Na prática o terceiro pelotão embora com três secções, funcionou, tanto quanto me possa lembrar, apenas na base da primeira e segunda secção, comandadas pelo Justino e pelo Gonçalves, funcionando a terceira secção como reforço das duas primeiras. Duas funções principais de rotina que se estabeleceram logo de início só acabariam no fim da nossa comissão: – a progressão a pé e em coluna. A pé, pela mata fora, o Justino, ou o Gonçalves, armados de bússola na mão e entre o terceiro e o quarto lugar, mais ou menos, mantinham o Norte, enquanto o pessoal das respectivas secções se revezavam na catana, abrindo caminho. Contando sete a nove nomes integrava-me eu na coluna apeada, com o enfermeiro, o transmissões e o pomposamente chamado guarda-costas. A minha função de rotina era a de, com o mapa na mão, tentar manter-me informado da posição em que nos encontrávamos (não existia GPS!) para, mais ou menos hora a hora, transmitir para o comando (Leão, Leão, as nossas coordenadas são trálá, trálálá). No meio da mata só era possível saber a posição na condição de o Norte (ou Sul fosse qual fosse a direcção estabelecida) ser mantido e se eu não me enganasse na contagem das linhas de água que íamos atravessando, quando não as seguíamos. Um dia, ao terceiro e último dia de uma operação puxadíssima e após mais de dez horas de caminhada pela densa mata, subindo e descendo, o Justino chegou ao pé de mim e disse-me que estava tudo estafado e que era preferível dormir ali mesmo do que avançar até à picada onde os unimogs nos esperavam. Pela minha contagem de linhas de água estaríamos a uns quinhentos metros da tal picada. Mas ter a certeza absoluta? E face ao evidente estafanço da tropa como tirá-la do chão onde tínhamos momentaneamente parado? De modo que lá se ligou ao “Leão, Leão: pede-se autorização para pernoitar mais uma noite. Resposta: diga onde se encontra. Coordenadas tal e tal. Resposta: Avance imediatamente para a picada. Como se atreve a fazer tal pedido? Não pude explicar que embora na minha conta fossem quinhentos metros, sabia lá se não seriam três kilómetros. Felizmente não eram quinhentos metros: os unimogs estavam a uns duzentos metros, do outro lado da base do morro onde tínhamos parado!
A lição que tirei é que há alturas em que a nossa autoridade se esgota e, sob pena de uma revolta, precisa de ser apoiada por uma força superior.
Amanhã ou depois escrevo sobre a progressão em coluna.
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
Os bons momentos
Mucondo
Nem sempre foram maus momentos, também havia momentos de lazer e de divertimento, como esta fotografia documenta.
Aqui um jogo de futebol de seis com a particularidade de nele ter participado o nosso comandante de companhia, então capitão Taxa Araújo.
Em pé da esquerda para a direita, cap. Taxa Araújo, fur. Pinho e Pereira.
À frente, Sebastião, Júnior e Pereira ?" Piruças".
Este jogo foi com o quarto pelotão.
Nem sempre foram maus momentos, também havia momentos de lazer e de divertimento, como esta fotografia documenta.
Aqui um jogo de futebol de seis com a particularidade de nele ter participado o nosso comandante de companhia, então capitão Taxa Araújo.
Em pé da esquerda para a direita, cap. Taxa Araújo, fur. Pinho e Pereira.
À frente, Sebastião, Júnior e Pereira ?" Piruças".
Este jogo foi com o quarto pelotão.
domingo, 3 de outubro de 2010
CCav 2692 - 3º Pelotão
Vou aproveitar aqui um pequeno intervalo de edição de mensagens para publicar, evocando as pessoas, uma fotografia que me foi gentilmente cedida pelo Simões (que aparece na dita), na qual ficou registado o 3º Pelotão da Companhia de Cavalaria 2692.
Felizmente que começam a surgir mensagens a um ritmo que não esperava.
Felizmente que há protagonistas que viveram a guerra e facultam fotos (ou documentos) que permitem - e assim continuarão a permitir - dessa forma perpetuar tão marcante época.
Felizmente que começam a ser publicados episódios que, sob formas simples e frias como são as verdades, são autênticos retratos da complexidade que foi a guerra, tão autênticos porquanto editados por quem os viveu.

Aqui fica, para a posteridade, a foto tirada no Mucondo (penso que no início da nossa "estadia") com os que iriam viver tamanha aventura. Da esquerda para a direita e da primeira fila para a terceira aqui ficam os nomes:
1ª fila: Furriel Justino, Lucas, Gorgueira, Fidalgo, Alferes Vieira, Grulha, Mendes, , Vieira, Marques;
2ª fila: Furriel Gonçalves, Batista, Gonçalves, Baía, Mendes, Batista, Gato, Tavares, Simões;
3ª fila: Furriel Sá, Costa, Ferrador, Santo, Farinha, Sobral, Nogueira, Pereira, Andrade.
