segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Histórias da tropa

Como já foi dito a nossa ida para o Grafanil teve algumas vantagens"deixar de estar isolados"
mas a desvantagem de irmos para locais desconhecidos,até foi aí que tivemos mais baixas, o
que eu queria contar creio que passados estes anos até tem graça ...
Estavamos no Bom Jesus e adivinhava-se mais uma das saídas para o mato era a vez do4ºPel.
O Tavares aparece então com uma bota calçada e outra na mão :
Não posso andar ,esta noite levantei-me e bati com um pé na espia da barraca, Sr. dr. que é
que acha?
Nesse estado ele não pode ir diz o Dr. (entre dentes diz o Tavares"mais uma batalha ganha"
É que o acidente tinha sido feito por ele de prepósito, achei graça a esta passagem só não
sei o Dr. topou ou se também foi comido.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Grafanil

Ao falar em Grafanil.faz com que recorde mais uma injustiça em que a tropa infelizmente era fértil. Desta vez fui sem o poder evitar,um dos protagonistas.
Como o Vieira disse, no Grafanil era comun a ida à praia e se havia quem não gostava outros
não deixavam de ir sempre que possivel. O Cap. tinha dito que ía passar revista, mas trocar
uma ida à praia por uma ao barbeiro,era demais para um jovem que ainda tinha estado de
serviço durante a noite.
Chegada a altura da revista o Alfama foi apanhado no apertado crivo do nossoTaxa.
Diz ele (Taxa) já que não cortaste o cabelo,vai ter com o Gato e: cabelo á bola de bilhar!
Capitão não me faça isso, vou conhecer a minha filha e não gostaria de aparecer lá assim...
Ias responde o nosso cap. O homem,saltou-lhe a mola e respondeu, então não corto,
como nós sabemos isso era uma coisa que não podia acontecer, Gomes chame as praças de
guarda e o cabelo tem de ser cortado,a bem ou a mal.
Enquanto ele estava a ser agarrado e desabafando, só não chamou pai ao dito.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Vida no Grafanil

Os tópicos que assentei num papel, num primeiro e rápido esforço de memória, das histórias que passaria para este blog, chegam rapidamente ao fim mas para hoje ainda lembrarei a nossa “vida” no Grafanil.
Como já lembrei uma das grandes preocupações era manter o pessoal ocupado. Não era fácil visto que no Grafanil não estávamos só nós. Estava o batalhão inteiro. De modo que depois da formatura das oito, uma das ocupações era, no bom tempo, ir à praia. Para isso havia uma ou duas berliets e uma praia, perto de Luanda, que estava reservada a militares e que se situava em frente da ilha do Mussolo. Sempre gostei de praia de modo que me ofereci para chefe dessa guerra, quantas vezes se me ofereceu, acompanhando os militares que também se ofereciam para esse esforço, quase sempre, como eu, originários de terras perto do mar. Não tinha concorrentes, coisa que me espantava imenso, mas a maior parte dos oficiais do batalhão ainda me agradecia por eu me voluntariar. Saíamos logo após o pequeno-almoço dos oficiais, que era depois da formatura das oito, e voltávamos por volta das onze horas. Estava assim gasta a manhã.
Lembro-me de em uma dessas manhãs estar a olhar para o céu, deitado na areia depois de um décimo mergulho, e surgir um helicóptero que começa a fazer evoluções entre o Mussolo e a praia onde nos encontrávamos e de repente ver desprender-se a asa pequena de trás e, no seguimento, o helicóptero destrambelhar-se por ali a baixo caindo no mar. Li depois que morreram todos os passageiros, oficiais sul-africanos cuja presença em Luanda tinha sido negada na véspera, em todos os jornais, como sendo mais uma calúnia.
Um outro grande acontecimento a partir do Grafanil foi a viagem que o Chaves, eu, o Sá e creio que o Pinho, de outras companhias fizemos num Volkswgem que o Chaves arranjou emprestado de um amigo e que nos levou em quatro dias, dados generosamente pelo comandante, a Nova Lisboa, Sá da Bandeira (Tundavala), Moçamedes, Lobito e Benguela. Mais de dois mil quilómetros mas bem dita viagem que ficou para sempre na memória! Tenho uma fotografia de um indígena, na serra que desce de Sá da Bandeira para Moçamedes, nesse tempo em estrada batida de terra, em que o dito indígena tem umas penas na cabeça, uma tanga, uma lança e o escudo e lembro o diálogo que com ele travei quando me aproximei com a máquina dos retratos na mão. Pôs o escudo em frente à cara e espreitando disse: – são cinquenta pau! Perante a minha indignação e o regateio que se seguiu lá consentiu em receber cinco pau e … foi um pau!

