sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Hoje, neste post, vou fazer uma “confissão”. Os primeiros meses da comissão, como penso já dei a entender, foram muito duros psicologicamente para mim e creio que para a generalidade do pessoal. A minha confissão é esta: tive, felizmente uma infância e adolescência feliz, sem grandes conflitos e com um pai e mãe muito queridos por nós, todos os irmãos. Nestas condições, creio, ser difícil para qualquer um separarmo-nos dessa vida feliz e, confesse-se, despreocupada. Quem representou nessa conjuntura de enorme infelecidade pessoal do princípio de comissão um papel de amigo, de conselheiro e de tábua de salvação num ambiente que eu considerava mais do que hostil, absolutamente adverso? O alferes capelão padre Carneiro a quem peço a absolvição por no outro post lhe ter dado o nome de Cordeiro. Não foi de propósito mas, não fora o Dias chamar-me a atenção provavelmente o erro continuaria sem eu ter oportunidade de pedir esta absolvição a este amigo a quem estou muito grato pelo papel que teve durante toda a comissão. E mesmo agora lembrei-me da procissão que ele organizou a Nossa Senhora de Fátima, em treze de Maio, à roda do arame do quartel. Um abraço para ele se porventura ler este blog.
Louco Amor
Que a guerra nos roubou, a todos, dois anos da nossa juventude, toda a gente sabe. Que fez milhares de mortos, mutilados e outras formas de invalidez, também.
Mas, talvez, nem todos saibam que muitas vidas foram silenciosamente destroçadas e que camaradas de armas sofreram em silêncio o "mal de amor", que é o sentirem-se trocados, substituídos por outros enquanto cumpriam o seu dever.
O poema que vos deixo hoje, tenta retratar um soldado que na primeira carta que recebeu do pai, este lhe comunicava que a mulher tinha fugido com outro para o Algarve.
Desabafou dizendo: Mas que posso eu fazer?... É a mulher que eu amo, é a mulher com quem casei, é a mãe do meu filho!... E o pior é que continuo a gostar dela!...
Que posso eu fazer, meu Deus?
Também nunca encontrei a solução para o problema dele, mas nunca consegui esquecer e passei para este poema, Louco Amor, o que me pareceu ser, de facto, um louco amor.
Não sei se consegui.
Resta dizer que este poema também foi traduzido para castelhano e editado pelo Centro de Estudios Poeticos de Madrid, na antologia Eclipse de Luna.
Louco Amor
Por quem me perdi d'amores
Não vive mais em meu peito
Deixou meu coração desfeito
A sofrer terríveis dores.
Mas vejam bem, meus senhores
A grande fatalidade
Para dizer a verdade
É que queira eu ou não
Sinto no meu coração
Uma enorme saudade.
De tudo o que não vivi
De um amor que acabou
E de tudo o que ficou
Para lá de mim e de ti.
Das mágoas que eu senti
Dos beijos que nunca dei
Da má vida que passei
D'amores jamais vividos
Que por ter cinco sentidos
Nunca mais esquecerei.
José Diogo Júnior
Mas, talvez, nem todos saibam que muitas vidas foram silenciosamente destroçadas e que camaradas de armas sofreram em silêncio o "mal de amor", que é o sentirem-se trocados, substituídos por outros enquanto cumpriam o seu dever.
O poema que vos deixo hoje, tenta retratar um soldado que na primeira carta que recebeu do pai, este lhe comunicava que a mulher tinha fugido com outro para o Algarve.
Desabafou dizendo: Mas que posso eu fazer?... É a mulher que eu amo, é a mulher com quem casei, é a mãe do meu filho!... E o pior é que continuo a gostar dela!...
Que posso eu fazer, meu Deus?
Também nunca encontrei a solução para o problema dele, mas nunca consegui esquecer e passei para este poema, Louco Amor, o que me pareceu ser, de facto, um louco amor.
Não sei se consegui.
Resta dizer que este poema também foi traduzido para castelhano e editado pelo Centro de Estudios Poeticos de Madrid, na antologia Eclipse de Luna.
