sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

"Como eu entrei na Guerra"



Capítulo 10º


O Jipe e a “bola de bilhar”


Jantar de despedida do Alferes Cabrita

A vidinha de aramista até nem era nada má. Trabalhar o necessário, escrever prá família e ir bebendo a cerveja que podia e o whisky “novo” que me calhava mensalmente como sargento, pois o velho ou o especial estava apenas destinado aos oficiais, discriminação que nunca compreendi.

Com o Capitão de férias no “puto” o Alferes Guia, penso que por ser o mais antigo, ficou a comandar a companhia e para se impor ou por defeito procurou imitar a forma de comando do Taxa Araújo.

Como tal era digno de se ver o dito cujo montadinho no Jipe passeando por tudo quanto era sítio dentro do aquartelamento, matando saudades dos seus tempos de civil.

Para mim não havia qualquer problema, tanto de me dava que fosse o Guia a utilizar a viatura do comando ou o Passarinho, que era o seu condutor. O que eu tinha a certeza era que não tinha recebido instruções directas relacionadas com a utilização do jipe do capitão.

Passados talvez uns quinze dias depois do Taxa Araújo ter regressado de férias o Passarinho, condutor do Jipe” foi chamado ao gabinete do Capitão para explicar a razão porque deixou o Alferes Guia utilizar a viatura e quando de lá saiu, veio ter comigo a informar-me do que se passava e de que tinha recebido como castigo uma “carecada”.

Depois foi a minha vez de ser interrogado sobre o acontecimento e por mais que eu fizesse ver ao Taxa que nem eu nem o meu condutor tínhamos responsabilidades sobre o acontecimento, pois para todos os efeitos o Guia era na sua ausência o comandante do aquartelamento, o tipo não foi cá de meias medidas e mandou-me também cortar o cabelo à máquina zero.

Ainda o Gato, que era o barbeiro, me estava a tirar as medidas à cabeça já todo o aquartelamento sabia que eu tinha apanhado uma careca e iam passando pela barbearia, em romaria, para verem a obra de arte que ia dali sair.

Nunca fui de meias medidas e apareci no gabinete do Taxa com a cabecinha de tal modo escanhoada que mais parecia uma autêntica bola de bilhar. Fui repreendido por ter exagerado no corte, pois não tinha que ser tão curto. Preso por ter cão, preso por não ter…

Estive vai na vai para o mandar prás obras. Tive que me conter pois ainda faltava muito para acabar a comissão.

Sinceramente em toda esta brincadeira, a única pessoa com quem de facto fiquei na altura chateado, depois passou, foi com o Alferes Guia que deveria ter tido a coragem de enfrentar “a fera” , fazendo-lhe ver que a responsabilidade era totalmente sua.


Por vezes eu alinhava mas aparecia sempre qualquer coisa para me desalinhar.


Clemente Pinho. Ex-Furriel Mecânico Auto. C.Cav. 2692

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

"Como eu entrei na Guerra"


Capítulo

(Antes de dar início a este capítulo importa referir que escrevi estas crónicas há muito tempo e estou a publicá-las com maior ou menor regularidade de forma a manter este espaço activo e visível, pois não estou a ver grande aptidão para a escrita a camaradas que decerteza também têm muito para nos contar)
Primo - Pinho - Alfacinha




A primeira aventura fora do arame.




Em Junho, praticamente mês e meio depois de chegar ao Mucondo, estava eu a cortar uma pedaço de bambu por detrás da capela, junto ao campo de futebol, quando comecei a ouvir muito ao longe tiros e estrondos que pareciam rebentamento de granadas. Como não podia deixar de ser corri a avisar o Capitão Taxa Araújo…
Fomos os dois até a extremidade do aquartelamento e de facto dava para perceber que a Fazenda Daladiata (penso que era assim o nome) estava a ser atacada, o que entretanto já estava a ser confirmado via rádio.

Metemo-nos os dois no jipe e fomos ao encontro de um dos nossos pelotões que estava a ajudar a desimpedir e reparar um antiga estrada que saía à direita do campo de futebol, junto à lixeira.

Lembro-me de que o banco do condutor estava a ser reparado e no seu lugar estava um caixote que eu ia empurrando com o pé para debaixo do traseiro do Taxa Araújo, tal eram os saltos e os balanços que a viatura dava à mercê duma condução completamente desenfreada.
Lá trouxemos a nossa tropa de elite e de volta ao aquartelamento para preparar o socorro à fazenda, lembro-me do Taxa Araújo perguntar ao sentinela que estava no torreão da entrada se a Polícia Rural já tinha passado e também se eu “aramista” queria ir em socorro da fazenda.

