No Niassa rumando ao desconhecido.
Saí do comboio com um saco de lona às costas e uma mala mal amanhada (por acaso não era de cartão), que para não rebentar pelas costuras, estava atada com uma correia que mais parecia a cilha dum cavalo.
Na dita levava alguma roupa civil, uma máquina fotográfica a pedir reforma ,umas linguiças, uns queijos alentejanos, duas garrafinhas de bagaço e um gira-discos que me acompanhou durante toda a minha passagem pela guerra, comprado um mês antes de assentar praça. No saco de lona, que por sinal era em segunda mão e estava um pouco roto, levava a roupa militar que não entreguei quando do espólio em Estremoz, a que juntei uma farda camuflada e o respectivo quico, um par de botas de lona e um ponche, que comprei numa loja em Montemor-o-Novo de artigos usados para a caça.
Dos 10 contos que recebi do Exército para compra de equipamento não cheguei a gastar 2, o resto foi para a viagem e para me aguentar nos dias que passei em Luanda até receber o 1º vencimento de furriel.
De tal maneira a minha indumentária camuflada estava usada que eu mais parecia um “veterano” no meio daquela maçaricada toda.
Assim que coloquei um pé fora do comboio fui rodeado pela minha família e pela minha namorada que hoje ainda é a minha mulher, que fizeram questão de me vir apresentar os cumprimentos de despedida e, nunca mais me vou esquecer, da mãe do Pina Silva que muito pesarosa me pediu para tomar conta do filho. Os termos em que se me dirigiu foram mais ou menos assim:
- Peço-lhe que ajude o meu filho pois ele é um azarado e tudo lhe acontece. Perde tudo e, o que não perde, deixa roubar. Agora até as botas e a gabardine lhe roubaram. Diga-lhe que não se esqueça de escrever à família….
Claro que descansei a senhora, prometi-lhe que ia tomar conta do Pina Silva e que o iria obrigar a escrever.
Lembro-me também de ter recebido as despedidas das senhoras do Movimento Nacional Feminino, que me elogiaram pela minha disponibilidade para dar o coiro pela pátria e me pregaram o vício de fumar. Deram-me dois maços de tabaco Porto e um isqueiro a gasolina, que por ser já muito conhecido da tropa tinha a denominação de “Ronson da picada”.
Os poucos rendimentos que tinha enquanto gaiatão provinham apenas da apanha de caracóis (quando se deixavam apanhar), de pássaros, coelhos e lebres que caíam nas armadilhas que montava durante a noite e que vendia às tascas da minha terra.
O meu pai sempre me disse “quem não tem dinheiro não tem vícios”. Razão porque nunca tinha fumado antes.
Depois foi subir as escadas do Niassa, deixar a bagagem num camarote que escolhi mesmo em frente as casas de banho e vir para um ultimo adeus aos meus familiares e a Lisboa, que na verdade era a minha terra de nascença, não fosse o diabo tece-las e regressar dentro dum caixote….
Essa vida de marinheiro começou de facto a dar cabo de mim. Os dias e as noites a bordo do Niassa eram de facto cheias de actividade programadas com todo o cuidado.
Dormir, comer e jogar a tudo em que se podia ganhar ou perder dinheiro. Lerpa, king, bingo e corrida de cavalos (sem cavalos claro), as bestas éramos nós, em que as mesas dos bares apenas vagavam durante as refeições.
Tal “penosa” actividade apenas foi interrompida quando estive de serviço, que por sinal foi no último dia do “cruzeiro", quando tive que fazer cumprir as ordens que o Taxa Araújo (Comandante da Companhia) me transmitiu, no sentido de obrigar os soldados a recolher aos porões, pois não era permitido dormir na coberta do navio.
Tenho bem presente o que um dos meus mecânicos (penso ter sido o Brito) me disse:
- Furriel já foi lá abaixo ao “inferno”?
Envergonhado por me ter esquecido dos homens que tinha sob o meu comando directo (condutores e mecânicos auto), virei-lhe as costas e encaminhei-me para as escadas de acesso aos porões.
Desci o primeiro lanço de escadas e comecei a ter dificuldades em respirar devido ao cheiro intenso que vinha do interior do navio, mistura de suor, chulé, vomito e sei lá mais o quê, que tornava a atmosfera irrespirável. Só me apetecia fugir.
Enchi-me de coragem e dei uma volta pelos locais em que os soldados dormiam e ainda hoje não encontro palavras descrever o que observei.
Enquanto os Oficiais e Sargentos bebiam, jogavam e tinham refeições ao som da música de um piano, a “carne pra canhão” estava amontoada em redes, esteiras e colchões que entupiam os porões do Niassa.
Ditosa Pátria que tão bem tratou os seus filhos.
De volta à coberta, com a boca e o nariz tapados com um lenço, acabei também eu a vomitar…
Quando atracámos no outro dia, no porto de Luanda, não estranhei ver as ambulâncias do exército preparadas para receber soldados, arrancados das profundezas do “inferno”, que mal se sustinham em pé tal a forma desumana como tinham sido deixados ao abandono.
Eu, com a minha bagagem, tomei lugar no comboio que me iria depositar no Grafanil de forma a continuar na guerra, não sem antes comprar um bom cacho de bananas a um dos negritos que deambulavam pelo cais. As bananas no continente eram um luxo cá para o Alentejano.
Enjoado mas ainda afinado.
Clemente Pinho. Ex. Furriel Mecânico Auto. C.Cav. 2692