Louco Amor
Por quem me perdi d'amores
Não vive mais em meu peito
Deixou meu coração desfeito
A sofrer terríveis dores.
Mas vejam bem, meus senhores
A grande fatalidade
Para dizer a verdade
É que queira eu ou não
Sinto no meu coração
Uma enorme saudade.
De tudo o que não vivi
De um amor que acabou
E de tudo o que ficou
Para lá de mim e de ti.
Das mágoas que eu senti
Dos beijos que nunca dei
Da má vida que passei
D'amores jamais vividos
Que por ter cinco sentidos
Nunca mais esquecerei.
José Diogo Júnior
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
O caso do "Levantamento de Rancho"
Aproveito para cumprimentar todo o pessoal nesta minha 1ª colaboração,no sentido de recordar o que se foi passando entre nós e no seguimento da sugestão do Dias em 13 de Setº.Pois,então,aí vai,contada,tim por tim, a história do famigerado "levantamento de rancho".Convém recordar que se passou nos 1ºs dias da nossa estadia no Mucondo, já sózinhos. Na dita "passagem de testemunho os da outra Compª." fizeram tudo para protelar até ao ultimo segundo. No caso dos "víveres" pela 1 hora de manhã do dia seguinte ainda se estava a pesar o feijão(letra f da relação de artigos iniciada na letra a) que estava dentro de barricas de madeira, por causa da humidade.Escusado será dizer que o feijão tinha sido, por eles, cuidadosamente escolhido, de modo a ter sido colocado no fundo o que tinha "bicho". Informo também que esta maratona terminou pelas 4 da manhã.Como na relação dos artgºs em armazém constava dobradinha desidratada, perante a minha qualidade de "maçarico" e querendo ser cumpridor das normas que tinha aprendido no meu curso, que diziam ter de se dar uma ementa de dobrada uma vez por semana, com boa fé, assim o fiz.
Como estavamos em fase de assentar arraiais,naquele dia ocupei as 1ªs horas para arrumar e começar a organizar a minha papelada, pelo que pelas 11 h da manhã fui à cozinha saber como tudo estava a decorrer.Eis senão quando o nosso cabo cozinheiro me informa que também estavam a orgaizar as suas coisas e só pouco tempo antes tinham dado conta de que o feijão,que estava de molho, tinha bichos.Naquele momento alguém terá ouvido a nossa conversa, pelo que, de imediato, a notícia propagou-se, de tal maneira, que à hora da refeição,já toda a gente no quartel, sabia do que se passava. Dada a gravidade da notícia, tomei, de imediato,a iniciativa de dar conhecimento ao nosso Comt.Compª., que também estava no seu gabinete a instalar-se.Confesso que ia à espera de ouvir os "Sinos de Mafra"mas,na realidade, disse-me: - Olhe Amaral, se voçê só tiver sido enganado no feijão temos que nos dar por satisfeitos. De imediato quis saber qual era a ementa para o jantar, pelo me instruiu no sentido de reforcá-la como compensação da fraca qualidade do almoço.O que se passou no decorrer do almoço, toda a gente, de certeza, se recorda como se fosse hoje.O Oficial Dia era o Guia, tendo sido solicitada a comparência do nosso Capitão, que ao chegar ao refeitório deu a explicação que achou por conveniente, tendo solicitado ao pessoal de serviço que lhe desse um prato e o servisse, pelo que, comeu toda a dobrada, dizendo de seguida: "Se eu comi qualquer ........também pode comer". Boa parte do pessoal comeu.Nota: vim a saber que os individuos da outra Compª, não foi só nos víveres que nos aldrabaram, informação essa, que todos estes anos depois, por acaso, no último almoço, ouvi confirmado pelo nosso Taxa Araújo.Penso ter contado o que considerei relevante. Um grande abraço do Amaral, Vagomestre.