Não pensei duas vezes e foi só tempo de ir a correr ao meu quarto vestir o casaco camuflado e colocar por cima dos calções o cinto com os carregadores da G3, que por sorte não me esqueci de trazer.
E lá fomos por uma picada manhosa agarrados com unhas e dentes aos bancos das viaturas, que os condutores conduziam prego a fundo, com a devida segurança. Eram mesmos uns ases do volante estes guerreiros da estrada.

Nas proximidades da fazenda deparámos logo com um elemento da Polícia Rural estendido na caixa de um Land Rover , vítima de uma emboscada que estava montada para os primeiros que viessem em socorro da fazenda.

Há medida que nos íamos aproximando começamos também a encontrar cunhetes de munições por utilizar, granadas por rebentar, invólucros, testemunhos de uma traiçoeira emboscada que poderia ter sido para nós.

Ultrapassado o espanto inicial, não sei porque carga de água o Capitão resolveu correr mato a dentro à procura do inimigo, o que originou numa perseguição desenfreada que só acabou quando, completamente exaustos, nos deitamos por terra debaixo da ponte que fazia a ligação à fazenda.

Aproveitámos as águas do rio para tomar banho, alheios completamente ao perigo a que estávamos expostos, pois a zona era demasiado perigosa e propícia para uma emboscada bem sucedida.
Este combatente “aramista” fartou-se de correr pela mata que nem um maluco e ainda por cima de calções.

A vida de combatente começava a dar cabo de mim.
Foi assim que praticamente um mês depois de chegar ao Mucondo vi a primeira vítima mortal.

Comecei a ficar mais atento e alinhadinho que a coisa começava preta.



Clemente Pinho. Ex-Furriel Mecânico Auto. C.Cav. 2692




quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

QUEM SE LEMBRA DO CARLOS GOMES DA CCAV 2690?

Não será frequente usar o nosso blogue para divulgar notícias de outras Companhias. No entanto, decidi fazê-lo neste caso concreto, por razões que adiante se perceberão.

Um primo do nosso camarada Carlos Alberto Ferreira Gomes (que foi Atirador de Cavalaria da CCav 2690, integrando o 4º Pelotão) contactou-me recentemente solicitando informação sobre os locais percorridos por aquela Companhia, uma vez que tem feito um trabalho sobre os militares da terra que estiveram na guerra e por gostar também que o seu primo contacte mais vezes com os antigos camaradas.

O referido primo sentiu necessidade de recorrer a mais pessoas dado que o Carlos Gomes sofreu um AVC há cerca de dez anos e não consegue falar nem escrever, apesar de estar completamente lúcido e reconhecer as pessoas do seu relacionamento, incluindo obviamente os seus ex-camaradas de armas.

Já tive oportunidade de visitar o Carlos Gomes, cuja esposa me emprestou as fotografias que aqui insiro (a seguir uma vista do aquartelamento de Zemba e do pessoal do 4º Pelotão da 2690).




Assim, peço a quem conheça o Carlos Gomes, nomeadamente aos que pertenceram àquela Companhia, que deixem o seu contacto no endereço de correio (e-mail) do nosso blogue para que possam oportunamente entrar em contacto com o Carlos que, apesar de ter ido aos almoços da Companhia, gostaria de ver mais vezes os seus ex-camaradas.

Aqui fica o apelo.

António Gonçalves

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

"Como eu entrei na Guerra"

Capítulo 8º

A vida de um aramista que de mecânico auto apenas tinha o nome.


