Uma das regras essenciais que se deviam seguir para manter o que se chamava “o moral” das tropas era mantê-las ocupadas. O comandante e o capitão eram grandes adeptos dessa regra, creio que com razão, e por isso, mesmo estando no quartel sem nada para fazer era sempre preciso “inventar” qualquer coisa.
Lembro até que no Niassa, além de fazermos formaturas em espaço mais do que exíguos, fizemos sessões de ginástica rudimentares.
No quartel as “formaturas” para impedir que se ficasse preguiçosamente na cama eram às oito da manhã e às três da tarde. E nessa ocasião era apresentado o programa da manhã ou o da tarde para quem ficava no quartel. O trabalho mais comum foi o de “capinar” à roda do arame farpado para que o capim não servisse de esconderijo a eventuais assaltantes que, se tivessem existido, teriam tido que passar um espaço considerável de campo aberto, antes de atingirem o arame farpado. Outro trabalho foi o das obras. O capitão gostava de obras. Gostava de “melhorar” o aquartelamento. E o que é facto é que teve a arte de conseguir arranjar material para obras consideráveis no Mucondo. Quando de lá saímos deixámos mais duas, que me lembre, casernas. O meu pelotão tinha uma data de especialistas em “obras” e tinha, além disso, vontade de ficar com uma das casernas que foram construídas. Foi assim que “negociei” com o capitão que se as obras fossem feitas em passo de corrida o terceiro pelotão ficaria com a primeira caserna feita. Assim foi mas com um enorme percalço: as obras foram tão rápidas, feitas com tanto entusiasmo, que por duas vezes a parede levantada no dia anterior foi abaixo durante a noite com uma qualquer rabanada de vento. Felizmente o capitão foi razoável e lembro-me de lhe ficar grato, sem lho dizer, claro, por considerar ossos do ofício as paredes irem a baixo e portanto os atrasos daí decorrentes não contaram para a ocupação da caserna nova (e boa)
Relacionado com isto e talvez sem interesse para este blog o facto de o capitão ficar furioso comigo por eu não acompanhar a construção civil. Mas eu entendia que o Justino e o Gonçalves faziam melhor papel do que eu, como aliás em muitas outras coisas, e passava essas tardes ou manhãs a ler deitado na minha cama, interrompendo a leitura de vez em quando para averiguar se estava tudo bem, coisa que naturalmente estaria.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Atirador, Padeiro ou Poeta? II
O Carlos Dias, (ex Alferes Dias), deixou aqui uma pergunta curiosa: atirador, padeiro ou poeta?
O atirador passou a padeiro e apenas participou em três operações.
O padeiro acabou como operário da industria de pneus, durante mais de trinta e sete anos.
O poeta, bem o poeta é como alguém já me disse, não sou poeta, sou quanto muito um poeta popular. Eu acrescento, se o conseguir ser,ficarei muito agradecido a Deus, pois isto de ser poeta, (mesmo popular),não é obra de humanos.
Ora vejamos o que diz o poeta:
Ser poeta é ser maior
Nas graças que Deus lhe deu
Só é poeta quem o for
Desde o dia em que nasceu
Ou ainda
Deus o poeta socorre
Pois a arte que lhe der
Nasce com ele e só morre
Quando o poeta morrer
José Diogo Júnior
O atirador passou a padeiro e apenas participou em três operações.
O padeiro acabou como operário da industria de pneus, durante mais de trinta e sete anos.
O poeta, bem o poeta é como alguém já me disse, não sou poeta, sou quanto muito um poeta popular. Eu acrescento, se o conseguir ser,ficarei muito agradecido a Deus, pois isto de ser poeta, (mesmo popular),não é obra de humanos.
Ora vejamos o que diz o poeta:
Ser poeta é ser maior
Nas graças que Deus lhe deu
Só é poeta quem o for
Desde o dia em que nasceu
Ou ainda
Deus o poeta socorre
Pois a arte que lhe der
Nasce com ele e só morre
Quando o poeta morrer
José Diogo Júnior
domingo, 24 de outubro de 2010
Atirador, Padeiro ou Poeta?
Passados mais de 30 anos fui surpreendido por uma faceta que eu completamente tinha desconhecido. Um dia soube até que ele ia lançar um livro de poesia. Sei que há muitos anos moureja pela estranja, mas aproveitei para o visitar na sua toca de nascimento, por altura das férias. Uma bela aldeia, Erra de nome, situada na zona de Coruche.
Efectivamente o livro de poesia foi apresentado com pompa e circunstância, e muitos foram os seus amigos e admiradores que compareceram ao evento.
Aí fica a fotografia do poeta, por mim ignorado. Como eu gostei de ter ido à tua terra e de ter estado contigo, e com a tua amorosa Júlia, naquela memorável tarde de verão. Obrigado Júnior!
