“Como eu entrei na Guerra”
Capítulo 1º
Corria o ano de 1968 quando entendi não pedir adiamento do serviço militar para continuar a estudar.
Deixei pró que desse e viesse e fui chamado para assentar praça em Vendas Novas, no primeiro Curso de Sargentos Milicianos.
Dia 9 de Janeiro de 1969, eu e mais sete companheiros de escola, alguns desde a primária, apresentámo-nos no Quartel e assim iniciei a minha odisseia de combatente.
Por sorte o Sargento encarregado do depósito de equipamento estava casado com uma moça minha conhecida e toda a roupa e calçado que me foi distribuído assentava que nem uma luva, ao contrário de companheiros meus que rodavam dentro das botas e das calças. Enfim coisas da tropa de então.
Eu tinha 20 anos, jogava futebol, andava de festa em festa só para participar nas largadas de touros, que adorava e às 2ªs feiras na parada todo o meu corpo vibrava e se arrepiava, quando por entre o rufar dos tambores e o som da fanfarra , alguém dizia em voz muito solene “ No início de mais uma semana de instrução vamos lembrar os nossos camaradas que em terras de África, Ásia e Oceania lutam, sofrem, morrem e se engrandecem …” . Eu era de facto um exemplar nato de “carne pra canhão”.
Para azar meu fui colocado no 3º Pelotão da 1ª Bateria de Instrução, comandado por um Aspirante do Porto chamado Teixeira Lopes, auxiliado por um Cabo Miliciano tipo chico esperto a quem, cerca de um mês depois, estive vai na vai para lhe apertar o papo.
O 3º pelotão da EPA (Escola Prática de Artilharia) denominado escravos do TL (Teixeira Lopes), Escravos da Escola Penal Alentejana, Limpa Paradas, enfim uma série de nomeações que nos tiravam do sério e nos obrigavam a tomar algumas atitudes impensadas para a época.
Só para terem uma ideia. O meu companheiro da direita na formatura era um Algarvio, de que não me recordo o nome, mas a quem demos e muito bem a alcunha de “Sorna”. O nosso “sorna” em relação a este a que me refiro era um Ferrari.
Em dias de ordem unida era uma completa desgraça, razão das denominações que o pelotão granjeou. O amigo algarvio tirava-nos do sério pois a sua movimentação era de tal maneira lenta que destoava de toda a movimentação do pelotão e como tal nos obrigava a fazer horas suplementares até máquina estar afinada. Flexões, cangurus, rastejar com ou sem lama era o nosso fado até que um dia me tirou do sério e lhe apliquei um murro em pleno cachaço, que o obrigou a ir de focinhos ao chão mesmo em frente ao Aspirante.
Claro que lhe tive que cair logo encima e, enquanto gritava que o homem tinha desmaiado com o cansaço, disse-lhe ao ouvido o que o esperava se desse com a língua nos dentes.
Remédio santo, trigo limpo farinha amparo como se dizia na altura. O algarvio saiu da situação de letargia em se encontrava e passou a ser um bom companheiro.
Durante o tempo da recruta vi os fins-de-semana praticamente todos cortados ou por a cama estar mal feita ou por deixar as malas debaixo da dita cuja, situação que não inviabilizava o meu “desenfianço” até casa , que estava a cerca de 20 kms., preocupando-me apenas em cumprir com as formaturas e horas de recolher.
Lembro-me perfeitamente de que numa noite me debrucei sobre a minha cama e chorei, tal era a minha angústia por ter que aguentar quatro anos num ambiente que já me começava a dizer pouco.
No dia do Juramento de Bandeira foi com enorme satisfação que eu ouvi o Teixeira Lopes pedir-nos desculpa pela forma como nos tratou durante a recruta , acentuando que a sua intenção foi a de preparar homens em que podia confiar em qualquer situação de combate.
Compreendi a situação mas comei a ser um desafinado…
CLEMENTE PINHO. Furriel Miliciano – Mecânico Auto – C.Cav. 2692
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Aos Camaradas da C. Cav. 2692
Hoje deixo-vos um pequeno poema, pequeno e simples, tal e qual como eu sou.
Foi escrito há muitos anos e revela, que de facto, eu sentia uma certa nostalgia dos tempos de África.
Este poema faz parte do meu livro:Ecos da Erra Velha.
De todos sinto saudade
Porque jamais esqueci
Aquela velha amizade
Que de todos recebi
Recordar os tempos idos
Que em Angola vivemos
São afectos repartidos
Pelas saudades que temos
Um abraço, mil abraços
Continuam a esperar
Até que eu vos possa ver
Talvez breve os meus passos
Orientem meu andar
para o sul do meu viver
José Diogo Júnior in Ecos da Erra Velha
Dêm também uma vista de olhos em:http://poesiademinhaalma.blogspot.com
Foi escrito há muitos anos e revela, que de facto, eu sentia uma certa nostalgia dos tempos de África.
Este poema faz parte do meu livro:Ecos da Erra Velha.
