terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Histórias da tropa

Realmente não pensava falar da tropa no RC 3,mas como o Pinho falou e a participação tem sido tão modesta,
até os Padrinhos do Blogger não contribuem para animá-lo esperava mais,principalmente do Tavares logo
ele que no Mucondo escrevia mais aerogramas que os Furrieis todos juntos.
Depoi de tirar a recruta no EPC, escola de rigor e militarismo,tive a sorte de ir tirar a especialidade para Tavira que nada tinha a ver com a situação anterior,bastava ter positiva nos testes que o fim de semana era
certo as minhas botas tinham tanta pomada que bastava puxar o lustro para brilharem.
Julgava eu que a cavalaria tinha acabado até saber que o destino me reservou, como em Santarem tinha dado
"voluntarimente" sangue, isto a troco de uns dias de licença que ainda estou à espera, pensei:
vai ser a unidade mobilizadora a pagar o que me devem, dito isto,aí vou eu a caminho do RC3.
Quando lá cheguei fui ter com o Of.dia que até era oCap. Furtado Dias depois de dizer ao que vinha disse então. Acho melhor cortar o cabelo,antes de ir à secretaria,pode ir agora que está autorisado.
Lá fui ao barbeiro que havia em frente ao quartel e de seguida ,novamente quartel, já na secretaria diz-me
osargento,já ouviu falar no D.S. com esse cabelo é F.... certa, e lá fui eu outra vez ao barbeiro, finalmente
apresentei-me ao Taxa e que me disse:nosso Cabo Miliciano: na minha companhia não quero beatles,
vá cortar o cabelo. Ali não havia 2 sem 3.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

"Como eu entrei na Guerra"


