quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Ontem ainda fui à memória do computador buscar uma fotografias que documentam a operação de comemoração do ano da nossa comissão para as passar para aqui mas, infelizmente, são pesadas demais e não entraram (por agora).
Esta operação teve um aparato enorme porque foi feita a nível de batalhão e consistiu essencialmente numa deslocação das companhias do batalhão para um ponto convergente situado num alto de um morro. A esse morro deveria ir ter connosco o brigadeiro da Região Militar, coisa que não sucedeu e por isso fomos mais ou menos todos nós, pertencentes ao batalhão, que participámos nas cerimónias: Uma missa campal que o nosso capelão P. Cordeiro celebrou e uma almoçarada com rancho muito melhorado. Deste almoço guardo na memória, e nas fotografias, a figura do impedido do comandante, de luva e casaco branco, a servir à mesa onde os oficiais e os furriéis se banquetearam: de um lado o comandante, o major Baptista, o capitão Taxa. Do outro, eu o Justino o Gonçalves, o Sá, o Sotto e mais uns. Creio que este acontecimento terá sido certamente original: obrigar o nosso bom capelão a ir rezar nos confins da selva, no alto de um morro!

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Como já escrevi aqui “o nosso comandante”, na altura tenente-coronel, era um herói, considerado um militar competentíssimo e uma “fera”. No meu ponto de vista não era uma fera e sim uma pessoa muito justa, com grande dignidade e com um grande sentido do dever. Por isso, nunca, creio, tive “medo” dele porque sempre o julguei altamente previsível e incapaz de uma patifaria sobre alguém apenas por gozo pessoal. Era porém um “militarão” e isso significava exigência, disciplina, cumprimento do dever mínimo coisa que ele fazia questão de frisar quando, num intervalo de um jogo de gamão que perdi, desenvolveu a teoria, referindo-se ao general Spínola, que o que ele fazia na guerra não era nada de especial porque só aceitava como oficiais os que tinham estofo de herói despachando todos os outros com castigos infamantes. O difícil dizia, era comandar com êxito tropas da cangalhota. Sempre gostei dele embora eu estivesse quase nas antípodas do “militarão”. E só não estava nas antípodas porque tinha a ideia da indispensabilidade de disciplina que procurei manter até ao último momento, estando a minha tarefa muito facilitada pelo ambiente do batalhão. Toda esta introdução para contar um episódio do meu pelotão com o comandante. Além das operações de companhia ainda participávamos em operações de batalhão. Foram várias mas lembro duas em especial: a da comemoração do ano de estadia no Mucondo, que contarei amanhã o que me lembro dela, e a operação em que o comandante se integrou no meu pelotão. Não lembro nem o nome nem as razões da operação. O que lembro é que no último minuto o comandante que assistia ao início da progressão da tropa pela mata fora, integrou-se, ele e a equipa dele, uns cinco ou seis soldados à minha frente de modo que, durante todo o tempo, o tive debaixo de olho. A certa altura, depois de horas de caminhada, quando passávamos junto a uma orla de floresta estando nós do lado de uma “lavra” (portanto mais ou menos a descoberto) soou, um tiro de canhangulo. Como manda a regra atirámo-nos todos para o chão e, estando o comandante ali mesmo, esperámos pelas ordens dele. Não houve nenhuma ordem porque o próprio pegou na G3, armou-lhe um dilagrama (o dilagrama era uma granada adaptada precisamente por ele às G3) e disparou a dita para o ponto de disparo do canhangulo. O dilagrama estoirou com um barulho enorme. Fez-se silêncio quebrado logo depois, por um chorrilho de insultos em bom português vindo do lado da mata: seus cabrões, vão para o Puto, filhos da puta etc etc ao que os nossos soldados responderam com a mesma moeda: puta é a tua mãe e a tua mulher etc etc tudo terminando numa enorme gargalhada. Eu achei a maior das graças, sobretudo o facto de nos insultarmos em português e pelo menos do nosso lado a rir. Não tenho a certeza de o comandante ter achado graça … porque ele era um militarão!