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A solidariedade militar

Diz-se que no tempo militar se criam amizades que ficam para toda a vida. Eu penso que não é bem a amizade o principal elo de ligação para toda a vida mas a solidariedade que fica depois de se partilhar um tempo tão intenso. E o exemplo que eu talvez possa dar mais significativo é o do que ficou, passados tantos anos, em relação ao capitão da nossa companhia. Não foram fáceis as relações com ele: um herói, um militarão, um voluntarista ainda por cima sem a experiência, que vem com a idade, que faz diminuir o voluntarismo. Eu serei o contrário de tudo isso. Além disso a principal característica da minha educação foi o da uma enorme liberdade, sem controles, apenas com avisos tipo – Olha que se não fizeres isto ou aquilo vais-te dar mal no futuro. Nunca com ameaças e sempre permitindo a argumentação contrária. A tropa não é nada disto: manda quem pode, obedece quem deve e ponto final. Foi um choque enorme a ida para a tropa! O capitão era para mim, sobretudo no princípio e depois em alguns outros períodos da comissão, a encarnação do mal que me atacava. Mas, no fundo, sempre achei que era melhor estar com alguém que sabia do ofício do que com um amador qualquer e, por outro lado, eu achava que o comandante sempre nos protegeria, a todos, de eventuais excessos do capitão, que aliás acabaram por nunca se verificarem. O que ficou de tudo isto, quase imediatamente depois do fim da comissão? Uma enorme solidariedade. Uma grande admiração pelas suas qualidades militares e uma certa pena por ele ter tido de aturar milicianos como eu: inexperiente, sem gosto nem jeito para o ofício, um rapazola em formação. Pior era impossível!
Quem neste ambiente terrível, sobretudo no início da comissão como por diversas vezes já escrevi, salvava a situação? A amizade entre os alferes que mantive do princípio ao fim, com um ou outro pequeno percalço com o Guia de que não fui o actor principal mas estava solidário com ele, e a companhia na conversa e na discussão amiga do capelão e do médico. Lembro uma noite em que a discussão foi tão intensa que escrevi no meu diário “o capelão e o Chaves são racistas!” coisa que evidentemente nunca foram mas eu talvez gostasse que eles fossem para ganhar argumentos!

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Ainda as operações

Há mais duas histórias de guerra para mim inesquecíveis embora uma delas me pareça uma enorme mentira nos seus pormenores porque era contada por mim e pelo Zé Aragão com diferentes protagonistas. Esta história passou-se numa operação em que o primeiro e o terceiro pelotão actuaram em conjunto na zona da sede do batalhão em Zemba. Progredíamos na meia encosta de um morro quando, de súbito, fomos flagelados do cimo desse mesmo morro. Rapidamente aproximámo-nos da base do morro em passo quase de corrida (É mais fácil de descer do que subir, já dizia o Veloso de Fernão Mendes Pinto) e aí instalado (conto eu) gritei: onde está o gajo do morteiro? E a resposta veio: o gajo do morteiro sou eu, mas o morteiro ficou lá em cima!
A segunda história passa-se numa outra operação com o Chaves. O meu pelotão vinha à retaguarda num trilho no meio de uma lavra e também fomos flagelados. Atirados para o chão disse aos soldados que estavam à minha frente para disparar dois ou três tiros para o ponto de origem do flagelamento. A ordem terá sido mal compreendida e dos tiros iniciais passou-se a uma fuzilaria inacreditável, com um completo descontrolo de tiro. Fiquei danado e só com muita berraria se conseguiu parar o tiro e continuar a marcha. Essa operação foi aliás uma das que foi completamente falseada pelo Chaves e por mim, graças a Deus.
Falando do Zé Aragão que infelizmente morreu há poucos anos, não posso deixar de mais uma vez lembrar a sua permanente alegria e boa disposição. Fui amigo dele, não muito íntimo, mas desde a infância, na praia, depois num colégio e depois, sem nunca deixar de o ver completamente, em Estremoz de onde íamos e vínhamos juntos todos os fins-de-semana a Lisboa. Na última semana de Estremoz, tendo ele acabado de ser promovido e passado a ter direito a continência à porta de armas, ainda me rio à gargalhada com o que nós nos rimos quando ele, estando eu já cá fora à espera dele, passando a porta de armas e recebendo a continência me diz logo a seguir: - éh pá, viste? Ganda pinta! E realmente é fantástico como mesmo as pessoas que não são sensíveis a deferências, incham com sinais de importância própria mesmo que a importância não fosse nenhuma como era, manifestamente, o nosso caso.