Capítulo 5º

Estremoz. C.Cav. 2692- Batalhão 2909

Corria o mês de Março de 1970, num domingo à tarde apresentei-me no Quartel de Cavalaria de Estremoz para tomar conta do meu novo posto de trabalho, na Companhia de Cavalaria 2692. Fui na véspera da apresentação pois não tinha transporte de manhã.
O Oficial de Dia à Unidade a quem me apresentei, informou-me que só na 2ª feira estaria alguém da companhia para me receber e, quando lhe perguntei onde iria dormir, orientou-me para um antigo convento (São João de Deus), local onde poderia escolher um quarto, que iria ser o meu enquanto durasse a minha estadia em “estágio”.
E lá fui eu direitinho ao anexo à procura da suite, onde deixei toda a minha bagagem, não sem antes preparar a caminha com roupa de cama que desencantei já não me recordo onde.
Sem preocupações com a dormida, comecei por dar uma volta por Estremoz para me ambientar acabando por “assentar arraiais” no Águias de Ouro, café restaurante da elite da cidade e também paradeiro dos oficiais e sargentos da Unidade.
Conversa puxa conversa, copos e mais copos e acabei por conhecer o Pina Silva e o Gomes (o Amaral não tenho a certeza se também estava), contratados igualmente pelo Exército Português para assumir as pastas de enfermeiro e transmissões.
Foi de facto uma noite do caraças e recordo com saudade as palavras do Pina Silva quando lhe disse que era de Montemor-o-Novo:
- És de Montemor, então deves conhecer o Barreiros e o Barroso?
Quem não conhecia o Barreiros e o Barroso. Eram de facto amigos meus de escola, ambos enfermeiros no Hospital Militar de Évora, local onde o Pina Silva iniciou a vida militar.
- Eu ainda sou mais bêbado que eles!
Bêbado não sei mas um pouco passado dos carretos era de certeza (na terra dele tinha a alcunha do maluco da Farinha Branca) e, graças a essa realidade, conseguimos fazer passar uma mensagem que ainda hoje é recordada em Estremoz.
Topem só. Em pleno Águias de Ouro um de nós gritava “Se vires uma cobra e um alentejano o que é que tu fazes” o outro respondia de imediato “Eu matava o Alentejano e deixava a cobra”. Quando a malta começava a reagir indignada o Pina Silva com a sua conhecida calma levantava-se e dizia “Alto. Eu também sou Alentejano”.
Foi uma noite do caraças e só quando o Águias de Ouro fechou recolhemos aos nossos aposentos, devidamente instalados num opel record que não tinha onde cair morto e com uma enorme disposição para furar.
No dia seguinte de manhã, com uma enorme ressaca e de novo instalados no opel record, entramos pela portão de acesso das viaturas e no meio da neblina (estava um nevoeiro do caraças) avistámos o que poderia ou não ser o nosso batalhão.
É não é, de indecisão em indecisão quando saímos “do monte de latas” todo o pessoal tinha desaparecido e a parada estava completamente vazia, não havia viva alma. Óptimo, voltámos de novo pra dentro da viatura e dormimos até próximo da hora de almoço, pois fomos acordados pelo comandante da unidade que nos perguntou se pertencíamos ao batalhão e,após a nossa confirmação, nos pediu desculpa pela interrupção da soneca.
À tarde já formámos com a nossa companhia, mas a apresentação ao Capitão Taxa Araújo só foi efectuada ao 2º ou 3º dia, com o Sargento Pires a andar de pelotão em pelotão a perguntar onde raio estavam metido os cabos milicianos aramistas, pois ainda não se tinham apresentado na companhia.
A vidinha corria-me às mil maravilhas. De dia dava instrução de condução aos meus condutores e mesmo sem GPS (na altura não havia tais modernices) não errávamos uma única tasca das aldeias e povoados à roda de Estremoz. À noite era Águias de Ouro ou desenfianços até Montemor, à minha casa, ou a Veiros a casa duns familiares do Ribeiro, local onde o Gomes quis beber por um garrafão que encontrou numa arrecadação e ingeriu uma valente golada de azeite que até ia vomitando as tripas.
