Hoje, falando ao telefone com o Dias, veio-me à memória uma história que se passou com ele mas na frente de todos os oficiais, mais o capelão e o médico. Dá-se o caso que não sei porque carga de água, estando nós em cavaqueira ao almoço, falou-se no “eco” dizendo o Dias que seriam necessários dezassete metros para que o som, batendo num obstáculo, fosse captado no retorno ao ponto da sua origem.
Todos aprendemos da cultura liceal que para haver eco seria necessário pelo menos a distância de dezassete metros para o ouvido captar o retorno do som. Porquê, para se perceber a história, porque o som viaja à velocidade de 340 metros por segundo e o ouvido só distingue sons com 0.1 de segundos de intervalo. Isto é são precisos 0.1*340 metros=34 metros, dezassete para lá e dezassete para cá, para o ouvido ter capacidade de ouvir o retorno, ou eco, de um berro que se dê contra uma parede ou outro obstáculo qualquer. O capitão ripostou que não, que seriam uns metros quaisquer dependendo das circunstâncias. O Dias não se ficou e insistiu que tinha estudado o assunto recentemente. O capitão ficou encarnado e manteve a sua já com os restantes assistentes incomodados com a borrasca que se aproximava. O Dias não teve sensibilidade nenhuma para a humilhação do capitão e insistiu na sua: que não que ele sabia porque tinha estudado e era científico. O capitão perdeu completamente a cabeça e encarnado de fúria e quase a explodir bramou: Hó Dias eu sou capitão, eu tenho três traços em cima do ombro, o eco é como eu digo e estamos conversados.
Na altura pareceu-me uma história inacreditável e altamente significativa. Esquecia que todos tínhamos pouco mais de vinte anos. Mesmo o capitão não tinha trinta, o médico também não chegaria aos trinta e o capelão pouco passaria. Não se tratava de saber ou não uma coisa. Tratava-se de o capitão ter-se deixado encurralar numa opinião insustentável e dele só sairia humilhado o que para ele, como para qualquer um, era um desastre, tanto mais que, como já disse, o capitão tinha todos os defeitos e as virtudes que um voluntarista tem e portanto o eco deveria submeter-se à vontade dele.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
A última operação
Voltando às operações. Por mais pequenas que elas fossem eram sempre uma preocupação. Ao princípio por causa do desconhecido e a probabilidade de morte eminente, depois por causa da enorme incomodidade que elas representavam. A maior parte das operações eram feitas ao nível de pelotão, às vezes dois. Raramente três. O capitão ia em muitas mas, naturalmente, não ia em todas. Ao princípio claro que era melhor ir com o capitão, pelas razões que já escrevi. Depois passou a ser melhor ir sozinho ou com o pelotão do Chaves, o segundo, com quem sempre me entendi muito bem, embora sempre me tenha entendido bem com todos. O Chaves e eu, suponho que os outros também, tínhamos a mesma concepção de guerra: quanto menos índio, menos guerra e portanto não estávamos ali com um zelo danado à procura do IN (inimigo). Foi assim que sempre que foi possível a guerra foi diminuída ao mínimo mas, diga-se a verdade, a enorme maioria das vezes não era possível porque o comando não era parvo e planeava as operações de forma a ser quase impossível não as cumprir. A maneira mais fácil de conseguir este objectivo era entrar na mata num determinado ponto e sair numa outra picada paralela e nunca no mesmo ponto. Assim teríamos sempre que avançar até ao ponto de recolha. Apesar de ser essa a regra, uma ou outra vez assim não foi sendo o local de recolha o mesmo da largada ou muito perto dele. Lembro pelo menos duas ocasiões, mas penso que houve mais. Uma com o Chaves em que reduzimos a operação a um passeio, ficcionando tudo o resto pela rádio e a outra, foi precisamente a última operação que fizemos com uma quantidade enorme de tropas envolvidas, com o brigadeiro da Região Militar a sobrevoar-nos em avião DO e nós instalados na margem de um rio de que não lembro o nome, a pouquíssimos metros da picada, escondidos pela ramagem da floresta durante três noites e quatro dias e transmitindo falsas localizações pelo Racall. Lembro sobretudo o momento de enorme irritação que senti, quando a condição de silêncio era absolutamente indispensável e, apesar disso, ouvir o grito irreprimível de “goolo!” que os soldados emitiram ouvindo o relato do Benfica qualquer coisa no transistór! Na altura pensei que não tínhamos condição de fazer nem mais uma operação porque o à vontade de veterano manifestava-se irresponsavelmente! E a propósito registo que o capitão por vezes desconfiava do nosso zelo militar e então, nas nossas costas, inquiria dos soldados o que se tinha passado. Nunca fomos apanhados, graças a Deus!