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Hoje, neste post, vou fazer uma “confissão”. Os primeiros meses da comissão, como penso já dei a entender, foram muito duros psicologicamente para mim e creio que para a generalidade do pessoal. A minha confissão é esta: tive, felizmente uma infância e adolescência feliz, sem grandes conflitos e com um pai e mãe muito queridos por nós, todos os irmãos. Nestas condições, creio, ser difícil para qualquer um separarmo-nos dessa vida feliz e, confesse-se, despreocupada. Quem representou nessa conjuntura de enorme infelecidade pessoal do princípio de comissão um papel de amigo, de conselheiro e de tábua de salvação num ambiente que eu considerava mais do que hostil, absolutamente adverso? O alferes capelão padre Carneiro a quem peço a absolvição por no outro post lhe ter dado o nome de Cordeiro. Não foi de propósito mas, não fora o Dias chamar-me a atenção provavelmente o erro continuaria sem eu ter oportunidade de pedir esta absolvição a este amigo a quem estou muito grato pelo papel que teve durante toda a comissão. E mesmo agora lembrei-me da procissão que ele organizou a Nossa Senhora de Fátima, em treze de Maio, à roda do arame do quartel. Um abraço para ele se porventura ler este blog.
Louco Amor
Que a guerra nos roubou, a todos, dois anos da nossa juventude, toda a gente sabe. Que fez milhares de mortos, mutilados e outras formas de invalidez, também.
Mas, talvez, nem todos saibam que muitas vidas foram silenciosamente destroçadas e que camaradas de armas sofreram em silêncio o "mal de amor", que é o sentirem-se trocados, substituídos por outros enquanto cumpriam o seu dever.
O poema que vos deixo hoje, tenta retratar um soldado que na primeira carta que recebeu do pai, este lhe comunicava que a mulher tinha fugido com outro para o Algarve.
Desabafou dizendo: Mas que posso eu fazer?... É a mulher que eu amo, é a mulher com quem casei, é a mãe do meu filho!... E o pior é que continuo a gostar dela!...
Que posso eu fazer, meu Deus?
Também nunca encontrei a solução para o problema dele, mas nunca consegui esquecer e passei para este poema, Louco Amor, o que me pareceu ser, de facto, um louco amor.
Não sei se consegui.
Resta dizer que este poema também foi traduzido para castelhano e editado pelo Centro de Estudios Poeticos de Madrid, na antologia Eclipse de Luna.
Louco Amor
Por quem me perdi d'amores
Não vive mais em meu peito
Deixou meu coração desfeito
A sofrer terríveis dores.
Mas vejam bem, meus senhores
A grande fatalidade
Para dizer a verdade
É que queira eu ou não
Sinto no meu coração
Uma enorme saudade.
De tudo o que não vivi
De um amor que acabou
E de tudo o que ficou
Para lá de mim e de ti.
Das mágoas que eu senti
Dos beijos que nunca dei
Da má vida que passei
D'amores jamais vividos
Que por ter cinco sentidos
Nunca mais esquecerei.
José Diogo Júnior
Mas, talvez, nem todos saibam que muitas vidas foram silenciosamente destroçadas e que camaradas de armas sofreram em silêncio o "mal de amor", que é o sentirem-se trocados, substituídos por outros enquanto cumpriam o seu dever.
O poema que vos deixo hoje, tenta retratar um soldado que na primeira carta que recebeu do pai, este lhe comunicava que a mulher tinha fugido com outro para o Algarve.
Desabafou dizendo: Mas que posso eu fazer?... É a mulher que eu amo, é a mulher com quem casei, é a mãe do meu filho!... E o pior é que continuo a gostar dela!...
Que posso eu fazer, meu Deus?
Também nunca encontrei a solução para o problema dele, mas nunca consegui esquecer e passei para este poema, Louco Amor, o que me pareceu ser, de facto, um louco amor.
Não sei se consegui.
Resta dizer que este poema também foi traduzido para castelhano e editado pelo Centro de Estudios Poeticos de Madrid, na antologia Eclipse de Luna.
Louco Amor
Por quem me perdi d'amores
Não vive mais em meu peito
Deixou meu coração desfeito
A sofrer terríveis dores.
Mas vejam bem, meus senhores
A grande fatalidade
Para dizer a verdade
É que queira eu ou não
Sinto no meu coração
Uma enorme saudade.
De tudo o que não vivi
De um amor que acabou
E de tudo o que ficou
Para lá de mim e de ti.
Das mágoas que eu senti
Dos beijos que nunca dei
Da má vida que passei
D'amores jamais vividos
Que por ter cinco sentidos
Nunca mais esquecerei.