Esta vida de “cavaleiro” (não me podia esquecer que mesmo sem cavalo eu integrava um batalhão de cavalaria) estava a dar cabo de mim e a minha sorte foi eu querer retomar um hábito antigo. Ir à saída da missa…
Lá fui eu com o Gomes à igreja, que era mesmo ao lado da porta de armas do Quartel, e boca daqui piropo dacolá, conseguimos convencer a V… e a L…., era assim que se chamavam as duas moças, a passear connosco no jardim público da cidade.
Acabaram-se as noitadas de copos e passámos a estar de “plantão” à porta da escola à espera que as nossas estudantes nocturnas saíssem. A protecção proporcionada levava-nos a passar por um túnel mesmo por detrás do edifício onde dormíamos e que tinha uns recantos mais que apropriados para a “marmelada”. Que maravilha…
A vidinha corria normalmente até aos exercícios finais da companhia que foram programados para a Serra de Ossa.
Foi aí que eu consegui mais ou menos alguma credibilidade junto do Taxa Araújo, comandante da companhia, pois foi-me distribuída a organização do aquartelamento no que diz respeito à distribuição e montagem das tendas de campanha e as portas de entrada, que de facto não é pra me gabar mas ficaram mais ou menos à maneira.
Pra mal dos meus pecados o Gomes, cabo miliciano aramista meu amigo e responsável pelas transmissões decidiu e muito bem, que tinha que aprender a conduzir. Vai daí pediu cá ao Alentejano, cabo miliciano ferrugento e responsável pela gestão das viaturas, que o ensinasse a conduzir.
O Gomes tinha cá um poder de argumentação que até parecia que tinha sempre razão e vai daí, na primeira oportunidade, estava com o cu assentado junto ao volante do jipe land rover que me estava distribuído e, eu ao seu lado, a ministra-lhe alguns ensinamentos sobre a forma de dominar a máquina.
Das duas uma, ou eu não sabia ensinar coisa nenhuma ou o Gomes não tinha cabeça para uma aprendizagem demasiado rápida.
Foi o bom e o bonito. Em vez da primeira o “transmissões” enfiou a marcha atrás e com uma aceleração forte enfiou dentro da tenda em que dormíamos. A nossa sorte foi que um rádio serviu de calço e o jipe estacou antes de se precipitar serra abaixo, o que seria uma verdadeira tragédia.
Todos os pelotões estavam em operação (simuladas claro) e no aquartelamento improvisado apenas estavam os aramistas (condutores, mecânicos, cozinheiros, padeiros etc., etc..) que transformamos de imediato em costureiros e munidos de fios, cordas e arames reconstruímos a tenda.
Foram noites de pesadelo as que passamos na Serra de Ossa até ao final dos exercícios com medo da “barraca” vir abaixo. O pior era quando o nosso grande amigo Sargento Pires entrava a rastejar pra dentro da mesma e erguia-se, amparado ao poste central, com o cantil de bagaço na mão a dizer-nos que estava na hora de tocar a sentido.
Meu deus como nós afinávamos com os beços (lábios tinha o nosso capitão) no clarim (cantil) até que o calor nos subia à cabeça e vencia o frio da serra alentejana.
Foi com profundo alívio que no último dia desmontamos a dita cuja, que depois de enrolada foi atirada para cima da viatura que a transportou para a arrecadação de material.
Já nos safemos, foi o desabafo colectivo…
De volta a Estremoz, depois de fazer o espólio em que fiquei com praticamente todo o equipamento com utilidade futura, recebi as divisas de furriel e lembro-me de ter saído duas ou três vezes pela porta de armas para receber a “continência” da praxe.
Voltei a Estremoz um dia antes de tomar lugar no comboio que me foi depositar junto ao cais, onde vi pela primeira vez o Niassa, que me levou sem escala até Luanda.
Já não havia motivo para desalinhar. A sorte estava lançada.
Clemente Pinho – Ex-Furriel Miliciano Mecânico Auto. C.Cav. 2692