Ao ver esta foto recordo a dureza da guerra, o odor da morte, o sabor da sede, o frémito do medo (a que muitas vezes hoje chamamos adrenalina), o sentido do frio e do calor extremos, mas também os trilhos percorridos abertos ou abertos à catanada, que uniu tanta gente que apenas se conhecera poucos meses antes.
Nunca me esquecerei de cada um deles (destes que aparecem na foto e dos outros). E, por muita discordância que nos separasse, também não posso deixar de evocar os comandantes, o da Companhia, então Capitão Taxa Araújo e do Batalhão 2909, então Tenente-Coronel Duarte Silva.
Foram tempos duros, quer do lado das tropas portuguesas quer do lado dos que pegavam em armas lutando pelos seus ideais de liberdade.
Mas foram também - o que ironicamente hoje tanto falta - tempos de solidariedade entre pessoas que, de um lado ou do outro, penetravam no maravilhoso e duro mundo da selva africana, tão belo quanto mortífero.
Por aqui me fico, por hoje. Recordo todos com muita amizade e saudade de voltar a ver os que nunca mais vi.
António Gonçalves
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Talvez, antes de continuar a contar histórias da tropa que a minha memória vai puxando, e actualizando, para a actualidade, seja útil enquadrar as ditas histórias no que eu pensava e com o que é que eu estava influenciado quanto às minhas funções.
Desde pequeno ouvi o meu pai recordar, com o seu amigo e meu padrinho José Blanc de Portugal, a sua passagem militar por um quartel no Algarve em que este último teria tentado uma experiência bondosa de abandalhamento do pelotão que comandava. Ambos riam à gargalhada com os resultados alcançados - a mais completa barafunda - exigindo depois um reforço terrível de “porradas” para repor “a ordem”.
A segunda historieta passou-se já em Estremoz imediatamente antes da formação do nosso Batalhão. Estando lá colocado e sendo “aspirante” ou “suspirante” a “oficial miliciano” fui nomeado chefe da secção de material de guerra. Tinha vinte e um anos; nunca tinha comandado coisa nenhuma; não sabia absolutamente nada de “material de guerra” e tinha como colegas da secção um sargento sabichão do “quadro” e uma praça com anos de experiência. Logo nos primeiros dias o tal sargento pôs-me um montão de papéis na frente dizendo-me que precisavam da assinatura do comandante do quartel ten. cor. Fontoura. Pensei, naturalmente, que o dito comandante sabia que eu nada sabia daquilo e, sem sequer ler os ditos papéis, dirigi-me ao seu gabinete. Foi um enorme enxovalho porque a primeira pergunta sobre o papel que lhe passei para a mão foi: o que é que quer este gajo neste papel? Fiquei em completo silêncio e fui corrido do gabinete com uma série de advertências: que falta de sentido das responsabilidades! Que falta de respeito para com os “superiores”! Que incompetência descarada etc etc. E nem a minha tímida resposta: mas o sargento sabe tudo! Foi ouvida: – você é o chefe. Bem ou mal, parece que mal, você é que tem a responsabilidade.
Nunca mais, julgo, esqueci a lição de ter de entender a essência das responsabilidades que se têm.
A terceira condicionante foi as palavras do meu pai, dois meses depois repetidas em carta para o Mucondo, quando, muito comovido, me abraçou no cais de Alcântara, na despedida, imediatamente antes de embarcarmos no Niassa: – Tem cuidado, não te armes em herói, mas cumpre o teu dever.
O meu dever ficou assim marcado: – Não deixar abandalhar o pelotão; ir e voltar com todos os homens, isto é, não deixar que houvesse qualquer responsabilidade minha na morte de alguém do meu pelotão e, naturalmente, não me “armar em herói” conselho que evidentemente era dispensável mas que eu entendi como não deixar que o pelotão tivesse intenções heróicas. Guiei-me sempre por estes objectivos e por isso escrevi no tal diário, no final da comissão, que tinha feito o que o meu pai me aconselhara. Com muita sorte, porque o nosso batalhão foi muito bem comandado e disso dependia, em primeiro lugar, a essência da coisa.
Desde pequeno ouvi o meu pai recordar, com o seu amigo e meu padrinho José Blanc de Portugal, a sua passagem militar por um quartel no Algarve em que este último teria tentado uma experiência bondosa de abandalhamento do pelotão que comandava. Ambos riam à gargalhada com os resultados alcançados - a mais completa barafunda - exigindo depois um reforço terrível de “porradas” para repor “a ordem”.