Mecânico auto eu? Estava a guerra bem arranjada se estivesse à espera que eu mexesse uma palha para reparar alguma viatura.
O meu serviço consistia exclusivamente em gerir uma secção em que os mecânicos e os condutores estavam devidamente especializados e preparados para o que desse e viesse. Por alguma razão resolveram, no final da comissão, dar um louvor especial ao pessoal sob o meu comando directo devido à sua enorme capacidade para o desenrascanço.
Para além das escalas de serviço para os condutores e mecânicos ainda tinha a responsabilidade de gerir as existências dos combustíveis, as requisições de material e a sua aplicação nas diferentes viaturas através da gestão das ordens de trabalho. Enfim apenas escrita e mais escrita, ou seja o trabalhinho mesmo à maneira para um mecânico de caneta.
É precisamente nesta fase das minhas memórias que eu presto homenagem aos meus camaradas ferrugentos, que nunca foram meus subordinados mas sim companheiros de aventura, que de facto me apoiaram e safaram o coiro durante a comissão.
O Brinquete, o Fortalezas e o Brito. Mecânicos de excelência que faziam milagres nas velhas e caducas viaturas da companhia, garantindo assim o abastecimento de “carne pra canhão” às acções de guerra programadas na secretaria.
Passarinho, Ramos, Narciso, Camarinha, Alfacinha, Vitorino, Primo, Louro, Conceição, condutores de eleição que graças à sua capacidade e perícia conseguiram chegar ao fim da comissão sem acidentes que se possam considerar graves. Lembro-me de o capitão referir que teve conhecimento de que algumas emboscadas foram abortadas em virtude da velocidade que os nossos condutores metiam às suas viaturas na picada.
De todos eles guardo saudade e respeito pois partilharam comigo momentos especiais que devem ser recordados sem qualquer preconceito, pois fazem parte da nossa história.
As minhas actividades no “arame”, denominação simpática do aquartelamento, distribuíam-se pelo escritório da oficina auto, os jogos de futebol de cinco, as idas a Quibaxe ao pelotão de apoio directo, as escoltas à Fazenda do Bombo quando eram necessárias soldaduras, as idas até ao poço para accionar a bomba que nos abastecia de água e algumas vezes à caça à noite com os fazendeiros.
À noite entre cerveja sim e cerveja sim ou escrevia para a família, para a namorada e madrinhas de guerra ou então alinhava nas normais jogatanas de cartas, desde a lerpa à sueca, passando pelo poker de dados e o king, umas vezes no Bar dos Sargentos outras na ferrugem com os meus companheiros do arame. Recordo com saudade o Pexim, grande amigo e exímio jogador de sueca, que uma vez a meu parceiro, conseguiu tirar os dez trunfos. Ganhámos mas aquilo ia dando pró torto. Era de facto o maior com aquelas cartas sujas e sebentas que já mal deslizavam na mesa de jogo improvisada.

Era de facto uma vida de combatente das antigas em que apenas desalinhava quando me chamavam de aramista. Aí de facto tiravam-me do sério pois eu não me chateava nada de sair para o mato, pois de certeza que não escondia a cabeça num buraco como as avestruzes e nem vinha às cavalitas dos guarda-costas chorando baba e ranho.
É bem possível que algum dos que me chamavam combatente do arame se tenha borrado todo no dia em que ouviu o primeiro tiro.

Tirando o não gostar de ser chamado de aramista continuava a andar alinhado.




Clemente Pinho. Ex-Furriel Mecânico Auto. C.Cav. 2692












































sábado, 8 de janeiro de 2011

Histórias da nossa tropa

Sempre que se fala da nossa chegada ao Mucondo,não posso deixar de recordar passagens por mim vividas onde cheguei à conclusão que sempre haverá uma prole que se protege entre si.
Isto a proposito da Cantina que o Pinho recebeu dos "velhinhos". Como todos sabemos,para o nosso Cap.
apenas contavam os atiradores.não interessava quem tratava de orientar a manutenção da comida,das viaturas,do Posto médico isto já para não falar das transmissões que só eram importantes quando havia
necessidades , estou a lembrar-me por Ex: quando oCarvalho comeu os cogumelos venenosos e outras.
Mas voltanto á Cantina,quando se chegou ou melhor quando me foi imposta a responsabilidade sobre
a dita, foi-me dito: Gomes vái tomar conta das cantinas e vai prestar esclarecimentos ao Alf. Vieira.
Claro que quando chegou o 1º Pereira e foi conferir todos os géneros da cantina e verificou que nada
correspondia ao que devia ser.
Aí já o Gomes era o responsável maximo porque a Classe dos oficiais tinha de ser portegida.

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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

"Como eu entrei na Guerra"




Capítulo 7º




Mucondo. O desconhecido.


Na caixa de uma camioneta de carga, entalado entre malas e caixotes de mercadorias e de G 3 nas unhas, lá me deixei ir até à guerra.
Recordo a chegada à Ponte do Luica, que tinha um pequeno destacamento, onde uma escolta militar de experientes combatentes nos recebeu e levou até ao nosso destino.
Mucondo, uma antiga missão religiosa no alto de um morro, rodeado de arame farpado por todo o lado, em que grande parte das instalações estavam completamente decadentes e um cemitério com campas perfeitamente alinhadas a servir de cartão de visita, logo à entrada da porta de armas.