Como estavamos em fase de assentar arraiais,naquele dia ocupei as 1ªs horas para arrumar e começar a organizar a minha papelada, pelo que pelas 11 h da manhã fui à cozinha saber como tudo estava a decorrer.Eis senão quando o nosso cabo cozinheiro me informa que também estavam a orgaizar as suas coisas e só pouco tempo antes tinham dado conta de que o feijão,que estava de molho, tinha bichos.Naquele momento alguém terá ouvido a nossa conversa, pelo que, de imediato, a notícia propagou-se, de tal maneira, que à hora da refeição,já toda a gente no quartel, sabia do que se passava. Dada a gravidade da notícia, tomei, de imediato,a iniciativa de dar conhecimento ao nosso Comt.Compª., que também estava no seu gabinete a instalar-se.Confesso que ia à espera de ouvir os "Sinos de Mafra"mas,na realidade, disse-me: - Olhe Amaral, se voçê só tiver sido enganado no feijão temos que nos dar por satisfeitos. De imediato quis saber qual era a ementa para o jantar, pelo me instruiu no sentido de reforcá-la como compensação da fraca qualidade do almoço.O que se passou no decorrer do almoço, toda a gente, de certeza, se recorda como se fosse hoje.O Oficial Dia era o Guia, tendo sido solicitada a comparência do nosso Capitão, que ao chegar ao refeitório deu a explicação que achou por conveniente, tendo solicitado ao pessoal de serviço que lhe desse um prato e o servisse, pelo que, comeu toda a dobrada, dizendo de seguida: "Se eu comi qualquer ........também pode comer". Boa parte do pessoal comeu.Nota: vim a saber que os individuos da outra Compª, não foi só nos víveres que nos aldrabaram, informação essa, que todos estes anos depois, por acaso, no último almoço, ouvi confirmado pelo nosso Taxa Araújo.Penso ter contado o que considerei relevante. Um grande abraço do Amaral, Vagomestre.
Ainda tenho umas histórias para contar mas agora mesmo, percorrendo o papel onde assentei os tópicos das que me vieram imediatamente à memória quando dei conta deste blog, lembrei-me de uma que é tão inverosímil que quase me custa a acreditar, eu que fui seu protagonista e “vejo” na minha frente o trilho onde a historieta se passou. Passou-se quando já éramos veteranos encartados em que a mata já só representava incómodo, cansaço e noites difíceis de passar. O medo do início estava já muito esbatido. Nós éramos os reis da selva quando andávamos em sítios já por nós conhecidos. Foi o caso de uma operação qualquer, seguindo um trilho bastante bom (ser bastante bom era não ter de o abrir à catanada) em fila indiana, com boa passada e mais ou menos em silêncio. Ia no meu lugar habitual (entre o sete e o nove) e a certa altura vejo que estavam a passar uma palavra da frente para trás. Quando chegou a minha vez o soldado que seguia à minha frente e de que não lembro o nome diz-me imperturbável: - cobra à direita! E eu, virando-me para trás passei, imperturbavelmente palavra: - cobra à direita! E depois, displicentemente, como todos os que iam na operação fizeram, olhei à direita e vi, toda enrolada, uma enorme cobra mesmo à beira do trilho. Ainda hoje me espanto porque estou seguro que todos sabiam sobre cobras o mesmo que eu: que com facilidade engoliam massas vivas enormes. Seria daquela espécie a cobra que achei tanta graça conhecer na mata? Não faço a mínima ideia!
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Ontem ainda fui à memória do computador buscar uma fotografias que documentam a operação de comemoração do ano da nossa comissão para as passar para aqui mas, infelizmente, são pesadas demais e não entraram (por agora).
Esta operação teve um aparato enorme porque foi feita a nível de batalhão e consistiu essencialmente numa deslocação das companhias do batalhão para um ponto convergente situado num alto de um morro. A esse morro deveria ir ter connosco o brigadeiro da Região Militar, coisa que não sucedeu e por isso fomos mais ou menos todos nós, pertencentes ao batalhão, que participámos nas cerimónias: Uma missa campal que o nosso capelão P. Cordeiro celebrou e uma almoçarada com rancho muito melhorado. Deste almoço guardo na memória, e nas fotografias, a figura do impedido do comandante, de luva e casaco branco, a servir à mesa onde os oficiais e os furriéis se banquetearam: de um lado o comandante, o major Baptista, o capitão Taxa. Do outro, eu o Justino o Gonçalves, o Sá, o Sotto e mais uns. Creio que este acontecimento terá sido certamente original: obrigar o nosso bom capelão a ir rezar nos confins da selva, no alto de um morro!