José Diogo Júnior
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
O caso do "Levantamento de Rancho"
Aproveito para cumprimentar todo o pessoal nesta minha 1ª colaboração,no sentido de recordar o que se foi passando entre nós e no seguimento da sugestão do Dias em 13 de Setº.Pois,então,aí vai,contada,tim por tim, a história do famigerado "levantamento de rancho".Convém recordar que se passou nos 1ºs dias da nossa estadia no Mucondo, já sózinhos. Na dita "passagem de testemunho os da outra Compª." fizeram tudo para protelar até ao ultimo segundo. No caso dos "víveres" pela 1 hora de manhã do dia seguinte ainda se estava a pesar o feijão(letra f da relação de artigos iniciada na letra a) que estava dentro de barricas de madeira, por causa da humidade.Escusado será dizer que o feijão tinha sido, por eles, cuidadosamente escolhido, de modo a ter sido colocado no fundo o que tinha "bicho". Informo também que esta maratona terminou pelas 4 da manhã.Como na relação dos artgºs em armazém constava dobradinha desidratada, perante a minha qualidade de "maçarico" e querendo ser cumpridor das normas que tinha aprendido no meu curso, que diziam ter de se dar uma ementa de dobrada uma vez por semana, com boa fé, assim o fiz.
Como estavamos em fase de assentar arraiais,naquele dia ocupei as 1ªs horas para arrumar e começar a organizar a minha papelada, pelo que pelas 11 h da manhã fui à cozinha saber como tudo estava a decorrer.Eis senão quando o nosso cabo cozinheiro me informa que também estavam a orgaizar as suas coisas e só pouco tempo antes tinham dado conta de que o feijão,que estava de molho, tinha bichos.Naquele momento alguém terá ouvido a nossa conversa, pelo que, de imediato, a notícia propagou-se, de tal maneira, que à hora da refeição,já toda a gente no quartel, sabia do que se passava. Dada a gravidade da notícia, tomei, de imediato,a iniciativa de dar conhecimento ao nosso Comt.Compª., que também estava no seu gabinete a instalar-se.Confesso que ia à espera de ouvir os "Sinos de Mafra"mas,na realidade, disse-me: - Olhe Amaral, se voçê só tiver sido enganado no feijão temos que nos dar por satisfeitos. De imediato quis saber qual era a ementa para o jantar, pelo me instruiu no sentido de reforcá-la como compensação da fraca qualidade do almoço.O que se passou no decorrer do almoço, toda a gente, de certeza, se recorda como se fosse hoje.O Oficial Dia era o Guia, tendo sido solicitada a comparência do nosso Capitão, que ao chegar ao refeitório deu a explicação que achou por conveniente, tendo solicitado ao pessoal de serviço que lhe desse um prato e o servisse, pelo que, comeu toda a dobrada, dizendo de seguida: "Se eu comi qualquer ........também pode comer". Boa parte do pessoal comeu.Nota: vim a saber que os individuos da outra Compª, não foi só nos víveres que nos aldrabaram, informação essa, que todos estes anos depois, por acaso, no último almoço, ouvi confirmado pelo nosso Taxa Araújo.Penso ter contado o que considerei relevante. Um grande abraço do Amaral, Vagomestre.
Como estavamos em fase de assentar arraiais,naquele dia ocupei as 1ªs horas para arrumar e começar a organizar a minha papelada, pelo que pelas 11 h da manhã fui à cozinha saber como tudo estava a decorrer.Eis senão quando o nosso cabo cozinheiro me informa que também estavam a orgaizar as suas coisas e só pouco tempo antes tinham dado conta de que o feijão,que estava de molho, tinha bichos.Naquele momento alguém terá ouvido a nossa conversa, pelo que, de imediato, a notícia propagou-se, de tal maneira, que à hora da refeição,já toda a gente no quartel, sabia do que se passava. Dada a gravidade da notícia, tomei, de imediato,a iniciativa de dar conhecimento ao nosso Comt.Compª., que também estava no seu gabinete a instalar-se.Confesso que ia à espera de ouvir os "Sinos de Mafra"mas,na realidade, disse-me: - Olhe Amaral, se voçê só tiver sido enganado no feijão temos que nos dar por satisfeitos. De imediato quis saber qual era a ementa para o jantar, pelo me instruiu no sentido de reforcá-la como compensação da fraca qualidade do almoço.O que se passou no decorrer do almoço, toda a gente, de certeza, se recorda como se fosse hoje.O Oficial Dia era o Guia, tendo sido solicitada a comparência do nosso Capitão, que ao chegar ao refeitório deu a explicação que achou por conveniente, tendo solicitado ao pessoal de serviço que lhe desse um prato e o servisse, pelo que, comeu toda a dobrada, dizendo de seguida: "Se eu comi qualquer ........também pode comer". Boa parte do pessoal comeu.Nota: vim a saber que os individuos da outra Compª, não foi só nos víveres que nos aldrabaram, informação essa, que todos estes anos depois, por acaso, no último almoço, ouvi confirmado pelo nosso Taxa Araújo.Penso ter contado o que considerei relevante. Um grande abraço do Amaral, Vagomestre.
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