A quadra é o vaso de flores que o povo põe à janela da sua alma
FERNANDO PESSOA
Aos que gostam da minha poesia, obrigado por gostarem, aos que não gostam, obrigado por terem de me aturar mais à minha poesia.
Hoje deixo-vos um cheirinho à mais popular forma de poesia: A quadra.
1
Olhar nos olhos de alguém
E falar sinceramente
É difícil para quem
Não diz aquilo que sente
2
Se não sabes nunca digas
Que foi assim ou assado
Quem não sabe as cantigas
Não canta, fica calado
3
Morena de olhar triste
De triste faz-me chorar
Essa tristeza que existe
No triste do seu olhar
4
Quando o silêncio é um grito
Bem dentro do coração
Brada em nós um som aflito
Sobe a força da razão
5
Tantas penas eram bem
Penas por me ter achado
Como o galo que as não tem
Por já estar depenado
6
Ondas que vêm e vão
Águas salgadas da vida
Lágrimas do meu coração
Neste cais da despedida
7
Tenho um livro onde escrevo
Palavras que nunca li
E nesse livro me atrevo
A ler o que não escrevi
8
Venho da floresta verde
E trago o que não entendo
Um sorriso que se perde
Na vida que vai morrendo
José Diogo Júnior
Um grande abraço a todos
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
"Mucondo onde o sol castigou mais"
sábado, 25 de dezembro de 2010
Ó sino da minha aldeia
Ó sino da minha aldeia
Dolente na tarde calma
Cada tua badalada
Soa dentro de minh'alma
Mote de Fernando Pessoa
Glosa
Hoje é dia de Natal
E embora esteja feliz
Em meu peito algo me diz
O que eu já sei afinal.
É lá longe em Portugal
Que minh'alma passeia
De saudade já tão cheia
E tão despida, tão nua
Que mais me parece a tua
Ó sino da minha aldeia.
No sossego do montado
Onde é rei o alecrim
Ninguém se lembra de mim
Como aqui és tu lembrado.
Por muito ser procurado
Nas entranhas de minh'alma
O teu som ainda acalma
E cura a minha tristeza
Trazendo a tua beleza
Dolente na tarde calma.
Vejo ao longe o horizonte
Onde o céu a terra beija
E esta saudade deseja
Cheirar as urzes do monte
Beber água na tua fonte
Ver no alto levantada
A tua torre tão amada
Como a boa sentinela
Oiço da minha janela
Cada tua badalada.
Saudades levas-as o vento
Como palavras de amor
Como conselhos do Senhor
Nas asas do pensamento
Sem deixarem um lamento
Nem gemido que acalma
Minha oração te salma
E mostra a minha paixão
E como a tua canção
Soa dentro de minh'alma.
José Diogo Júnior
Feliz Natal e Próspero Ano Novo a todos os camaradas da ccav.2692 e suas famílias.
Dolente na tarde calma
Cada tua badalada
Soa dentro de minh'alma
Mote de Fernando Pessoa
Glosa
Hoje é dia de Natal
E embora esteja feliz
Em meu peito algo me diz
O que eu já sei afinal.
É lá longe em Portugal
Que minh'alma passeia
De saudade já tão cheia
E tão despida, tão nua
Que mais me parece a tua
Ó sino da minha aldeia.
No sossego do montado
Onde é rei o alecrim
Ninguém se lembra de mim
Como aqui és tu lembrado.
Por muito ser procurado
Nas entranhas de minh'alma
O teu som ainda acalma
E cura a minha tristeza
Trazendo a tua beleza
Dolente na tarde calma.
Vejo ao longe o horizonte
Onde o céu a terra beija
E esta saudade deseja
Cheirar as urzes do monte
Beber água na tua fonte
Ver no alto levantada
A tua torre tão amada
Como a boa sentinela
Oiço da minha janela
Cada tua badalada.
Saudades levas-as o vento
Como palavras de amor
Como conselhos do Senhor
Nas asas do pensamento
Sem deixarem um lamento
Nem gemido que acalma
Minha oração te salma
E mostra a minha paixão
E como a tua canção
Soa dentro de minh'alma.