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Continuámos a apanhar mulheres e crianças e ouvindo pouquíssimos tiros e quando ouvíamos eram de canhangulo, como amanhã contarei um dos exemplos.
Um dia chegou a ordem de se fazer uma enorme operação, de nome “Nova Luz” cujo comando seria do próprio comandante-chefe de Angola, o depois célebre general Costa Gomes. A operação partia do princípio de que em toda a região dos Dembos estavam apenas assinaladas duas armas mauser e que as populações não se apresentavam porque tinham medo de serem maltratadas. Era preciso demonstrar que nós não éramos maus e a forma engendrada de o fazer foi o de distribuir rações de combate pela mata acompanhadas de camisolas de interior, hoje chamadas camisolas t-shirts, com os dizeres “Angola é Portugal”. Guardo uma dessas camisolas, embora de momento não saiba concretamente o local onde a guardei, e sempre que penso nelas dá-me uma vontade de rir enorme pelo insólito da situação, horas na mata a andar e noites com chuva, trovões e formigas assassinas para deixar num qualquer trilho umas camisolas e uns mantimentos depois de nesses mesmo trilhos e caminhos, e pouco tempo antes, termos passado a destruir lavras e a chatear o indígena. Em todo o caso foi um momento de enorme descontracção: Só duas armas em toda a região norte? Pela experiência que vivi não poderiam ser muitas mais. Antes isso, pensei.

sábado, 16 de outubro de 2010

Histórias da nossa tropa

Depois de ler os relatos do Vieira, que está um verdadeiro historiador,sou levado a contar algumas cenas. Apesar de ser considerado por todos um aramista,devo dizer que as primeiras

operações foram todas feitas por mim e por outro aramista Pina Silva e estou convicto que a

não ter acontecido a infelicidade ao Seródio( Bébé chorão)e eu teria continuado a ir a todas.

Ao não ser possivel o contacto via rádio o que fez com que o Cap. tivesse dito:- Tem a certeza

que na base estão à escuta?

Apesar de ser apelidado de merda de furriel eu respondi : SE eu estou aqui, como é que quer

que eu saiba o que se passa no quartel!

A partir daí deixei de fazer operações,o que no Mucondo eram quase bi-semanais.

Para isso também contribuio o nosso Comandante que apesar de militarão cumpria as normas

militares.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Inicialmente ir à mata, para além do enorme esforço físico, era também um susto agravado pela ideia de guerra que tinha o nosso capitão, um militar com estofo de herói, com desejo de o ser e, como já disse, um voluntarista terrível. Apesar disso em recente conversa com ele disse-me que eu gostava de fazer operações com ele. E a verdade é que achava que ele, apesar do que disse atrás sobre as suas características, sabia e gostava da profissão dele pelo que entendia que era melhor ir com ele do que comigo próprio. A primeira operação que fiz, depois da lixeira, foi com ele e lembro a espantosa estafadela de dez horas seguidas para cima e para baixo porque, tal como seria na Guiné, mal parássemos levaríamos uma fogueirada terrível. Levou algum tempo a perceber-se que apesar de estarmos numa zona considerada terrível ali o In (inimigo) não tinha poder de fogo nenhum e portanto o que se podia esperar de uma operação de visita a lavras e povoações no meio da mata era apanhar mulheres, velhos e crianças. Foi isso que se fez com bastante sucesso. Ao princípio os soldados corriam com armas e bagagens atrás do pessoal surpreendido nas lavras. Depois largavam as armas e bagagens para mais facilmente desatar na correria. Esses “apanhados” naturalmente ficavam desconfiados de nós. Eram transportados para o quartel onde começaram por comer à fartazana dos nossos mantimentos carregados de sal com consequências médicas inacreditáveis: - em dois dias estavam inchadíssimos e depois o médico tinha que lhes aplicar uma dieta terrível para corrigir o excesso de sal. Passados uns dias os apanhados eram transportados para uma sanzala que nunca visitei e daí, com o maior dos à-vontades, regressavam à mata para visitar os parentes e amigos. De todos os “apanhados” lembro a Teresa de que falei ontem; um homem velho que o capitão convenceu a voltar à mata e chamar a família dele coisa que aconteceu pela metade e, naturalmente do Marcelino, miúdo filho de um chefe vítima da guerra que inicialmente nos chamou os maiores palavrões e desconsiderou-nos tanto quanto soube. Ficou os dois anos connosco. Penso que quando deixámos Luanda o comandante inscreveu-o num colégio interno e que terá sido o herdeiro dos bens do batalhão na data da sua extinção. Lembro nitidamente quando viajámos em coluna militar do Mucondo para Luanda da cara dele que eu expiava com enorme curiosidade quando o mar, que ele pela primeira vez via, apareceu na nossa frente. Que terá sido feito deste Marcelino?