domingo, 5 de dezembro de 2010

"Como eu entrei na Guerra"



Capítulo 4º

Cabo Miliciano/E.P.S.M.

Que maravilha, o Alentejano era Cabo Miliciano Mecânico Auto e para possibilitar a vingança do “Sabão Amarelo” ia continuar a sua vida de militar em Sacavém.
Abro um pequeno parêntesis para dar uma ideia do indivíduo com quem eu tive que lidar até ao final de Fevereiro de 1970, com um pequeno intervalo de 30 dias porque fui destacado para o CICA 3 em Elvas, para tirar a carta de condução.
“Tipo alto, forte, cabelo ruivo (razão da alcunha) completamente rapado de lado fazendo lembrar um puro soldado alemão. Como 1º Sargento da Secretaria toda a orgânica da Unidade lhe passava pelas mãos, nomeadamente as dispensas, toques de ordem, distribuição do pré, alimentação, escalas de serviço, etc., etc..
Dava-se ao trabalho de vir todos os dias da semana fazer o render da parada, de forma a não perder o controlo do império que construiu.
Os bufos, arregimentados a troco de dispensas, passavam-lhe toda a informação necessária para fazer prevalecer um autoritarismo amparado por um profundo conhecimento do regulamento de disciplina militar, que sabia de cor e salteado.
Se até os sargentos e oficiais temiam o “sabão amarelo”, eu resolvi que devia ficar no meu cantinho de forma a passar completamente despercebido. Era de facto o maior desafio que tinha que enfrentar até que o destino me pregou uma valente partida.
Comecei a entrar na escala de serviços, que fui cumprindo com a ajuda dos meus camaradas mais antigos e a vidinha corria-me de feição. Adorava quando me calhava fazer de “Polícia de Unidade”, em dia do recebimento do pré. Era um fervilhar de soldados à procura de mudar o óleo no olival pegado ao quartel, onde era frequente alguém gritar “fujam p…. que vem aí a ronda”. Dava de facto gozo ver correr p…. e soldados, que por vezes só paravam na vedação da auto-estrada.
Estava eu de Sargento de Dia dentro da unidade e seguindo o que normalmente os meus camaradas faziam, não efectuei a formatura de recolher aos cabos milicianos que em Sacavém era obrigatória.
Na manhã do outro dia, quando fui apresentar na Secretaria o relatório, achei estranha a forma como o 1º Sargento (o tal de sabão amarelo) me fez apressar a assinatura do mesmo e a sua interrogação sobre a existência ou não de faltas na formatura de recolher.
Até parece que foi hoje, pois ainda na minha memória guardo as palavras que me foram dirigidas.
- Então nosso Cabo Miliciano já assinou o relatório? Não faltou ninguém à formatura de recolher pois não?
Eu argumentei:
- Não meu primeiro não faltou ninguém e já assinei o relatório onde não registei qualquer ocorrência.
O tal de sargento recolheu rapidamente (o que eu estranhei) o relatório da minha frente e pregou-me, é assim o termo, com uma comunicação que tinha chegado do Hospital Militar registando a entrada de um Cabo Miliciano pertencente à E.P.S.M. de Sacavém, atropelado entre Moscavide e Sacavém.
Por azar meu o camarada atropelado não tinha dispensa de recolher e foi então o bom e o bonito.
- Gritou, barafustou comigo e acabou por me dizer que eu tinha mentido em relação à formatura de recolher, que não a fiz e que portanto tinha uma desobediência muito grave, razão porque ia de imediato fazer a participação da ocorrência.
Pegou numa folha de papel azul e de facto começou a participação onde depois de registar a minha identificação, efectuou a primeira pergunta:
- Fez ou não fez a formatura de recolher aos Cabos Milicianos?
Eu de facto naquela época era mesmo desalinhado e respondi:
- Não meu 1º Sargento, não fiz de facto a formatura de recolher aos meus camaradas. Podia mentir e dizer que alguém tinha respondido por ele, mas prontamente seria desmentido pelos “bufos” que tem às suas ordens. Concordo com a formatura de recolher aos Cabos Milicianos desde que também sejam incluídos os Sargentos Milicianos, pois fazemos exactamente os serviços que eles fazem, caso contrário vai ter que estar sempre a fazer participações de mim sempre que eu esteja de serviço.
Encerrada a participação foi a mesma colocada à minha frente para eu assinar e eu depois da ler com todas as calmas recusei assinar, argumentando que faltava inserir a minha argumentação em relação à falta cometida.
O “Sabão Amarelo” até mudou de cor. Não alterou a participação e eu não assinei.