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Uma das regras essenciais que se deviam seguir para manter o que se chamava “o moral” das tropas era mantê-las ocupadas. O comandante e o capitão eram grandes adeptos dessa regra, creio que com razão, e por isso, mesmo estando no quartel sem nada para fazer era sempre preciso “inventar” qualquer coisa.
Lembro até que no Niassa, além de fazermos formaturas em espaço mais do que exíguos, fizemos sessões de ginástica rudimentares.
No quartel as “formaturas” para impedir que se ficasse preguiçosamente na cama eram às oito da manhã e às três da tarde. E nessa ocasião era apresentado o programa da manhã ou o da tarde para quem ficava no quartel. O trabalho mais comum foi o de “capinar” à roda do arame farpado para que o capim não servisse de esconderijo a eventuais assaltantes que, se tivessem existido, teriam tido que passar um espaço considerável de campo aberto, antes de atingirem o arame farpado. Outro trabalho foi o das obras. O capitão gostava de obras. Gostava de “melhorar” o aquartelamento. E o que é facto é que teve a arte de conseguir arranjar material para obras consideráveis no Mucondo. Quando de lá saímos deixámos mais duas, que me lembre, casernas. O meu pelotão tinha uma data de especialistas em “obras” e tinha, além disso, vontade de ficar com uma das casernas que foram construídas. Foi assim que “negociei” com o capitão que se as obras fossem feitas em passo de corrida o terceiro pelotão ficaria com a primeira caserna feita. Assim foi mas com um enorme percalço: as obras foram tão rápidas, feitas com tanto entusiasmo, que por duas vezes a parede levantada no dia anterior foi abaixo durante a noite com uma qualquer rabanada de vento. Felizmente o capitão foi razoável e lembro-me de lhe ficar grato, sem lho dizer, claro, por considerar ossos do ofício as paredes irem a baixo e portanto os atrasos daí decorrentes não contaram para a ocupação da caserna nova (e boa)
Relacionado com isto e talvez sem interesse para este blog o facto de o capitão ficar furioso comigo por eu não acompanhar a construção civil. Mas eu entendia que o Justino e o Gonçalves faziam melhor papel do que eu, como aliás em muitas outras coisas, e passava essas tardes ou manhãs a ler deitado na minha cama, interrompendo a leitura de vez em quando para averiguar se estava tudo bem, coisa que naturalmente estaria.
Lembro até que no Niassa, além de fazermos formaturas em espaço mais do que exíguos, fizemos sessões de ginástica rudimentares.