A segunda historieta passou-se já em Estremoz imediatamente antes da formação do nosso Batalhão. Estando lá colocado e sendo “aspirante” ou “suspirante” a “oficial miliciano” fui nomeado chefe da secção de material de guerra. Tinha vinte e um anos; nunca tinha comandado coisa nenhuma; não sabia absolutamente nada de “material de guerra” e tinha como colegas da secção um sargento sabichão do “quadro” e uma praça com anos de experiência. Logo nos primeiros dias o tal sargento pôs-me um montão de papéis na frente dizendo-me que precisavam da assinatura do comandante do quartel ten. cor. Fontoura. Pensei, naturalmente, que o dito comandante sabia que eu nada sabia daquilo e, sem sequer ler os ditos papéis, dirigi-me ao seu gabinete. Foi um enorme enxovalho porque a primeira pergunta sobre o papel que lhe passei para a mão foi: o que é que quer este gajo neste papel? Fiquei em completo silêncio e fui corrido do gabinete com uma série de advertências: que falta de sentido das responsabilidades! Que falta de respeito para com os “superiores”! Que incompetência descarada etc etc. E nem a minha tímida resposta: mas o sargento sabe tudo! Foi ouvida: – você é o chefe. Bem ou mal, parece que mal, você é que tem a responsabilidade.
Nunca mais, julgo, esqueci a lição de ter de entender a essência das responsabilidades que se têm.
A terceira condicionante foi as palavras do meu pai, dois meses depois repetidas em carta para o Mucondo, quando, muito comovido, me abraçou no cais de Alcântara, na despedida, imediatamente antes de embarcarmos no Niassa: – Tem cuidado, não te armes em herói, mas cumpre o teu dever.
O meu dever ficou assim marcado: – Não deixar abandalhar o pelotão; ir e voltar com todos os homens, isto é, não deixar que houvesse qualquer responsabilidade minha na morte de alguém do meu pelotão e, naturalmente, não me “armar em herói” conselho que evidentemente era dispensável mas que eu entendi como não deixar que o pelotão tivesse intenções heróicas. Guiei-me sempre por estes objectivos e por isso escrevi no tal diário, no final da comissão, que tinha feito o que o meu pai me aconselhara. Com muita sorte, porque o nosso batalhão foi muito bem comandado e disso dependia, em primeiro lugar, a essência da coisa.
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
À chegada ao Mucondo julgo que estávamos todos muito apreensivos desde logo porque à esquerda da porta de armas, porta que, naturalmente, não existia, situava-se um cemitério que nos fazia lembrar o nosso eventual próximo futuro.
Os primeiros dois ou três meses da comissão foram de uma enorme tensão por, creio, três razões: primeiro porque estávamos integrados num batalhão que, dizia-se, tinha um comandante que era uma fera e despachava “porradas” por dá cá aquela palha; segundo porque o “nosso” capitão tinha experiência de guerra da Guiné não parando de nos contar histórias absolutamente deprimentes para quem não era nenhum herói (emboscadas por todo o lado, minas a todo o momento, feridos, estropiados … eu sei cá). E foi nesse ambiente de enorme tensão (ou medo) que o capitão me mandou, creio que no primeiro dia da nossa chegada ao Mucondo, armar uma emboscada à “lixeira” que se situava pouco abaixo do citado cemitério. Lá fomos, não me lembro se com o pelotão inteiro ou apenas uma parte dele, e lá ficámos um bocado naquela escuridão a olhar tristemente para o cemitério iluminado pelas luzes do quartel.
A lixeira tinha uma fogueira aberta onde o lixo ardia lentamente. A certa altura ouviram-se uns estalos que imediatamente identificámos como um “ataque às nossas forças”. E foi assim que mandei disparar um dialagrama para cima do ponto de origem dos disparos (a lixeira). A granada explodiu devidamente, fez um cagaçal enorme e, logo de seguida nada se passou. É claro que isto tudo provocou um fenomenal alvoroço no quartel, que se julgou igualmente atacado. Lá regressados e depois de identificados os estampidos como cartuxos de balas abandonados na fogueira da lixeira que ardia fui, evidentemente, gozado, chamado de maçarico e tudo o mais. Mas escrevi no meu diário: - Não me ralei, mais vale prevenir do que remediar.
Os primeiros dois ou três meses da comissão foram de uma enorme tensão por, creio, três razões: primeiro porque estávamos integrados num batalhão que, dizia-se, tinha um comandante que era uma fera e despachava “porradas” por dá cá aquela palha; segundo porque o “nosso” capitão tinha experiência de guerra da Guiné não parando de nos contar histórias absolutamente deprimentes para quem não era nenhum herói (emboscadas por todo o lado, minas a todo o momento, feridos, estropiados … eu sei cá). E foi nesse ambiente de enorme tensão (ou medo) que o capitão me mandou, creio que no primeiro dia da nossa chegada ao Mucondo, armar uma emboscada à “lixeira” que se situava pouco abaixo do citado cemitério. Lá fomos, não me lembro se com o pelotão inteiro ou apenas uma parte dele, e lá ficámos um bocado naquela escuridão a olhar tristemente para o cemitério iluminado pelas luzes do quartel.