Com um curriculum já bastante agradável cheguei à formatura para receber o pré e quando estava a estender a mão para receber a “esmola” que me pagavam por serviços relevantes à Pátria (agora pagam muito mais a parasitas que não fizeram metade do que eu fiz) ouvi o 1º Sargento dizer ao Comandante da Escola “o homem da participação é este” e seguidamente a informação de que me deveria apresentar, após a distribuição dos dividendos, no seu gabinete.
O Comandante da Escola, que era um Capitão, que reagiu muito mal ao facto de eu não ter assinado a participação, disse-me tudo como os malucos mas como eu nunca fiquei calado e argumentei sempre, acabou por me dizer que o castigo que me iria aplicar seria mais para dar uma satisfação ao “Sabão Amarelo” .
Um mês todo de Sargento de Dia à benfica. Alinhei tanto de encarnado que agora não os suporto…
Passado este contratempo tinha que me meter noutro. Incitação a um levantamento de rancho no refeitório dos sargentos.
Comia-se mal, mesmo muito mal, dada a forma em como o “ Sabão Amarelo “ desviava o dinheiro destinado a alimentação.
Toda a gente comentava, não havia nem cão nem gato que não barafustasse mas lá iam comendo a porcaria que nos era servida, até um dia….
- Hora de almoço. O “rancho” para Sargentos tratava-se de “estilhaços de bacalhau” com batatas (vulgarmente denominado de bacalhau à braz), só que tal como das outras vezes mais parecia argamassa usada na construção para assentar tijolos.
Das palavras passamos aos actos e a comida do dia começou a ficar colada nas paredes do refeitório, nalguns casos até com prato de alumínio agarrado e, juro que não fui o primeiro a atirar mas devo ter sido o segundo.
Foi o bom e o bonito. Comandante, Sargento e muitos mirones apareceram no refeitório e as identificações começaram a ser anotadas.
Eu, Cabo Miliciano Clemente Marques Pinho, com o nº mecanográfico 143670/69, chamado novamente à presença do Comandante como principal instigador de um acto considerado para a época de “revolucionário”.
Mais uma vez a minha argumentação e a minha frontalidade me safou e saí do gabinete do Comandante com a certeza que a minha mobilização para Angola se mantinha (não me mandavam para Guiné talvez com medo que eu acabasse com a guerra) , mas apenas com mais um mês de Sargento de Dia à “Benfica”. É possível eu gostar dos encarnados? Claro que não….
Começaram a surgir melhorias importantes na alimentação graças a frontalidade de um 2º Sargento de nome Magalhães, que foi de facto quem mandou a primeira pedra (prato à parede), e que teve a coragem e honestidade de se assumir como responsável pelo incidente.
O meu 2º mês de castigo foi cumprido em Outubro de 1969, mês de eleições, em que todas as Unidades estavam de prevenção e não havia dispensas para ninguém, sendo até obrigatório que toda a tropa se apresentasse nos seus aquartelamentos.
Tal situação proporcionou-me uma possibilidade enorme de me baldar que eu soube, novamente graças à minha irreverência, aproveitar.
Durante o mês de prevenção apercebi-me da presença de três camaradas da minha terra que pertenciam aos quadros da Escola do Serviço de Material e que eu nunca tinha visto, nem sequer numa formatura de recolher.
Falei com eles e descobri o segredo.
Era tão fácil, pois era só abdicar do dinheiro do pré mais o valor das refeições. Lá vou eu direito à Secretaria pedir dispensa para o mês de Novembro e foi mais ou menos assim:
- Meu primeiro eu necessito de pedir dispensa para o mês de Novembro e, se possível, a começar já depois de amanhã que é Sexta-feira, pois tenho que ir ajudar os meus pais a apanhar a azeitona (qual azeitona qual quê, só se lha dessem).
A resposta do Sabão Amarelo:
- Nosso Cabo Miliciano lamento mas não pode ser, já dei muitas dispensas para Novembro e na sexta-feira é dia de pré, você tem que estar para o receber.
Já sabedor da tramóia argumentei:
- Meu primeiro o dinheiro do pré e das refeições é uma gota de água comparado com o que os meus pais vão pagar se eu não tiver para os ajudar, quero lá saber do que tenho a receber.
De imediato me mandou ir buscar os 30 toques de ordem, que eu já levava preenchidos e assinados, foi só carimbar e lá ia de abalada a caminho de Vila Franca de Xira, para a apanhar boleia na portagem, não sem antes passar pela “Casa dos Courates” e comer uma boa sande acompanhada por um “penalty” do tinto.
Este procedimento repetiu-se nos meses de Dezembro de 1969, Janeiro e Fevereiro de 1970 e de Sacavém, apenas recordo com saudade as rondas aos Bares, ao Olival e os bailaricos na Bobadela e no Prior Velho.
O “Sabão Amarelo” viu-se assim livre de mim, com algum lucro claro.
Voltei novamente a alinhar…
Clemente Pinho – Ex-Furriel Mecânico Auto da C.CAV. 2692