No quartel as “formaturas” para impedir que se ficasse preguiçosamente na cama eram às oito da manhã e às três da tarde. E nessa ocasião era apresentado o programa da manhã ou o da tarde para quem ficava no quartel. O trabalho mais comum foi o de “capinar” à roda do arame farpado para que o capim não servisse de esconderijo a eventuais assaltantes que, se tivessem existido, teriam tido que passar um espaço considerável de campo aberto, antes de atingirem o arame farpado. Outro trabalho foi o das obras. O capitão gostava de obras. Gostava de “melhorar” o aquartelamento. E o que é facto é que teve a arte de conseguir arranjar material para obras consideráveis no Mucondo. Quando de lá saímos deixámos mais duas, que me lembre, casernas. O meu pelotão tinha uma data de especialistas em “obras” e tinha, além disso, vontade de ficar com uma das casernas que foram construídas. Foi assim que “negociei” com o capitão que se as obras fossem feitas em passo de corrida o terceiro pelotão ficaria com a primeira caserna feita. Assim foi mas com um enorme percalço: as obras foram tão rápidas, feitas com tanto entusiasmo, que por duas vezes a parede levantada no dia anterior foi abaixo durante a noite com uma qualquer rabanada de vento. Felizmente o capitão foi razoável e lembro-me de lhe ficar grato, sem lho dizer, claro, por considerar ossos do ofício as paredes irem a baixo e portanto os atrasos daí decorrentes não contaram para a ocupação da caserna nova (e boa)
Relacionado com isto e talvez sem interesse para este blog o facto de o capitão ficar furioso comigo por eu não acompanhar a construção civil. Mas eu entendia que o Justino e o Gonçalves faziam melhor papel do que eu, como aliás em muitas outras coisas, e passava essas tardes ou manhãs a ler deitado na minha cama, interrompendo a leitura de vez em quando para averiguar se estava tudo bem, coisa que naturalmente estaria.
Atirador, Padeiro ou Poeta? II
O Carlos Dias, (ex Alferes Dias), deixou aqui uma pergunta curiosa: atirador, padeiro ou poeta?
O atirador passou a padeiro e apenas participou em três operações.
O padeiro acabou como operário da industria de pneus, durante mais de trinta e sete anos.
O poeta, bem o poeta é como alguém já me disse, não sou poeta, sou quanto muito um poeta popular. Eu acrescento, se o conseguir ser,ficarei muito agradecido a Deus, pois isto de ser poeta, (mesmo popular),não é obra de humanos.
Ora vejamos o que diz o poeta:
Ser poeta é ser maior
Nas graças que Deus lhe deu
Só é poeta quem o for
Desde o dia em que nasceu
Ou ainda
Deus o poeta socorre
Pois a arte que lhe der
Nasce com ele e só morre
Quando o poeta morrer
José Diogo Júnior
O atirador passou a padeiro e apenas participou em três operações.
O padeiro acabou como operário da industria de pneus, durante mais de trinta e sete anos.
O poeta, bem o poeta é como alguém já me disse, não sou poeta, sou quanto muito um poeta popular. Eu acrescento, se o conseguir ser,ficarei muito agradecido a Deus, pois isto de ser poeta, (mesmo popular),não é obra de humanos.
Ora vejamos o que diz o poeta:
Ser poeta é ser maior
Nas graças que Deus lhe deu
Só é poeta quem o for
Desde o dia em que nasceu
Ou ainda
Deus o poeta socorre
Pois a arte que lhe der
Nasce com ele e só morre
Quando o poeta morrer
José Diogo Júnior
domingo, 24 de outubro de 2010
Atirador, Padeiro ou Poeta?
Passados mais de 30 anos fui surpreendido por uma faceta que eu completamente tinha desconhecido. Um dia soube até que ele ia lançar um livro de poesia. Sei que há muitos anos moureja pela estranja, mas aproveitei para o visitar na sua toca de nascimento, por altura das férias. Uma bela aldeia, Erra de nome, situada na zona de Coruche.
Efectivamente o livro de poesia foi apresentado com pompa e circunstância, e muitos foram os seus amigos e admiradores que compareceram ao evento.
Aí fica a fotografia do poeta, por mim ignorado. Como eu gostei de ter ido à tua terra e de ter estado contigo, e com a tua amorosa Júlia, naquela memorável tarde de verão. Obrigado Júnior!
