendia momentaneamente.
Ainda não tinha decorrido uma hora, perfeitamente de acordo com o previamente combinado, dei inicio ao conflito com uma rajada de G3, a que se seguiram outras igualmente programadas e um ou dois rebentamentos de granadas.
Passados 10, 15 minutos já tínhamos o Taxa Araújo e a sua tropa de elite, tal major valentão a perguntar “quantos são, quantos são”.
Claro que não era nada mas todos os aramistas confirmaram e juraram, ter visto qualquer coisa a movimentar-se na lixeira. Até podia ser um javali, quem sabe…
O Capitão nunca se convenceu mas o que é certo é que ainda não era meia-noite e a maior parte de nós já estava nos lençóis.
Alinhava, desalinhava. O que importava era que os dias iam passando e eu me ia divertindo conforme podia.
Clemente Pinho. Ex-Furriel Mecânico Auto. C.Cav. 26292