De todos sinto saudade
Porque jamais esqueci
Aquela velha amizade
Que de todos recebi
Recordar os tempos idos
Que em Angola vivemos
São afectos repartidos
Pelas saudades que temos
Um abraço, mil abraços
Continuam a esperar
Até que eu vos possa ver
Talvez breve os meus passos
Orientem meu andar
para o sul do meu viver
José Diogo Júnior in Ecos da Erra Velha
Dêm também uma vista de olhos em:http://poesiademinhaalma.blogspot.com
Mais histórias
Quando estávamos no Mucondo como era sabido,as transmissões tinham de funcionar 24 horas.
Além disso o Cap.queria saber o conteudo de qualquer mensagem logo de imediato. Chegou uma que versava
o seguinte: Barraca segue deste para essa na próxima coluna...
Como eram quase 3horas da manhã,mas obedecendo às ordens,o Rui que tinha cifrado a dita,foi bater à porta
do quarto do Cap. para lhe dar conhecimento que de imediato lhe disse:
Vai chamar o furriel Gomes quero saber para que é a merda da barraca,depois de me perguntar se eu estava
maluco,é que se deu conta de que mais uma vez tinha ignorado por completo os códigos que eu mensalmente
colocava na gaveta do seu gabinete.
Esta passagem serve de algum modo para lembrar o Rui Silva que a colaboração dele está muito fraca....
Além disso o Cap.queria saber o conteudo de qualquer mensagem logo de imediato. Chegou uma que versava
o seguinte: Barraca segue deste para essa na próxima coluna...
Como eram quase 3horas da manhã,mas obedecendo às ordens,o Rui que tinha cifrado a dita,foi bater à porta
do quarto do Cap. para lhe dar conhecimento que de imediato lhe disse:
Vai chamar o furriel Gomes quero saber para que é a merda da barraca,depois de me perguntar se eu estava
maluco,é que se deu conta de que mais uma vez tinha ignorado por completo os códigos que eu mensalmente
colocava na gaveta do seu gabinete.
Esta passagem serve de algum modo para lembrar o Rui Silva que a colaboração dele está muito fraca....
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Outras Histórias
Caro amigo João Vieira, já tinha pensado que as recordações tinham acabado...
Só que as vezes a memória trai-nos,não foram dois dias mas sim algumas horas acredito que pareceu-nos 2 dias eramos para chegar às 18 e chegamos próximos da s 24. O que interessa é que chegamos e estamos vivos
para recordar.
Só que as vezes a memória trai-nos,não foram dois dias mas sim algumas horas acredito que pareceu-nos 2 dias eramos para chegar às 18 e chegamos próximos da s 24. O que interessa é que chegamos e estamos vivos
para recordar.
O Regresso
A última história que me lembro da nossa “guerra”, depois de ter estado uns dias a pensar, é a do regresso. Fomos dos primeiros a utilizar os novos Boeings 707 que a Força Aérea comprou para transporte de tropas. E termos sido dos primeiros teve um preço! A nossa Companhia, que foi, se a memória está certa, a última a embarcar, quase um mês depois do que deveria ter sido, dirigiu-se toda lampeira para o aeroporto no dia aprazado, de onde, todos contentes, levantámos voo em direcção à almejada Lisboa. Apenas nove horas nos separavam do fim do que nos parecia ter sido um pesadelo. Mas o destino pregou-nos ainda uma partida. Pouco depois de levantar o avião começou a circular Luanda e o mar e como nós éramos uns desprezíveis passageiros, nada nos foi dito, continuando o avião a descer e a subir e às rodas sem se fazer à estrada! Até que, uns bons quarenta minutos depois, tornámos a aterrar em Luanda! Esperámos ainda dois dias para voltar a embarcar e, aí sim, virmos direitos para Lisboa!
Penso que, com esta memória, encerro a minha participação neste blog mas queria fazê-lo com uma espécie de declaração. Como ficou dito fiz tudo o que pude para “cumprir o meu dever” na forma que defini. Acho que uma das razões porque o fiz foi porque eu acreditava na utopia de que Portugal tinha a obrigação de “construir novos Brasis”, como a propaganda da época dizia. Há uns cinco anos voltei mais uma vez a Angola e vi, sem possibilidade de retorno, uma sociedade semelhante a um Brasil. Escrevi então num artigo que afinal tinha pertencido à “última geração” de portugueses que, ao longo dos séculos, defendeu, com armas na mão, uma ideia maior do que as nossas próprias forças, ideia essa, utopia que fosse, se concretizara, como tantas outras loucuras dos portugueses.