José Diogo Júnior
Feliz Natal e Próspero Ano Novo a todos os camaradas da ccav.2692 e suas famílias.
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
Natal
Nem todos os dias são iguais, nem todas as festas têm o mesmo sabor, nem todas as ocasiões se repetem, nem sempre os sentimentos se conjugam.
Há alguns anos atrás, o Natal para muitos (de nós) jovens era apenas um dia mais, no calendário da incerteza da guerra, um dia talvez em que nos sentíamos ainda mais tristes, disfarçando a tristeza numa cervejita com que humedecíamos a língua que mastigava o frango com massa (ou a massa com frango?).
Um dia em que ainda recordávamos, no silêncio apertado do peito, a família, a namorada, a mulher, os filhos, os pais, os avós, os irmãos, os parentes que, no trágico frio longínquo do "puto", se recolhiam, silenciosamente, no manto da saudade acre e incerta do desconhecimento da sorte que, nesse preciso momento, o filho, o namorado, o marido, o pai, o neto, o irmão, estaria a acontecer.
Um dia disfarçado de risos, com o coração dilacerado de saudade e (porque não dizê-lo abertamente?) do medo da morte mais do que provável. Ou, arredando a tão pior das hipóteses, do frio, do calor, da sede, da fome, dos ataques das formigas, da violentação da consciência que rege qualquer ser humano na preservação da paz, da solidariedade, da fraternidade?
Hoje, como ontem, com protagonistas diferentes e em cenários diferentes e diversos, o Natal continua a ser o alento de muitos na mesma caldeira onde fermenta o ódio, a discriminação, a intolerância, a exploração humana, que do Natal apenas guardam uma réstia de esperança num mundo melhor.
Que seja essa réstia de esperança que continue, apesar das dificuldades, a guiar o rumo dos que acham que a vida vale a pena ser vivida, com esperança, com fraternidade, com tolerância, com respeito por todos os seres vivos. Guardando, é certo, uma réstia também de saudade por todos os que, tendo partilhado o percurso da nossa vida, já partiram.
Um feliz Natal, agora que já não temos na meia a formiga, no sapatinho a G3 e no "gingle bells" o matraquear do fogo inimigo!...
A todos os camaradas, a todos os familiares, os votos de um Natal o melhor possível. A todos os que já partiram, um gesto de profundo respeito, de saudade, mas também de uma saudação forte de "PRESENTE"!
António Gonçalves
Boas Festas
Ao aproximar-se o Natal aproveito esta oportunidade e este meio para endereçar a todo o pessoal da CCAV 2692 e suas famílias umas Festas Felizes e com a saúde possível.
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
"FELIZ NATAL E UM ANO DE 2011 MAIS SOLIDÁRIO"
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
"Como eu entrei na Guerra"
Capítulo 6º
No Niassa rumando ao desconhecido.
Saí do comboio com um saco de lona às costas e uma mala mal amanhada (por acaso não era de cartão), que para não rebentar pelas costuras, estava atada com uma correia que mais parecia a cilha dum cavalo.
Na dita levava alguma roupa civil, uma máquina fotográfica a pedir reforma ,umas linguiças, uns queijos alentejanos, duas garrafinhas de bagaço e um gira-discos que me acompanhou durante toda a minha passagem pela guerra, comprado um mês antes de assentar praça. No saco de lona, que por sinal era em segunda mão e estava um pouco roto, levava a roupa militar que não entreguei quando do espólio em Estremoz, a que juntei uma farda camuflada e o respectivo quico, um par de botas de lona e um ponche, que comprei numa loja em Montemor-o-Novo de artigos usados para a caça.
Dos 10 contos que recebi do Exército para compra de equipamento não cheguei a gastar 2, o resto foi para a viagem e para me aguentar nos dias que passei em Luanda até receber o 1º vencimento de furriel.
De tal maneira a minha indumentária camuflada estava usada que eu mais parecia um “veterano” no meio daquela maçaricada toda.