Ainda na camioneta que me transportou e meio aparvalhado a admirar a “beleza” do local, ouvi perguntar pelo Furriel Mecânico e quando olhei deparei com um homólogo com uma farda muita suja, ainda mais suja que a minha que vinha carregada com o pó da picada.

Assim que assumi a minha identidade o dito cujo colou-se a mim que nem um carrapato e levou-me para o seu alojamento, onde depositei os meus poucos pertences.
Nem tempo tive de limpar o pó e já estava no bar dos sargentos, que lá isso até era razoável, agarrado a um copo de muitas cervejas, acabando por apanhar uma valente carraspana, que se manteve enquanto durou a rendição da companhia.

Foi ligeiramente bem bebido, que conferi e recebi todo o equipamento relacionado com a ferrugem, desde as viaturas, às ferramentas e o combustível. Foi mesmo fartar vilanagem pois desde os panos de lona enrolados que passaram por capotas de unimogs, às ferramentas completamente obsoletas, algumas até artesanais, e um sem número de equipamento inexistente, eu dei como recebido. No caso de discordar de alguma coisa, era porque a “camada” me estava a passar e então lá vinham mais umas “cucas ou nocais”, tanto fazia. Eu que em relação à cerveja até nem era esquisito.

No meio desta cegada toda o Taxa Araújo indica-me como a pessoa mais capaz para gerir as cantinas e foi pior a emenda que o soneto. A maior parte da existência de bebidas que recebi não passava de água engarrafada, com as garrafas devidamente arrolhadas e alinhadas nas prateleiras, em que só as primeiras eram de facto reais. No que diz respeito à cerveja foi mesmo uma completa desgraça pois a quebra nas taras foi de tal ordem que quando veio o primeiro fornecimento não havia vasilhame nem caixas para compensar a cerveja que ficou.

Foi de facto uma tragédia. Quem pagou foi o meu grande amigo Gomes, Furriel de Transmissões que ainda hoje, sempre que nos juntamos nos almoços faz questão de mo recordar.

É verdade e não tenho maneira de o negar, mas o que se passou em nada beliscou a nossa amizade pois nenhum de nós teve culpa . Tanto fazia ser ele ou eu a receber as existências da companhia rendida, que o resultado seria igual, pois o esquema estava montado e nenhum dos aramistas escapou.

A minha sorte (ou a do Taxa Araújo) foi que o Capitão da companhia rendida lhe fez ver que o Furriel Mecânico (cá o alentejano) não tinha tempo para assumir a pasta das cantinas e foi isso que me safou, pois recebi directrizes para passar a pasta ao Gomes. E assim foi, eu recebi “mal” a mercadoria e o Gomes assinou e chumbou-se...

Quando digo que foi a sorte do Taxa Araújo, foi apenas porque eu nunca me conformaria com o corte das férias e aí de facto iríamos ter uma briga das antigas.

Não me envergonho de dizer que o mecânico, muita sujo que eu rendi, ainda me conseguiu convencer a trocar as minhas divisas novinhas, de um dourado brilhante que a minha namorada me ofereceu, pelas suas velhas e muito sebentas. Não havia nada de melhor do que parecer um veterano de guerra. Eu até já tinha uma farda camuflada que era uma autêntica vergonha….

“Vai daí ou despois” no dia da despedida os “ velhinhos” ainda tiveram a amabilidade de nos entupirem os tubos de aspiração do ar de algumas viaturas e de despejarem na lixeira, juntamente com as cinzas do forno, latas de rações de combate, que ao rebentarem durante a noite proporcionaram um verdadeiro pânico dentro do aquartelamento. De facto toda a “maçaricada” correu para os abrigos de arma na mão para repelir o ataque das “latas de ração de combate”. Instalou-se o caos no aquartelamento até que o capitão se apercebeu do que se passava e conseguiu restabelecer a calma. Era um verdadeiro guerreiro aquele homem.