sábado, 4 de dezembro de 2010

A Mais Rude Escola de Guerra

Ter saído do Mucondo para Luanda foi do agrado de todos, não obstante a guerra continuar à nossa espera em zonas onde o risco era sempre elevado. Pudera! O importante era sair do mato, e passar a curtir a cidade, com tudo o que ela oferecia, tanto de dia como de noite.
Mesmo as saídas para as acções como tropa de intervenção eram vistas pelo aspecto positivo. À saída pensávamos “daqui a tantos dias estou de volta à cidade”. E quando efectivamente voltávamos de cada acção respirávamos de alívio por termos sobrevivido a mais uma operação. Era como se já tivéssemos chegado a casa.
Pois uma das saídas como tropa de intervenção foi para Zalala, que penso ficar para os lados de Carmona, actual Uíge, não muito longe aliás do nosso Mucondo. Tenho ideia de termos saído de madrugada, e ao início da tarde tivemos de parar em Samba Cajú para reabastecimento. Esgotado o combustível na bomba, ficámos bastante tempo à espera que despejassem bidões de combustível para o depósito para podermos atestar o resto das viaturas.
A certa altura deixámos a estrada principal e começámos a descer. Lá no fundo do vale surge um muro, que contornava em redondo uma alargada curva, onde estava escrito em letras impecavelmente desenhadas “ Bem-vindos a Zalala, a mais dura escola de guerra”.
A minha cabeça, que estava muito longe dali, levou com um balde de água gelada e um calafrio percorreu-me de alto a baixo. A bela cidade de Luanda e a praia da Corimba tinham realmente ficado para trás. Afinal tínhamos voltado novamente à guerra, à mais rude escola de guerra! Maldita guerra!

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Histórias da nossa tropa

A minha história de hoje,tem duas finalidades: recordar factos passados e ao mesmo tempo homenagear o Sar.
Pires a quem muito fiquei a dever,não só eu como todos os Furrieis em especial os ditos aramistas.
Como sabemos,ele só chegou ao Mucondo uns dias depois de nós,creio que foi nomeado para dar uma ajuda
aos camaradas da CCS. Logo que chegou, começou a verificar a quantidade de barretes que os velhinhos nos
enfiaram.Quando chegou ao posto de rádio pediu-me a folha de carga e começamos a conferência do material
Depois de várias folhas sem importância de maior,ele pergunta: onde é que estam as telas de balizagem?
Ao que eu respondi : acho que é isto ,mostrando umas tiras de pano de várias cores numa parteleira.
Isso são bocados de lençol disse-me ele,éque eu nunca tinha ouvido sequer falar em telas de balizagem(são
umas tiras coloridas que se colocam no chão para poisio dos helicópteros).
Temos de fazer um auto de abate,vamos dizer que a formiga branca destruiu as telas ,não acha seu maçarico?
Assim foi salva uma situação,penso que todos os meus camaradas que tiveram problemas idênticos, ele ajudou a resover.
Quero deixar aqui um bem haja a este Homem,esteja ele onde estiver.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

"Como eu entrei na Guerra"

Capítulo 3º

Cheguei a Sacavém, à Escola Prática do Serviço de Material, com a energia necessária para me tornar um mecânico da treta.
Primeiro objectivo era ficar nos primeiros lugares do curso pois tinha todas as possibilidades de evitar a mobilização, tarefa que se me afigurava muito difícil pois nesse ramo de "negócio"eu era de facto um nabo.

Esse meu "enorme" esforço de aprendizagem, que diga-se de passagem foi de facto muito cansativo para um Alentejano, acabou num tremendo fracasso pois nesse ano nenhum ferrugento escapou à mobilização.

Fiquei de facto bem classificado mas não foi por sabedoria, pois digo em abono da verdade que não sabia a ponta dum corno do ofício e, exemplo disso, conto dois episódios demonstrativos do meu desempenho laboral:

1º - Um dia estava eu a montar umas velas no motor do Jipe e atirei propositadamente uma carrapeta de uma delas para dentro do cilindro respectivo, a fim de estudar o comportamento do motor e ao mesmo tempo me divertir um pouco. Assim que coloquei o motor a trabalhar começou uma estouraria que mais parecia o Porto em Dia de São João, que só parou quando a maldita carrapeta se derreteu e possívelmente saiu pelo tubo de escape. Nem rasto da dita cuja...

Remédio santo, deixaram de me distribuir trabalhos especializados.