Assim que coloquei um pé fora do comboio fui rodeado pela minha família e pela minha namorada que hoje ainda é a minha mulher, que fizeram questão de me vir apresentar os cumprimentos de despedida e, nunca mais me vou esquecer, da mãe do Pina Silva que muito pesarosa me pediu para tomar conta do filho. Os termos em que se me dirigiu foram mais ou menos assim:
- Peço-lhe que ajude o meu filho pois ele é um azarado e tudo lhe acontece. Perde tudo e, o que não perde, deixa roubar. Agora até as botas e a gabardine lhe roubaram. Diga-lhe que não se esqueça de escrever à família….
Claro que descansei a senhora, prometi-lhe que ia tomar conta do Pina Silva e que o iria obrigar a escrever.
Lembro-me também de ter recebido as despedidas das senhoras do Movimento Nacional Feminino, que me elogiaram pela minha disponibilidade para dar o coiro pela pátria e me pregaram o vício de fumar. Deram-me dois maços de tabaco Porto e um isqueiro a gasolina, que por ser já muito conhecido da tropa tinha a denominação de “Ronson da picada”.
Os poucos rendimentos que tinha enquanto gaiatão provinham apenas da apanha de caracóis (quando se deixavam apanhar), de pássaros, coelhos e lebres que caíam nas armadilhas que montava durante a noite e que vendia às tascas da minha terra.
O meu pai sempre me disse “quem não tem dinheiro não tem vícios”. Razão porque nunca tinha fumado antes.
Depois foi subir as escadas do Niassa, deixar a bagagem num camarote que escolhi mesmo em frente as casas de banho e vir para um ultimo adeus aos meus familiares e a Lisboa, que na verdade era a minha terra de nascença, não fosse o diabo tece-las e regressar dentro dum caixote….
Essa vida de marinheiro começou de facto a dar cabo de mim. Os dias e as noites a bordo do Niassa eram de facto cheias de actividade programadas com todo o cuidado.
Dormir, comer e jogar a tudo em que se podia ganhar ou perder dinheiro. Lerpa, king, bingo e corrida de cavalos (sem cavalos claro), as bestas éramos nós, em que as mesas dos bares apenas vagavam durante as refeições.
Tal “penosa” actividade apenas foi interrompida quando estive de serviço, que por sinal foi no último dia do “cruzeiro", quando tive que fazer cumprir as ordens que o Taxa Araújo (Comandante da Companhia) me transmitiu, no sentido de obrigar os soldados a recolher aos porões, pois não era permitido dormir na coberta do navio.
Tenho bem presente o que um dos meus mecânicos (penso ter sido o Brito) me disse:
- Furriel já foi lá abaixo ao “inferno”?
Envergonhado por me ter esquecido dos homens que tinha sob o meu comando directo (condutores e mecânicos auto), virei-lhe as costas e encaminhei-me para as escadas de acesso aos porões.
Desci o primeiro lanço de escadas e comecei a ter dificuldades em respirar devido ao cheiro intenso que vinha do interior do navio, mistura de suor, chulé, vomito e sei lá mais o quê, que tornava a atmosfera irrespirável. Só me apetecia fugir.
Enchi-me de coragem e dei uma volta pelos locais em que os soldados dormiam e ainda hoje não encontro palavras descrever o que observei.
Enquanto os Oficiais e Sargentos bebiam, jogavam e tinham refeições ao som da música de um piano, a “carne pra canhão” estava amontoada em redes, esteiras e colchões que entupiam os porões do Niassa.
Ditosa Pátria que tão bem tratou os seus filhos.
De volta à coberta, com a boca e o nariz tapados com um lenço, acabei também eu a vomitar…
Quando atracámos no outro dia, no porto de Luanda, não estranhei ver as ambulâncias do exército preparadas para receber soldados, arrancados das profundezas do “inferno”, que mal se sustinham em pé tal a forma desumana como tinham sido deixados ao abandono.
Eu, com a minha bagagem, tomei lugar no comboio que me iria depositar no Grafanil de forma a continuar na guerra, não sem antes comprar um bom cacho de bananas a um dos negritos que deambulavam pelo cais. As bananas no continente eram um luxo cá para o Alentejano.
Enjoado mas ainda afinado.
Clemente Pinho. Ex. Furriel Mecânico Auto. C.Cav. 2692
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Pina Silva,
Pinho e Gomes,
Ribeiro - No restaurante do Niassa
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