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Para além da rotina do ir à água, à lenha, a Santa Eulália a nossa grande preocupação eram as operações que se sucederam a um ritmo regular. Raramente estávamos descansados. No final, feita a contabilidade, creio que eu participei em cerca de trinta e seis operações. Dormi no mato quase cento e quarenta noites das quais lembro duas em especial. Uma em que choveu como só em África chove, trovejou como também só em África acontece e eu, refugiado numa tenda manhosa, apesar das condições meteorológicas completamente desgraçadas tive que, à pressa, sair do abrigo precário e despir-me totalmente para dar cabo das terríveis enormes formigas que me mordiam em filas sucessivas. Conseguido isso nunca mais tive direito à bisnaga de leite condensado da ração de combate porque a destinava às formigas. Antes de adormecer na mata, a uma distância razoável de mim, despejava a bisnaga que alimentaria as formigas, dispensando as minhas pernas e partes íntimas de as alimentar! A segunda noite inesquecível tem a ver com uma “apanhada”. Sobre os apanhados escreverei noutro post mas aqui lembro que numa qualquer operação apanhámos à mão uma professora de português da escola da mata, chamada Teresa. Tínhamos também feito a selvajaria de destruir as lavras do ponto onde ela foi apanhada. Chorou toda a noite e lembro a enorme vergonha que senti quando sendo lhe dito que nada lhe aconteceria ela respondeu com enorme dignidade, e com grande beleza, que nós éramos uns selvagens que destruíamos as lavras que dariam de comer às pessoas etc. etc
Quando passámos para Luanda, como batalhão de intervenção às ordens do comando chefe, naturalmente não achámos graça nenhuma porque embora nos intervalos de guerra estivéssemos aquartelados no Grafanil, pertíssimo de Luanda naquela altura e hoje no meio da cidade, era suposto que quando fizéssemos guerra esta seria mais à séria do que tinha sido no Mucondo. Foi assim que a notícia de irmos fazer uma operação com os mauzões dos comandos num ponto do Norte de Angola não foi nada agradável de receber. O plano era nós sermos o cerco e eles os atacantes e por isso nós seríamos colocados de helicóptero Puma (que transportava mais de vinte militares) num ponto a novecentos metros de altura. Para o efeito o meu pelotão foi reforçado com nove soldados oriundos dos flechas, coisa que me deu uma enorme satisfação porque os flechas tinham fama de serem óptimos guerreiros e eu pensei que isso era uma protecção adicional para a enorme guerra que se aproximava. O chefe dos flechas era um tal Lourenço, creio que Cabinda mas não tenho a certeza. No dia aprazado lá fomos para o aeroporto militar e embarcámos no enorme Puma que pela primeira vez todos nós experimentávamos. O Lourenço ficou sentado ao meu lado esquerdo em frente à porta lateral. Fechada esta as enormes pás do monstro puseram-se em funcionamento e quando no meio de um barulhão enorme o passarão começa a levantar o Lourenço encostou a cabeça dele ao meu ombro e, com voz assustada diz :– ai meu alferes o que vai ser de nós! Imaginem o estado de espírito em que fiquei pensando: e são estes heróis que nos vão dar segurança? Chegados ao ponto de desembarque lembro ainda que o piloto, que experimentava ainda aquele tipo de helicópteros, queria por força que nós nos atirássemos para o chão de uma altura incrível, coisa que não sucedeu. Apenas quando poisaram mesmo é que desembarcámos. E lá ficámos, no tal morro a novecentos metros, sem que nada se tivesse passado até nos virem buscar uns dias depois e beneficiando de uma absolutamente espectacular paisagem de pôr e nascer de sol, que ainda hoje tenho na retina, e que penso o Gonçalves registou com a sua excelente máquina.