2º - Enveredei então para a actividade de lavador e polidor de peças. Dois ou três dias depois de iniciar a minha nova actividade levei uma tremenda "piçada", (parece-me que era assim que se dizia na época) do Capitão Soares, que tinha a alcunha de cabo 8 (ao que parece andou precisamente 8 anos na escola de cabos) meu comandante de instrução.

Era uma excelente pessoa mas nesse dia apanhou-me a lavar as maxilas e os calços de travão de um Unimog com gasóleo e disse-me depois de muitas coisas, que eu tinha era o 5º ano da coisa da tia. Claro que não disse "coisa" mas foi parecido.

Tive sorte, o Capitão Soares de alcunha Cabo 8 simpatizou comigo devido ao meu ar rebelde e um pouco (muito) destravado e comecei a ser o intermediário entre os meus camaradas e o comandante, sempre que necessitavamos de dispensas ou fins-de-semana mais alargados e, isso foi a causa da minha desgraça.

O Sargento da Secretaria apenas levava a despacho ao Comandante da Unidade, os passaportes que entrassem na Secretaria até à 10 horas da manhã.
Numa sexta-feira o Capitão Soares, nosso comandante de instrução, chegou eram quase 11 horas e eu muito à pressa fui solicitar-lhe a assinatura nos passaportes, que distribuí pelos meus camaradas , e em passo acelerado fomos direitinhos à secretaria.

O Sargento (que eu não me lembro nome) mas cem anos que eu viva nunca irei esquecer a alcunha "Sabão Amarelo"ia saír a despacho e recusou-se a receber as dispensas. Saí dos carretos e nem sequer pensei nas consequências do meu acto, rapidamente recolhi das mãos dos meus camaradas os passaportes e desandei para o gabinete do Capitão Soares, não ligando sequer ao Cabo da Secretaria que o Sargente mandou logo de imediato atrás de mim.

Novamente junto do meu comandante de instrução mal tive tempo para dizer que merda de unidade era aquela pois um sargento mandava mais que um capitão, pois de imediato saíu em passo mais que acelerado direitinho à secretaria, comigo e o cabo atrás. Parecia uma procissão...

Não dá pra reproduzir o que o sargento teve que ouvir e, nesse momento compreendi a razão dele ter sido cabo durante 8 longos anos.

Depois desse episódio e enquanto durou a especialidade o tal "Sabão Amarelo" tratou-me sempre cordialmente, mas deixou bem claro que esperava por mim quando eu passasse a pertencer aos quadros da unidade.

E assim foi. Acabada a especialidade vi grande parte dos meus amigos saírem para outras unidades e eu fiquei em Sacavém até Março de 1970. Já nem o Capitão Soares(Cabo 8 ) me podía valer....

Nesta fase era obrigado a ficar alinhado, mas voltei a desalinhar e paguei bem caro por isso.

Clemente Pinho - Ex.Furriel Mecânico da C.CAv. 2692

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

"Como eu entrei na Guerra"