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Hoje, neste post, vou fazer uma “confissão”. Os primeiros meses da comissão, como penso já dei a entender, foram muito duros psicologicamente para mim e creio que para a generalidade do pessoal. A minha confissão é esta: tive, felizmente uma infância e adolescência feliz, sem grandes conflitos e com um pai e mãe muito queridos por nós, todos os irmãos. Nestas condições, creio, ser difícil para qualquer um separarmo-nos dessa vida feliz e, confesse-se, despreocupada. Quem representou nessa conjuntura de enorme infelecidade pessoal do princípio de comissão um papel de amigo, de conselheiro e de tábua de salvação num ambiente que eu considerava mais do que hostil, absolutamente adverso? O alferes capelão padre Carneiro a quem peço a absolvição por no outro post lhe ter dado o nome de Cordeiro. Não foi de propósito mas, não fora o Dias chamar-me a atenção provavelmente o erro continuaria sem eu ter oportunidade de pedir esta absolvição a este amigo a quem estou muito grato pelo papel que teve durante toda a comissão. E mesmo agora lembrei-me da procissão que ele organizou a Nossa Senhora de Fátima, em treze de Maio, à roda do arame do quartel. Um abraço para ele se porventura ler este blog.
Louco Amor
Que a guerra nos roubou, a todos, dois anos da nossa juventude, toda a gente sabe. Que fez milhares de mortos, mutilados e outras formas de invalidez, também.
Mas, talvez, nem todos saibam que muitas vidas foram silenciosamente destroçadas e que camaradas de armas sofreram em silêncio o "mal de amor", que é o sentirem-se trocados, substituídos por outros enquanto cumpriam o seu dever.
O poema que vos deixo hoje, tenta retratar um soldado que na primeira carta que recebeu do pai, este lhe comunicava que a mulher tinha fugido com outro para o Algarve.
Desabafou dizendo: Mas que posso eu fazer?... É a mulher que eu amo, é a mulher com quem casei, é a mãe do meu filho!... E o pior é que continuo a gostar dela!...
Que posso eu fazer, meu Deus?
Também nunca encontrei a solução para o problema dele, mas nunca consegui esquecer e passei para este poema, Louco Amor, o que me pareceu ser, de facto, um louco amor.
Não sei se consegui.
Resta dizer que este poema também foi traduzido para castelhano e editado pelo Centro de Estudios Poeticos de Madrid, na antologia Eclipse de Luna.
Louco Amor
Por quem me perdi d'amores
Não vive mais em meu peito
Deixou meu coração desfeito
A sofrer terríveis dores.
Mas vejam bem, meus senhores
A grande fatalidade
Para dizer a verdade
É que queira eu ou não
Sinto no meu coração
Uma enorme saudade.
De tudo o que não vivi
De um amor que acabou
E de tudo o que ficou
Para lá de mim e de ti.
Das mágoas que eu senti
Dos beijos que nunca dei
Da má vida que passei
D'amores jamais vividos
Que por ter cinco sentidos
Nunca mais esquecerei.
José Diogo Júnior
Mas, talvez, nem todos saibam que muitas vidas foram silenciosamente destroçadas e que camaradas de armas sofreram em silêncio o "mal de amor", que é o sentirem-se trocados, substituídos por outros enquanto cumpriam o seu dever.
O poema que vos deixo hoje, tenta retratar um soldado que na primeira carta que recebeu do pai, este lhe comunicava que a mulher tinha fugido com outro para o Algarve.
Desabafou dizendo: Mas que posso eu fazer?... É a mulher que eu amo, é a mulher com quem casei, é a mãe do meu filho!... E o pior é que continuo a gostar dela!...
Que posso eu fazer, meu Deus?
Também nunca encontrei a solução para o problema dele, mas nunca consegui esquecer e passei para este poema, Louco Amor, o que me pareceu ser, de facto, um louco amor.
Não sei se consegui.
Resta dizer que este poema também foi traduzido para castelhano e editado pelo Centro de Estudios Poeticos de Madrid, na antologia Eclipse de Luna.
Louco Amor
Por quem me perdi d'amores
Não vive mais em meu peito
Deixou meu coração desfeito
A sofrer terríveis dores.
Mas vejam bem, meus senhores
A grande fatalidade
Para dizer a verdade
É que queira eu ou não
Sinto no meu coração
Uma enorme saudade.
De tudo o que não vivi
De um amor que acabou
E de tudo o que ficou
Para lá de mim e de ti.
Das mágoas que eu senti
Dos beijos que nunca dei
Da má vida que passei
D'amores jamais vividos
Que por ter cinco sentidos
Nunca mais esquecerei.
José Diogo Júnior
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