Penso que, com esta memória, encerro a minha participação neste blog mas queria fazê-lo com uma espécie de declaração. Como ficou dito fiz tudo o que pude para “cumprir o meu dever” na forma que defini. Acho que uma das razões porque o fiz foi porque eu acreditava na utopia de que Portugal tinha a obrigação de “construir novos Brasis”, como a propaganda da época dizia. Há uns cinco anos voltei mais uma vez a Angola e vi, sem possibilidade de retorno, uma sociedade semelhante a um Brasil. Escrevi então num artigo que afinal tinha pertencido à “última geração” de portugueses que, ao longo dos séculos, defendeu, com armas na mão, uma ideia maior do que as nossas próprias forças, ideia essa, utopia que fosse, se concretizara, como tantas outras loucuras dos portugueses.
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
MILITARÃO E DIPLOMATA
As qualidades de "militão"atribuidas ao Comandante de Batalhão Ten.Cor.Duarte Silva, já foram, por diversas vezes, referidas em anteriores comentários, o que, no entanto, para nós sempre foi evidente.Recordo-me, ao fim deste tempo todo, de uma passagem ocorrida no Mucondo, aquando de uma programada "operação a nível do batalhão" com início no nosso Quartel. Na data da concentração do pessoal estava eu junto dos meus papeis a tentar conciliar o custo da "ementa" com o custo da "verba atribuida" quando o cabo mecânico Brinquete, me aborda no sentido de eu, simples Vagomestre, ir comandar o pessoal destinado a proteger quem, necessáriamente, tinha a função de pôr a trabalhar a bomba que abastecia de água o nosso quartel, ainda por cima, nessa altura com muita gente que necessitava de tomar banho. Até aqui tudo bem. Ora eu, estava vestido (como era natural dentro do quartel) de farda de terylene. Perante tal solicitude urgente, indadevertidamente, vesti o dolmen camuflado e coloquei na cabeça o "quiko" da farda de trabalho, catucheira ao cinto e G3 na mão e lá fomos.Escusado será dizer que ia mal uniformizado.Felizmente correu tudo bem. Só que quando a viatura que nos transporta regressou ao quartel constatei que na zona de estacionamento das viaturas o espaço estava cheio, que significava que o Comantante já tinha chegado, o que queria dizer, que caso ele me visse, lógicamente me chamaria a atenção, tendo dito ao pessoal que me acompanhava que dispersasse no meio de tanta gente que por alí circulava. Tal como pensei assim aconteceu, quem deu nas vistas fui eu, pois que, estando a tentar desaparecer daquele espaço, ouço aquela voz inconfundível a chamar por mim: - Amaral! Amaral!. Escusado será dizer que tive de me apresentar, tendo ouvido o seguinte: - Olhe lá ó Amaral, sabe-me dizer se já estamos no Carnaval?. A minha resposta imediata foi: - Meu Comandante , sinceramente, dado que aqui no mato os dias são todos iguais nem sei ao certo. E ele insistiu dizendo: -Mas ainda lá não chegámos?. Disse-lhe (o que havia de dizer?) que não. E então, com aquela sua maneira calma e com a "diplomacia", que, também o caracterizava, mandou-me embora dizendo: - Então se ainda não estamos no Carnaval que se "brinque" só nessa altura. Penso que nem sempre com o ditos palavrões militares se repreende um subordinado. Teria defeitos mas também tinha as suas virtudes. Para terminar digo que não me arrependo que tenha tomado a iniciativa de, depois de 18 anos, em 1990, quando organizei em Mangualde, em conjunto com o Chaves, o nosso almoço daquele ano, o ter convidado a estar presente pela 1ª vez, a que ele acedeu de imediato. Se me não engano, até vir a falecer nunca mais faltou.
Paz à sua alma.
Paz à sua alma.
Histórias da tropa
Como já foi dito a nossa ida para o Grafanil teve algumas vantagens"deixar de estar isolados"
mas a desvantagem de irmos para locais desconhecidos,até foi aí que tivemos mais baixas, o
que eu queria contar creio que passados estes anos até tem graça ...
Estavamos no Bom Jesus e adivinhava-se mais uma das saídas para o mato era a vez do4ºPel.
O Tavares aparece então com uma bota calçada e outra na mão :
Não posso andar ,esta noite levantei-me e bati com um pé na espia da barraca, Sr. dr. que é
que acha?
Nesse estado ele não pode ir diz o Dr. (entre dentes diz o Tavares"mais uma batalha ganha"
É que o acidente tinha sido feito por ele de prepósito, achei graça a esta passagem só não
sei o Dr. topou ou se também foi comido.
mas a desvantagem de irmos para locais desconhecidos,até foi aí que tivemos mais baixas, o
que eu queria contar creio que passados estes anos até tem graça ...
Estavamos no Bom Jesus e adivinhava-se mais uma das saídas para o mato era a vez do4ºPel.
O Tavares aparece então com uma bota calçada e outra na mão :
Não posso andar ,esta noite levantei-me e bati com um pé na espia da barraca, Sr. dr. que é
que acha?
Nesse estado ele não pode ir diz o Dr. (entre dentes diz o Tavares"mais uma batalha ganha"
É que o acidente tinha sido feito por ele de prepósito, achei graça a esta passagem só não
sei o Dr. topou ou se também foi comido.
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