Esta operação teve um aparato enorme porque foi feita a nível de batalhão e consistiu essencialmente numa deslocação das companhias do batalhão para um ponto convergente situado num alto de um morro. A esse morro deveria ir ter connosco o brigadeiro da Região Militar, coisa que não sucedeu e por isso fomos mais ou menos todos nós, pertencentes ao batalhão, que participámos nas cerimónias: Uma missa campal que o nosso capelão P. Cordeiro celebrou e uma almoçarada com rancho muito melhorado. Deste almoço guardo na memória, e nas fotografias, a figura do impedido do comandante, de luva e casaco branco, a servir à mesa onde os oficiais e os furriéis se banquetearam: de um lado o comandante, o major Baptista, o capitão Taxa. Do outro, eu o Justino o Gonçalves, o Sá, o Sotto e mais uns. Creio que este acontecimento terá sido certamente original: obrigar o nosso bom capelão a ir rezar nos confins da selva, no alto de um morro!
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Como já escrevi aqui “o nosso comandante”, na altura tenente-coronel, era um herói, considerado um militar competentíssimo e uma “fera”. No meu ponto de vista não era uma fera e sim uma pessoa muito justa, com grande dignidade e com um grande sentido do dever. Por isso, nunca, creio, tive “medo” dele porque sempre o julguei altamente previsível e incapaz de uma patifaria sobre alguém apenas por gozo pessoal. Era porém um “militarão” e isso significava exigência, disciplina, cumprimento do dever mínimo coisa que ele fazia questão de frisar quando, num intervalo de um jogo de gamão que perdi, desenvolveu a teoria, referindo-se ao general Spínola, que o que ele fazia na guerra não era nada de especial porque só aceitava como oficiais os que tinham estofo de herói despachando todos os outros com castigos infamantes. O difícil dizia, era comandar com êxito tropas da cangalhota. Sempre gostei dele embora eu estivesse quase nas antípodas do “militarão”. E só não estava nas antípodas porque tinha a ideia da indispensabilidade de disciplina que procurei manter até ao último momento, estando a minha tarefa muito facilitada pelo ambiente do batalhão. Toda esta introdução para contar um episódio do meu pelotão com o comandante. Além das operações de companhia ainda participávamos em operações de batalhão. Foram várias mas lembro duas em especial: a da comemoração do ano de estadia no Mucondo, que contarei amanhã o que me lembro dela, e a operação em que o comandante se integrou no meu pelotão. Não lembro nem o nome nem as razões da operação. O que lembro é que no último minuto o comandante que assistia ao início da progressão da tropa pela mata fora, integrou-se, ele e a equipa dele, uns cinco ou seis soldados à minha frente de modo que, durante todo o tempo, o tive debaixo de olho. A certa altura, depois de horas de caminhada, quando passávamos junto a uma orla de floresta estando nós do lado de uma “lavra” (portanto mais ou menos a descoberto) soou, um tiro de canhangulo. Como manda a regra atirámo-nos todos para o chão e, estando o comandante ali mesmo, esperámos pelas ordens dele. Não houve nenhuma ordem porque o próprio pegou na G3, armou-lhe um dilagrama (o dilagrama era uma granada adaptada precisamente por ele às G3) e disparou a dita para o ponto de disparo do canhangulo. O dilagrama estoirou com um barulho enorme. Fez-se silêncio quebrado logo depois, por um chorrilho de insultos em bom português vindo do lado da mata: seus cabrões, vão para o Puto, filhos da puta etc etc ao que os nossos soldados responderam com a mesma moeda: puta é a tua mãe e a tua mulher etc etc tudo terminando numa enorme gargalhada. Eu achei a maior das graças, sobretudo o facto de nos insultarmos em português e pelo menos do nosso lado a rir. Não tenho a certeza de o comandante ter achado graça … porque ele era um militarão!
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