Capítulo 2º

Como fui parar em “mecânico auto”
Eu, que nem carta de condução tinha e de meios de locomoção apenas sabia alguma coisa sobre a construção dos carrinhos de rolamentos com que descia as rampas do castelo de Montemor-o-Novo, em miúdo claro.
É uma história curiosa o que vou contar.
Faltava não mais de 15 dias para terminar a recruta e jurar bandeira quando o Sargento meu amigo, o tal do depósito de equipamento, veio à minha procura para me levar à presença do 2º Comandante da Escola Prática de Artilharia, o Tenente Arranhado.
E lá fui com ele ao gabinete do tal Arranhado e, pelo caminho, ia tentando me lembrar de algum incidente, fora ou dentro do aquartelamento, em que me tivesse envolvido. Será que tinham descoberto os meus desenfianços ao fim-de-semana?
Entrei no gabinete e recordo-me de ter ouvido o Sargento de nome Merca dizer para o Tenente apenas isto “aqui está o homem” e sair.
Fiquei cara a cara com o homem, muito atrapalhado e convencido de que estava feito ao bife, até ele me perguntar;
- Chama-se Clemente Pinho?
- Conhece o Sr. Armando Alho? Sabe que ele é um grande amigo meu?
- Não tem em seu poder uma carta dirigida a mim?
Fiquei atrapalhado e disse para comigo “ estás mesmo feito” e balbuciei;
- Sou de facto o Clemente Pinho, conheço o Sr. Armando Alho e tenho em meu poder uma carta que lhe é dirigida no caso de eu necessitar alguma ajuda…
O homem ficou completamente admirado por eu não ter utilizado uma cunha que qualquer um nas minhas condições não deixava de aproveitar.
Lembro-me perfeitamente de ficar sem reacção quando o Tenente me diz;
- Então não precisa? Tem tido bons testes? Quer ir para atirador? Quer ser mobilizado? Não quer cumprir o resto da tropa aqui em Vendas Novas?
Respondi-lhe:
- Já escolhi as especialidades, mas o Aspirante do meu pelotão disse-me que devido aos meus testes físicos e escritos vou com toda a certeza para atirador.
O Tenente Arranhado voltou a argumentar.
- O seu Aspirante não tem que dar palpites, diga lá o que é que escolheu.
Eu respondi:
- Escolhi Artilharia de Campanha, para a possibilidade de ficar em Vendas Novas. Escolhi Artilharia de Costa e Mecânico Auto.
O dito cujo tenente mandou-me esperar e ausentou-se do gabinete durante uma eternidade (não mais de 15 minutos) e quando regressou disse-me:
- Artilharia impossível pois as vagas que tinham já estavam preenchidas, mas podia contar com a especialidade de mecânico auto.
Antes de sair do seu gabinete pedi-lhe desculpa por não lhe ter entregue a carta e perguntei-lhe se podia explicar as razões de tal acto, o que ele consentiu.
- Então é assim.
- O Armando Alho era o senhorio da habitação onde morava e tinha a fama e o proveito de ser um incorrigível mentiroso. Mentia tanto que por vezes se convencia que falava verdade.
Era do tipo em que se eu lhe dissesse que tinha uma máquina de barbear com rádio acoplado, ele argumentava logo que também tinha uma com televisão e tudo. De facto era um tretas do caraças, mas como era rico ninguém o desmentia e até achavam graça.
Num dos primeiros fins-de-semana que vim a casa (já não me recordo se desenfiado ou não), encontrei o meu pai a falar com o dito cujo Armando Alho, que morava na porta ao lado, que ao ver-me fardado e com as insígnias da “Artilharia”, me perguntou se eu estava em Vendas Novas.
Após a minha confirmação, levou-me ao seu escritório e escrevinhou prá li uma carta que eu tinha que entregar em mão ao seu grande amigo Arranhado. Vai daí ainda parece que o estou a ouvir:
- Meu rapaz na segunda-feira pedes logo para falar com o Tenente Arranhado e entrega-lhe esta carta em mão ouviste? Olha que se trata do 2º Comandante da Escola e como tal pode-te ajudar no que precisares.
Pensei cá pra mim:
- Então o Comandante da minha bateria de Instrução é um Major, que raio é que um Tenente me pode ajudar e, na sequência deste pensamento, deixei ficar a cartinha no armário. Azar o meu…
Como ainda era “maçarico” desconhecia que a hierarquia de comando da Bateria de Instrução nada tinha a ver com a da Escola Prática de Artilharia de Vendas Novas.
Rimo-nos os dois e saí do gabinete com a certeza de que o meu destino seguinte seria Sacavém.
Fiquei menos desalinhado pois ia continuar a minha formação militar numa unidade que, segundo informações de amigos, era uma rebaldaria (desde que se tivesse cuidado com o sabão amarelo) o que para mim era ouro sobre azul, pois eu era de facto “um baldas do caraças”.


CLEMENTE PINHO. Furriel Miliciano – Mecânico Auto – C.CAV. 2692