Unimogs com os tubos do ar entupidos com
desperdício. Herança da companhia rendida
Clemente Pinho. Ex-Furriel Mecânico Auto. C.Cav. 2692








































































domingo, 2 de janeiro de 2011

2011 ANO NOVO...

Ano novo, vida nova, é o que costuma dizer-se a cada mudança de algarismos dos ciclos anuais.
Como criador deste nosso blogue espero que todos os actuais intervenientes ajam de forma a que cada vez haja mais participantes, para enriquecimento da memória colectiva, dos que lá andaram na guerra e dos que, novos ou velhos, certamente verão os seus conhecimentos alargados com essa experiência que possamos transmitir.
Como consta do Estatuto Editorial que redigi e submeti à consideração e aprovação (após alguns acertos provenientes de sugestões) de alguns dos participantes, o objectivo deste blogue é exactamente esse: não deixarmos cair no esquecimento nem na deturpação de factos um período tão marcante na nossa história contemporânea: a guerra colonial.
Guerra que alguns viveram, em que outros pereceram, em que outros vieram marcados para sempre, guerra que marcou as gerações posteriores, de forma mais ou menos notória, em que nunca mais nada foi o mesmo.
Guerra que alguns aproveitaram para, mesmo não a tendo vivido com a inclemência própria da sua natureza imbecil, estúpida e inexplicável, a aproveitaram para os seus próprios interesses.
Guerra que, podendo ter adjectivos acessórios, como "colonial", "do ultramar", "de libertação", não deixou de ser o acto insensato a que recorrem todos os que, com justificação de atitude ou não, a usam como forma extrema da imposição pela força, por muito forte que seja a razão que a pretende justificar.
Guerra que, findo o sue período de vigência "oficial", continua a corroer a sociedade que se viu submetida aos seus arbitrários ditames.
Guerra que transformou imberbes em homens e que transformou homens em cadáveres ou estropiados, ou deficientes, ou apenas (se assim se pode dizer...) ex-combatentes, todos mais ou menos traumatizados a que quase ninguém dá importância e que tanto incomodam quando começam a falar das suas (des)aventuras.
Guerra de balas, de armadilhas, de minas, de bombas, de sede, de fome, de frio gélido, de calor abrasador, de chuva, de seca, de selva, de lianas, de capim, de formigas carnívoras, de insectos estranhos, de águas lamacentas, de ração intragável, de medo, de coragem, de esperança, de desalento, de sonho, de desumanidade, de camaradagem, de abnegação, de solidariedade... Guerra estúpida como todas as guerras.
Mas guerra que criou laços de amizade entre muitas pessoas que, mesmo por vezes afastadas fisicamente, se mantêm unidas pela recordação do tempo em que, jovens, foram lançadas como carne para canhão para o lamaçal putrefacto do ódio treinado para matar e não morrer.
Alguns camaradas têm manifestado estranheza pela minha pouca participação activa no blogue, ou seja, por não verem mais textos ou imagens da minha parte (pelo que a mim diz respeito). A verdade é que, como atrás penso terá ficado implícito, ao criar o blogue baseado numa ideia do (furriel) Tavares, pretendia que a participação fosse tão diversificada quanto possível, para que ficassem os depoimentos não apenas de uma pessoa mas do maior número de pessoas que estiveram - directamente ou indirectamente, ou seja, combatentes ou familiares - na Guerra.
E continuo a defender tal princípio.
No entanto, informo que também vou tentar ser mais interveniente, nas limitações que ocorreram no meu trajecto de vida. As centenas de fotos e diapositivos que tirei (feito doido ou, no mínimo, certamente inconsciente do perigo) durante esses dois anos e dois meses de Angola - e que muitos felizmente tiveram a oportunidade de ver - perderam-se, para meu enorme desgosto.
O próprio diário que eu tinha também se perdeu.
Assim, a minha colaboração será não tanto através de relatos cronológicos mas de uma mistura da realidade com a ficção, pois nem sempre a memória nos permite identificar as datas e os nomes em que se registaram os acontecimentos vividos, talvez até porque a própria estupidez dos mesmos nos impulsiona, passados tantos anos, a apagar o acessório e a manter o essencial.
De qualquer forma, aqui fica a minha justificação para uma "ausência" notada por alguns camaradas e o compromisso de intervir regularmente de forma mais "visível". Porque de forma menos visível devo referir o meu trabalho na manutenção do blogue e da própria caixa de correio que lhe está adjacente.
Mas, vamos todos tentar arranjar mais participantes. Toda a gente sabe escrever, toda a gente sabe expor as suas recordações. Não se preocupem quanto ao estilo de escrita, quanto mais directo mais realista.
Um grande abraço a todos, uma recordação sentida de todos os que já nos deixaram e um fraterno cumprimento a todos os familiares.
ANO NOVO, VIDA NOVA. Esperemos que um ano melhor do que o que findou!... Com o sentimento que sempre nos acalentou nos piores momentos: a ESPERANÇA.

António Gonçalves