A lixeira tinha uma fogueira aberta onde o lixo ardia lentamente. A certa altura ouviram-se uns estalos que imediatamente identificámos como um “ataque às nossas forças”. E foi assim que mandei disparar um dialagrama para cima do ponto de origem dos disparos (a lixeira). A granada explodiu devidamente, fez um cagaçal enorme e, logo de seguida nada se passou. É claro que isto tudo provocou um fenomenal alvoroço no quartel, que se julgou igualmente atacado. Lá regressados e depois de identificados os estampidos como cartuxos de balas abandonados na fogueira da lixeira que ardia fui, evidentemente, gozado, chamado de maçarico e tudo o mais. Mas escrevi no meu diário: - Não me ralei, mais vale prevenir do que remediar.
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
A memória, felizmente, retém mais o que de bom ou engraçado se passou do que propriamente as coisas terríveis que nós no momento vivemos. É claro que a nossa guerra foi um cansaço, uma solidão, um tempo de apreensão, para não dizer de medo. Mas de tudo isso ficou, para mim, uma experiência absolutamente inesquecível que, talvez, tenha tido mais importância da minha formação pessoal do que muitas outras experiências que não identifico. Quando entrei em Mafra (com vinte e um anos!) era completamente diferente do que me tornei ao chegar a Lisboa, vindo de Angola, com vinte e quatro anos. E essa experiência intensa nunca mais teve, na minha vida profissional que se aproxima agora do fim, qualquer período que se lhe pudesse comparar em aprendizagem compactada, aprendizagem essa que me foi muito útil e pela qual, imaginem, estou agradecido.
Em duas ou três mensagens neste blog, em boa hora criado pelo António Gonçalves que pertenceu ao meu pelotão e que foi, com o Justino, uma figura absolutamente fundamental, vou escrever dois ou três episódios mais marcantes para a minha memória. Se eles correspondem ao que de facto se passou, não posso garantir; só posso dizer com o meu saudoso e querido amigo, José Aragão, do primeiro pelotão, no fim de uma história qualquer de guerra sempre muito apimentadas: – “não estás a acreditar, pá, mas juro-te que é verdade. Se calhar tu não estavas lá naquela altura”. Amanhã escrevo a primeira.
Em duas ou três mensagens neste blog, em boa hora criado pelo António Gonçalves que pertenceu ao meu pelotão e que foi, com o Justino, uma figura absolutamente fundamental, vou escrever dois ou três episódios mais marcantes para a minha memória. Se eles correspondem ao que de facto se passou, não posso garantir; só posso dizer com o meu saudoso e querido amigo, José Aragão, do primeiro pelotão, no fim de uma história qualquer de guerra sempre muito apimentadas: – “não estás a acreditar, pá, mas juro-te que é verdade. Se calhar tu não estavas lá naquela altura”. Amanhã escrevo a primeira.
terça-feira, 28 de setembro de 2010
Gomes e os rádios fora deserviço
Estava eu recordando alguns momentos passados durante a nossa estadia no Mucondo,quando
me ocorreu um episódio que é bastante "divertido" e diz tudo....
Depois do ataque a uma fazenda da qual originou a morte dum trabalhador havia queprocurar
os elementos culpados.
Gomes,monte um rádio na viatura porque temos de ter comunicações ,depois de várias tentativas sem exito:
Meu Capitão não consigo. o~rádio vai-se abaixo com omotor da viatura.
Vá vestir o camuflado e vai no lugar do rádio .
Chegados próximos do rio,enquanto todos todos sairam das viaturas com excepção dos condutores ,ao Gomes não foi permitido porque naquela altura não era o Furriel de transmissões,
era apenas um ANGRC9.
me ocorreu um episódio que é bastante "divertido" e diz tudo....
Depois do ataque a uma fazenda da qual originou a morte dum trabalhador havia queprocurar
os elementos culpados.
Gomes,monte um rádio na viatura porque temos de ter comunicações ,depois de várias tentativas sem exito:
Meu Capitão não consigo. o~rádio vai-se abaixo com omotor da viatura.
Vá vestir o camuflado e vai no lugar do rádio .
Chegados próximos do rio,enquanto todos todos sairam das viaturas com excepção dos condutores ,ao Gomes não foi permitido porque naquela altura não era o Furriel de transmissões,
era apenas um ANGRC9.
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