Se Eu Morresse

Um dia uma amiga online fez-me o seguinte desafio: Escrever um poema com o título, se eu morresse.
Contou-me que numa fase menos boa da sua vida pensou em morrer, e tentou escrever um poema com este título, mas não conseguiu.
Talvez por não ser poetisa, disse-me.
Quando recebi a mensagem o meu primeiro pensamento foi para o tempo da guerra em Angola, penso, que todos nós pensámos alguma vez na morte.
Aqui fica o resultado final desse desafio, em forma de soneto.

Se Eu Morresse

Se eu morresse,o meu amor entre vós
Deixaria.Como roseiras floridas,
Perfumando calmamente vossas vidas...
Fazendo companhia aos que vivem sós.

Ficavam minhas saudades como avós
Cuidando dos netinhos, comovidas,
Limpando lágrimas tão sentidas
Que alguém choraria a plena voz.

Levaria comigo os remorsos
D'amizades terminadas bruscamente
Sem direito a mais uma despedida!

Deixaria nesta terra meus esforços
Da labuta que travei amargamente
Na procura de viver a minha vida!

José Diogo Júnior
A boina à “avião” tinha uma explicação. Quando entrei para a tropa em Mafra, numa noite fria de nevoeiro em que me lembro ainda da sensação de “agora é que estou lixado” fui dos últimos a entrar porque beneficiei de o meu pai, tão preocupado como eu, me ter ido levar à porta de armas. A primeira coisa que se fazia, naquele casarão mais do que lúgubre, era levantar o fardamento. Ora tendo sido dos últimos, não havia já nada para o meu número. Ficou tudo a boiar, coisa que me não ralou absolutamente nada nem aos oficias meus chefes que, evidentemente, eram de Infantaria. O pior foi a mudança para Santarém em que “o aprumo” militar era exigido e aí tive que refazer à minha custa a quase totalidade do fardamento para não dar “com os cornos na cadeia” como era ameaçado. Não vindo a propósito neste blog, não resisto a registar que Mafra foi muito difícil, quase tanto como os primeiros meses da comissão, porque para além de ser tudo desconhecidíssimo eu tinha um pai que desprezava a ginástica, o desporto e qualquer actividade física, coisa em que eu o imitava para além de fumar quase dois maços por dia. Lembro a primeira correria fora de Mafra, de talvez uns dois kilómetros, em que eu fiquei com os bofes completamente de fora, logo à saída do Quartel, sentado debaixo da placa da povoação de nome: – Paz! No final da estadia em Santarém até já gostava de correr e em Estremoz lembro-me de ficar espantadíssimo por ou o Justino ou o Gonçalves me dizerem que era preciso abrandar a correria porque já era demais! Mas Mafra não foi só a canseira foram os “galhos”, o leito do Lisandro percorrido à noite com emboscados a darem-nos murros nas costas, a passar túneis com toda a espécie de porcarias penduradas, rastejar debaixo de fogo e sob o arame farpado, a ameaça do pórtico de que sempre tive medo porque tenho vertigens, tudo isto, e muito mais, em novidade e com a sensação de nunca ser capaz de o fazer e a alegria e o espanto de afinal ser capaz. Em comparação Santarém e Estremoz foram muitíssimo mais suaves, não o sendo certamente, a preparação é que era já outra.